Os Igaraúnas - Raimundo de Morais

    não informado

    RK - Roswintha Kemof
    1938
    207 páginas
    6h 54m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro

    Romance amazônico, histórico e sobre costumes paraenses.

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    R .27/01/2016Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A obra tem um olhar interessante, refletindo a erudição do autor e um retrato de época com seus saberes. O livro foi publicado em 1938 e é protagonizado pelo Coronel Anastácio, conhecido na região como Igaraúna. O cenário é a vida interiorana às margens do rio Tocantins e, voltando ao que havia citado, o contexto é descrito com riqueza de detalhes, em abordagens que tratam de aspectos sociológicos, culturais, ambientais, históricos, científicos, políticos e geográficos. Essa característica mostra a valorização do autor pelas pesquisas. O texto, às vezes, transcende a descrição usual e corriqueira para dissertar de maneira instigante e reveladora sobre a região em suas peculiaridades. Raimundo de Morais é refinado e o livro tem esse paralelo curioso entre os saberes culto e tradicional. Entre as coisas que me chamaram mais atenção cito a viagem que fez a Belém. A narrativa descreve um naufrágio e, de seus desdobramentos, o coronel é procurado pela imprensa por estar entre os sobreviventes. Ocorre um pequeno embate entre ele e uns jornalistas metidos a "sabichões", onde o autor valoriza o saber também no traquejo e experiência de vida. O contexto dessa e outras situações são como uma crítica e revelação de um jogo de interesses na sociedade. As situações vivenciadas pelo coronel são elementos no retrato de época ou instigantes a uma abordagem de pesquisas do autor. Assim acontece no regresso a sua fazenda, no Redentor, onde encontra a pesquisadora alemã Emília Snethlage, que lhe dá "admiráveis aulas". Explicações sobre a região, instigantes ao coronel e ao leitor. Ressalte-se que a pesquisadora é uma figura real e representativa na História do Pará, com importância no estudo e catalogação de várias espécies e como diretora do Museu Goeldi em Belém. A vida na fazenda tem situações exploradas também com um olhar muito interessante, culturalmente falando. Por exemplo, nos festejos do São João e outras manifestações populares, o autor surpreende com suas considerações. O mastro é mostrado como um símbolo fálico, remontando à percepções pagãs absorvidas e suplantadas pela Cristandade. O capítulo sobre "O Boto" é muito bacana em seu início, com um estudo do caso, e a parte sobre o embate canoro na floresta , "Uirapuru e Carachué", é uma descrição em forma de conto que traz uma leitura muito prazerosa. O texto é muito bonito. Politicamente falando, há também o retrato das "maracutaias" comuns, já naquela época, no início do século XX, onde muitos candidatos tinham garantidos até o eleitorado do cemitério. E não é que muitos finados votavam... O homem, a terra, seus costumes, pontos relevantes no livro. Emília Snethlage tem uma segunda e terceira passagens na obra, dessa vez na fazenda, um aspecto que sempre valoriza o livro e a leitura. O conhecimento popular é valorizado e apresenta-se nas descrições sobre o igapó, onde temos um encontro com o poraquê e com a luta extraordinária entre uma anta e uma sucuri. João Cabeludo, mestiço e representativo desse saber, é quem nos conduz nessa ciência amazônica, tão arraigada e vista hoje ainda. Vai dizer que nunca ouviu aquela do poraquê que dá choque no pé de algumas árvores (taperebá, na descrição do livro) para apanhar frutos? Ou que sucuri come até anta.... Gostei bastante e a obra tem também seus tons de mistério e ação, com um desfecho dramático ao coronel e sua família, em uma época descrita com romantismo, fidelidade à História e com suas curiosas particularidades para se conhecer.

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