Dizem que as distopias são, de certa forma, uma impossibilidade tal qual a utopia. Pois bem, Yeonmi Park viveu o que para muitos de nós é inconcebível. Será? As distâncias (diversas) nos faz perder horizontes...
Ao final desta leitura, fui questionada por minha afilhada (uma garotinha de 8 anos), que leu o título da obra: "ela está te ensinando a viver?" Ao que respondi: "Está."
A escolha da intitulação dos capítulos (Coreia do Norte; China; Coreia do Sul) articula o que tão bem é proposto na escrita autobiográfica, isto é, vivermos com ela.
Aprendemos sobre história, geopolítica, apagamento cultural, duplo-pensar (ref. 1984), identidades forjadas dentro de um regime ditatorial, entre outros.
O que me chama atenção, além do mundo que se desvenda ao meu olhar, é a capacidade de narrar momentos de alegria, mesmo em uma infância marcada pela dor.
Podemos contar nossa história, para nós próprios, sem romantizar o horror ou satirizar as dores (uma tentativa óbvia de não lidar com ela?), mas também sem nos afundarmos a amargura e extrema autopiedade. O que nos é familiar se destina, quase sempre, a um lugar saudoso.
A trajetória marcada pelo tráfico de pessoas e extrema violência contempla o período até a chegada na Coreia do Sul. Concordo com o que li sobre: uma resposta eloquente à pergunta: "até que ponto estamos dispostos a sofrer em nome da liberdade?"
As páginas finais do livro deslocam a narrativa de uma trajetória marcada pela busca por uma liberdade coletiva (salvar a própria família) para as reflexões de Yeonmi a respeito de si mesma, o que curiosamente se engendra no reconhecimento & estranhamento de si nos outros (alteridade?) .
Finalmente ela pertencia a si: com o alívio e a dificuldade que duplamente nos atravessa quando conhecemos a nós mesmos (essa: travessia eterna).
Importante acrescentar que o prólogo do livro lhe leva a inevitável leitura de toda obra. Se iniciar, saiba: terá de lidar com grande mobilização emocional.
Recomendo se (nesse momento) for emocionalmente possível para você.