Livro sensacional, por diversas razões.
Primeiro porque a idéia de contar a vida de uma freira reclusa -- meio sem vocação -- por meio dos poemas que a própria escreveu ao longo das décadas de vida é uma idéia genial.
Segundo porque o verso de Tolentino é agradabilíssimo, com sua musicalidade fluida e suas frases que se dividem suavemente ao longo dos versos, sem serem forçadas.
Terceiro porque os poemas são muito bons, mesmo considerados isoladamente: as idéias inovadoras, bem apresentadas; as imagens marcantes; as descrições vivas.
Quarto porque a leitura é leve e viciante, não dá vontade de parar: li quase de um único fôlego.
Quinto, por fim, porque está muitíssimo bem feito: os primeiros poemas -- dos jovens anos da freira -- têm uma temática mais sensual, mais de revolta, mais juvenil; ao longo do livro os temas vão mudando, e lá pelas tantas temos uma série de sonetos (maravilhosa) sobre o Castelo Interior de Sta. Teresa, e ao final do livro encontramos poemas de despedidas, de fim de vida, de resignação da morte que já se avizinha.
Um único cuidado que eu talvez tivesse diferente do autor, se fosse eu a escrever o livro, seria o de mudar o estilo do verso ao longo do livro, como a emular o amadurecimento literário da freira: digamos, pôr umas redondilhas mais fáceis no início, e reservar os sonetos e o enjambment para a metade final da obra.