Passados dez meses da leitura do primeiro volume da trilogia Elenium , não via a hora de ler o segundo – O cavaleiro de rubi (Aleph, 376 páginas), por causa do enredo bem amarrado por David Eddings em “O trono de diamante” e a complexa construção de suas personagens que me ganharam facilmente e me fizeram perder várias horas de sono.
Dito tudo isso, pensei comigo: “Não será fácil retomar a leitura depois de tanto tempo”. Não me lembrava da maioria das personagens. Então Eddings, cuidadosamente, lança mão de um prólogo introdutório para nos orientar. Pronto, lá estava eu novamente viajando pelas terras de Eosia, mapa nas mãos, olhos atentos e vigilantes, ao lado do leal cavaleiro Sparhawk:
“— Eu sou o campeão da rainha — Sparhawk a lembrou. — Devo fazer o que me for possível para salvar sua vida. — Ele se levantou e caminhou em direção à pequena styrica. — E enquanto Deus me der forças, Sephrenia — ele declarou —, invadirei o próprio inferno para salvar aquela garota.”
Só para relembrar: a rainha Ehlana encontra-se em uma espécie de animação suspensa após ter sido envenenada, dentro de uma redoma de diamante, graças à styrica Sephrenia que com um feitiço conseguiu impedir sua morte à custa da vida de 12 Cavaleiros Pandions que vão perdendo a própria vida à medida que o tempo vai se esgotando. O único antídoto parece ser uma “pedra” preciosa de imenso poder.
A saga não perdeu o frescor inicial, mas sejamos pragmáticos: há inúmeros problemas com a fonte da edição, com caracteres estranhos no lugar de letras. Faltou cuidado da revisão ou na preparação do texto, não sei. Espero que nas próximas edições seja corrigido.
Voltemos à trama. Sir Sparhawk em companhia de seu grande amigo Kalten, sua mentora styrica Sephrenia, dos Cavaleiros da Igreja Berit, Bevier, Tynian, Ulath (passei e vê-lo com outros olhos, tomou o lugar de Kalten como o mais espirituoso deste livro), seu fiel escudeiro Kurik, mais Talen (filho bastardo de Kurik e personagem maravilhoso) e a estranha Flauta, partem em busca da única fonte de poder que poderá livrar a rainha Ehlana do mal que lhe aflige – a pedra Bhelliom.
O amigo Kalten está lá, com sua inteligência bronca, sua sutileza paquidérmica e seus diálogos amedrontadores, sempre se fazendo entender (é um dos personagens que mais gosto do primeiro livro e que ficou um pouco apagado neste):
“— Só mais uma coisa, meu senhor abade — Kalten acrescentou. — Poderíamos lhe pedir um pouco de comida, se não for muito estorvo? Estamos na estrada há algum tempo, e nossos suprimentos estão ficando escassos. Nada de muito exótico, é claro... algumas galinhas assadas, talvez, quem sabe uma peça de presunto ou duas, um pedaço de toucinho, quiçá lombo de boi.
— Claro, Sir Cavaleiro — o abade anuiu rapidamente.
...
— Você tinha que fazer aquilo? — Sparhawk perguntou a Kalten conforme eles se afastavam.
— Caridade é uma das virtudes cardinais, Sparhawk — Kalten respondeu altivamente.
— Gosto de encorajá-la sempre que posso.”
O grande problema é que eles não estão sozinhos nesta empreitada e encontrá-la pode não ser assim tão fácil. O troll Ghwerig, que lapidou a pedra, lhe quer de volta e não é uma boa política se meter com um troll, mesmo que ele seja todo deformado e menor que seus pares:
“... as pessoas passaram a se perguntar o que exatamente os styricos estavam buscando. Foi assim que os boatos começaram sobre o tesouro. Aquele terreno foi arado e peneirado mais de cem vezes. Ninguém tem certeza sobre o que está realmente procurando, mas todo mundo em Lamorkand vai até lá uma ou duas vezes durante a vida.”
Terão que enfrentar perigos e emboscadas em toda a jornada. Os inimigos do primeiro livro estão lá, mas de forma velada, sem uma participação contundente (ficarão para o terceiro livro, com certeza). Lugares como Ghasek poderão ser a chave que abre a porta da descoberta, mas seria mesmo um bom lugar para se procurar?