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    Ana de Amsterdam

    Ana Cássia Rebelo

    Biblioteca Azul
    2016
    192 páginas
    6h 24m
    ISBN-13: 9788525061843
    Português Brasileiro
    3.9
    90 avaliações
    Leram132Lendo10Querem175Relendo0Abandonos7Resenhas5
    Favoritos8Desejados175Avaliaram90

    Ana Cássia Rebelo é uma mulher com suas horas bastante ocupadas, dividindo seu tempo entre o emprego como advogada numa repartição, os três filhos ainda pequenos e um casamento já desgastado. Nessa rotina, que oscila sempre entre o tédio da segurança e o desejo do inesperado, Ana encontra lugar para escrever. E foi assim que surgiu, em 2006, o blog Ana de Amsterdam, em que ela ia registrando esse movimento pendular entre pequenas vitórias e grandes angústias. Das postagens do blog, imensamente literárias apesar de intrinsecamente efêmeras, o jornalista e crítico português João Pedro Jorge pôde organizar uma obra que funciona como diário íntimo, em que os pequenos textos são datados, e vão desenhando uma personagem rica, um tanto misteriosa, capaz de confundir o leitor entre uma doçura maternal e uma rascante agressividade. Com um histórico depressivo, muito inteligente e sensível, o que vemos na sucessão dos dias dessa narrativa fragmentada é o retrato subjetivo da chamada mulher moderna, esse ser quase indefinível. Ana sente desejo e nega-o, ama os filhos, mas se sente sobrecarregada, se apega à vida por detalhes, e encontra o sentido perdido no cotidiano doloroso em um pôr do sol bonito numa cidade indiana. Com parte da família em Goa, essa terra misteriosa em que a Índia fala a língua portuguesa, Ana desenha no país distante a possibilidade de descobertas – como antigos navegadores buscavam especiarias. A mesma busca se dá por uma sexualidade crua, em que não há tabus, e a frigidez, a masturbação, o desejo doente são temas tratados corriqueiramente, conceitualmente e na linguagem – limpa, crua, direta. O resultado desse conjunto coeso de pequenas narrativas é um livro escrito em uma prosa brilhante, que se a filia a nomes como Sylvia Plath e Virginia Woolf, no que todas têm de prosadoras poderosas e marcantes – também finca o pé em certa tradição nacional portuguesa, e o conjunto de fragmentos do livro lembra o Livro do desassossego, de seu conterrâneo mais ilustre. Que o leitor se embrenhe nessa prosa primorosa. Que descubra a literatura contemporânea portuguesa, e que, atentamente, descubra o poder da narrativa feminina. "Uma das vozes mais aguardadas no panorama editorial português. As suas palavras não desiludem a expectativa gerada." — O PÚBLICO

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    Aline Aimée Oliveira04/03/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Lirismo e visceralidade

    Ana Cássia Rebelo é (ou era, não sei) jurista em Portugal, mãe de três crianças, e escreve um blog-diário bastante confessional — o Ana de Amsterdam. O blog chamou a atenção de um editor que sugeriu a publicação do livro, o que aconteceu em 2015 em Portugal e esse ano no Brasil. Os textos de Ana são de uma sinceridade visceral. Revelam a condição feminina de modo honesto e pouco condescendente, tocando e revolvendo inúmeros tabus, como certas desilusões ligadas à maternidade, frigidez, envelhecimento. Ana, de certa forma, constrói uma crônica acerca da mulher contemporânea, ao mesmo tempo em que oferece um olhar muito único e pessoal. Ela diz em seus escritos que sofre de depressão, e vários de seus textos revelam essa relação com o mundo mediada por uma melancolia sempre presente, por uma tristeza constante que, não raro, excede ao desespero. "Antes de adormecer, chega-me sempre a mesma imagem: dois pulsos, um corte ligeiro em cada um deles, lágrimas de sangue escorrem lentamente e ensopam um tapete felpudo cor de café com leite. Não é uma imagem terrível ou angustiante. Não me assusta nem me preocupa. É uma imagem como outra qualquer. Faz lembrar as chagas de um Cristo padecente, mas sereno." Lembrei muito de Sylvia Plath nessa abordagem da morte enquanto alívio. Prossegue-se na vida com a consciência dessa saída de emergência sempre disponível. Mas esse "refrigério" concorre com outros desejos, com outras pulsões constituintes da subjetividade, pois, como a Ana da música de Chico Buarque, que dá nome ao blog e ao livro, há de se "arriscar muita braçada na esperança de outro mar". "Porém, mal saí da loja, percebi a irracionalidade do meu gesto. A compra de tais sapatos não é compatível com o meu desejo de morte. Para que quero uns sapatos de duzentos e dez euros se tomar os setenta e três comprimidos, antidepressivos, ansiolíticos, Voltaren e Clonix, que estão dentro da caixinha roxa? Senti-me estúpida e ri-me da minha desgraça." Sua relação com o mundo é afetada, ainda, pela herança familiar, em especial, no que concerne às mulheres — a mãe, as tias, as avós — de origem indiana. Nesse sentido, seus textos frequentemente remontam ao bordado da própria história, a rituais e crenças, a tradições culturais e familiares que ajudaram em sua constituição psíquica. Ana parece viver, a todo momento, uma falta, ou melhor, uma saudade de algo perdido — algo bonito e singelo que poderia-lhe agregar sentido e força. O texto de Ana é simples, mas incisivo. Traz uma fluidez pontuada aqui e ali por momentos de intenso lirismo. Inclusive, há inúmeras incursões mais notadamente literárias, onde sentimentos e pensamentos são transmutados em metáforas, alegorizados em histórias que Ana cria sobre si e sobre aqueles que observa. "Descubro os meus órgãos espalhados pelo quarto. Recolho os meus pedaços de corpo. Vasculho cantos e sombras. O coração está por baixo da cama, esquecido entre dois pares de sapatos velhos. Ainda bate. Encaixo-o dentro de mim. Suturo-me com a linha que utilizo para apertar os rolos de carne. " Tenho um certo interesse por livros oriundos de blogs. Gosto desse fenômeno da partilha despretensiosa que ganha corpo e relevância, então li quatro ou cinco publicações do tipo, de abordagens bastante diferentes. De todos, o livro de Ana foi o que calou mais fundo. Porque, através dessa escrita forte e poética, ele traz um incômodo muito pertinente e necessário, e que soa muito familiar ao mesmo tempo. Por isso fica.

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    • 4 estrelas29%
    • 3 estrelas30%
    • 2 estrelas7%
    • 1 estrelas2%
    Ana Cássia Rebelo profile picture

    Ana Cássia Rebelo

    Ana Cássia Rebelo é advogada e escritora portuguesa. Lançou no Brasil "Ana de Amsterdam", pela Biblioteca Azul. É uma das escritoras portuguesas mais originais da atualidade. Atirou-se a esta coisa da escrita em 2006 pelos piores e pelos melhores motivos. Chamou a atenção dos leitores no período áureo da blogosfera com o seu blogue Ana de Amsterdam (homenagem à música homónima de Chico Buarque e Ruy Guerra). Disse... escreveu o que ninguém escrevia quebrando o tabu do quotidiano. Em 2015, João Pedro George arrancou-a da rede para o papel. Uma recolha dos seus textos aparece no volume Ana de Amsterdam (Quetzal, 2015) e a crítica une-se em reconhecimento de uma voz única. Em 2016, o Brasil descobre-a e a crítica transatlântica entoa um cânone com a congénere lusa. Em 2017, o blogue silencia-se, mas Ana Cássia traz a sua escrita para as redes sociais onde aperfeiçoa mais ainda a estranha mistura entre realidade e fantasia. Babilónia é o seu regresso ao papel.

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    Ana Cássia Rebelo