"Raiz forte": acidez e angústia num livro bem contemporâneo
"Raiz Forte" (PAtuá, 2015) é um livro tão bom que chega a ser irritante. Causa na intelecção o que o wasabi causa ao paladar, uma necessidade de refresco. Os contos são longos, cheios de detalhes, o que faz lembrar, de certa forma, a escrita proustiana, mas não há palavras desnecessárias. Edson Valente e o seu narrador, seja em primeira ou em terceira pessoa, utilizam recursos estilísticos que vão da supressão dos pronomes retos até a quase ausência de adjetivos. Ou seja, ele domina a carne crua que é a literatura com uma secura que só se estende por conta do fluxo de consciência presente em grande parte das histórias. Aliás, falar em histórias lembra o conceito de enredo, o que, algumas vezes em "Raiz Forte", também é suprimido, supressão esta que provoca a prosa poética. Destacar algum conto é difícil, todos são muito bons. Mas "Mobília" é um entre os melhores. Tem uma marcante passagem: "A primeira vez que subi em uma cadeira foi para ficar do tamanho do meu pai. Considerem que, na minha percepção inocente, uma escada levaria até o céu, abarrotado de anjos e boas intenções realizadas. Subir em uma cadeira era então um bom começo, especialmente para crescer e olhar nos olhos dos que estavam sempre acima. Nem tive o cuidado, na ocasião, de limpar os sapatos, ou os pés, pressuposto que devia que devia estar despreocupadamente desclaço". Nesse conto, as personagens são peças de mobiliário: cadeiras, penteadeiras exibioncistas etc. A poesia está sempre presente na ambientação dos enredos ou fluxos de consciência. São expressões como: "Sua inocência de menina era órfã". ("Direitos Reservados"), ou: "Quando os sonhos passam a bater na porta dos fundos com medo de incomodar o dono da casa, é sinal de que alguma coisa vai realmente mal". ("Céu de brigadeiro). Todos esses recursos estilísticos estão concentrados no conto "Hero", uma grata surpresa no miolo do livro. Para o fim do volume, o autor guarda "Não chores por mim", esta sim, uma verdadeira viagem ao inconsciente, iniciada com minúscula e correndo várias linhas sem ao menos um sinal de pontuação. E, para fechar a obra com estilo, um micronto: "Por um fio" "Neste momento, todas as linhas do serviço solicitado estão ocupados. Por favor, chame novamente daqui a alguns minutos. Obrigado." E isso é o quê, além de um convite à releitura e uma exaltação da angústia que percorre todo o livro de Edson Valente? Para lê-lo, é mister ter estômago para digerir raiz forte, e a voracidade literária de percorrer os meandros estilísticos de um livro que foi bem concebido e está pronto para ir para a sua prateleira.
