Quando eu comecei a ler esse livro ouvi muitas opiniões negativas sobre ele, mas não desanimei. Quando cheguei ao final estava confusa e não sabia como lidar com a história que havia sido apresentada a mim. Existiam coisas maravilhosas no livro que pesavam positivamente, mas também haviam algumas outras que seguiam um caminho contrário.
A primeira coisa que precisa ser tirada do caminho é que o livro não é sobre a temporada de acidentes, ele apenas se passa nesse período. Acho que essa foi a maior birra do pessoal com o livro, não tem o que dava nome ao livro explorado de forma mais funda ou com mais destaque. Logo que eu vi que a história se desprendia disso, mudei minha perspectiva e dei ao livro a opção de me levar pela mão em outras direções.
A família de Cara é estranha não só por essa “lenda anual” que os persegue, mas sua estrutura também está balançada. A mãe morre de medo da temporada; Alice lida com seus próprios problemas sem compartilhá-los, renegando a crença da mãe; Sam acredita sem muito entusiasmo e vai levando a vida, sempre com um pé atrás por ter sido abandonado; e Cara fica no meio do caminho, crendo e tentando desviar de tudo pra que ninguém saia machucado, física e emocionalmente.
“A temporada de acidentes deixa marcas.”
A protagonista é uma adolescente responsável, mas quando vê a oportunidade de viver algo novo e inexplicável, abandona toda a postura inicial. E, sim, tenha em mente que esse é um livro com realismo mágico. Há muitas coisas aqui sem explicação que acontecem de forma fantástica ou sobrenatural com os personagens. São momentos, experiências e visões que fogem de qualquer explicação.
E, pra mim, está ai a beleza da história de Moïra: instigar os leitores a acreditar em algo não real num primeiro momento – a temporada de acidentes -, pra depois inter laçar outros fatos ainda mais surreais para, na verdade, dar a eles o foco da narrativa. Todos esses fatos vão ser expressados de forma lúdica, quase como um sonho, onde apenas seguimos a trama sem verdadeiramente poder interferir de forma consciente nela. Essa construção pra mim foi ótima e eu me surpreendi em como a autora foi capaz de tecer uma teia tão grande em tão poucas páginas.
Mas, ao alcançar o fim, me vi soterrada por uma maré de conexão que me tirou um pouco do clima. Na publicidade a gente usa um termo pra isso, que é “quando a cobra morte o rabo”. Ou seja, quando o começo faz toda uma volta pra se encontrar com o final. Porém, essa cobra aqui deu várias e várias voltas e mordeu tanto o rabo que deve ter caído um pedaço.
O leitor sempre busca respostas e sempre fica feliz quando vê a coisa fazendo sentido e se conectando. Mas às vezes a conexão é demais. Ninguém na história é “real”, pois todo mundo tem algum grande segredo devastador escondido em baixo da cama. Algo horrível e definitivo. E, em algum momento, vem essas revelações, como todo mundo jogando seus grandes segredos na mesa. E, vários desses segredos, pautados pelo clichê de situações que já vimos antes, que já são previsíveis.
“Estou petrificada por trás da máscara. Talvez eu nem seja mais humana.”
Esse é um livro que inclui uma série de temas em sua narrativa e, ao meu ver, a autora quis tornar tão forte e cheio de desdobramento o “real”, quanto ela fez com o “não-real”, e isso pesou negativamente pra mim. Se não há necessidade de responder 80% do que ela fez de lúdico, porque precisava dar 200% de fechamento pra algo que é o nosso dia-a-dia, mas que não é, porque ninguém aqui é comum ou vive uma vida sem esconder algo. É inegável que o livro trabalha diversidade em vários aspectos, mas se perde no final, na hora de decidir o que deve ter mais peso de impacto na narrativa.
Esse é um livro que gera uma série de discussões. Há pelo menos cinco temáticas fortes fora da temporada de acidentes pra suscitar debate e isso é muito interessante. Como mencionei já, o fato do livro não focar verdadeiramente na temporada de acidentes não me incomodou, mas fiquei um pouco de pé atrás com a o que a autora decidiu dar atenção na hora de finalizar a história.
Todos os personagens aqui são muito únicos e, pra mim, a mais distante e difícil de compreender foi a Bea. Ela é a melhor amiga da Cara e está sempre com eles. Ela coloca as cartas e possui previsões a ceder. Alice é fechada, mas é fácil sacar ela desde o começo. Ela é mais velha e tem uma vida que vai além do colégio. Já Sam é meio perdido. Ele não me pareceu ter uma personalidade forte, ele simplesmente segue a maré. E Cara foi fácil de entender também, ela é a mais dimensional entre eles. E, apesar de não se exatamente parte do “elenco” principal, temos Elsie. E ela aparece tanto quanto outros dos já citados.
A narrativa é em primeira pessoa pela visão de Cara e às vezes intercala capítulos com outro narrador. A sensação varia entre melancolia, suspense, ação, dúvida e surrealismo, brincando com as dúvidas e a imaginação do leitor. Fora isso a edição é padrão e eu acho essa capa linda, foi por causa dela muito mais do que pela sinopse, que fiquei interessada em conhecer a história.
Se você for ler Temporada de Acidentes, tenha em mente que a história vai bem além do nome e sequer é verdadeiramente sobre ele. Vá com a mente aberta para ter uma trama que por vezes viaja além da compreensão. Não há explicação pra tudo e há coisas over explicadas. Mas, como um livro único, que conta uma história diferente e especial, pela forma como aborda e pela sensibilidade e capacidade até de criar representações implícitas, acredito que a leitura valha a pena.