Esta é a obra-prima de Juarez Barroso, e o seu momento de equilíbrio e explosão de talento. Maduro, a artesania mais atilada, o salto de qualidade, a tomada da condição de grande escritor que já se apresentava, fora de equívocos, no seu livro de contos, Joaquinho Gato. Aqui, no entanto, explende. Para quem seguiu a carreira de Juarez e o conheceu de perto, Doutora Isa é, disparadamente, o lance mais alto de uma etapa do autor, trabalhador intelectual que procurava, com ardor e fidelidade -- mais vivência que "pesquisa" --, nos elementos entranhadamente populares, a temática, a forma e a própria razão de ser do seu ato literário. Temerário apontar a maior qualidade neste monólogo sofrido, cantante, bralhado de quase duas centenas de páginas. O universo dos sertões do Matias, o seu componente misto e harmonioso de realidade descarnada e loucura aparente, a fabulação maravilhosa, o feixo de mistérios e tensões, têm o gosto de cantoria violeira, em disparada, na boca amante, louca, terna e viril de Tarciso de Souza Pereira que, feito o ritmo de um cavalo bralhador, desfia a história de Margô, a cafetina que, fugindo à repressão policial, se interna e se redime no sertão do Matias. Uma história só por fora regionalista -- "Como Margô, mulher da cidade, de erro, bebida e orgia, tirando seu sustento da fraqueza da carne, veio bater aqui encantada em doutora anjo dos pobres?" E, na essência, um tento de grande escritor. Tecendo uma trama quase de apólogo, o intricado da personalidade dupla, a coexistência do bem e do mal numa unidade, o monólogo de Tarciso apaixonado apresenta uma fatia do universal no particular. No fundo, a dignidade de uma história de amor: insólita, sofrida, madura, universal. Em seu curso tumultuado, a solidão, o ciúme, o segredo e suas tensões orbitam a área encantada e irreversível dese universo terrível, o do amor, onde o risco e a paixão são as tangenciais que unicamente interessam. O tom profético das palavras do cego Mestre Moisés, no país do Lagedo, o carisma, o misticismo, simultaneamente se reduzem à validade exclusiva do mundo nordestino. Em profundidade, a sua aparição em Doutora Isa é universal e cabe com harmonia nesta frase de François Villon: "Nada é mais seguro do que as coisas incertas". O pano de fundo da história de Margô, cafetina por seis meses redimida, metamorfoseada na doutora Isa, madrinha e protetora dos desvalidos no sertão do Matias, é a miséria perturbadora e nada pitoresca daquelas entranhas do Ceará. Como em suas realizações anteriores, Mundinha Panchico e o resto do pessoal e Joaquinho Gato, o autor soube enxergar, como os raros, que a estratificação daquela geografia, o epicentro de importância, é o homem. Daí, não me parece excessivo certo paralelo com a grande literatura de Graciliano Ramos, guardadas as proporções. Do ponto de vista da forma, Juarez Barroso assume o despotismo, a exuberância da linguagem ambiente. Há momentos preciosos, em Doutora Isa, em que estamos diante de uma cantoria nordestina, ao jeito de um relato violado. Digo obra de grande escritor, exatamente pelo seu equilíbrio instrumental. Não fora um artesanato de padrão alto, a sustentar um ritmo de atmosfera e tensão, em crescendo, Doutora Isa não seria a obra-prima de Juarez Barroso. Sequer passaria de um deslumbramento de autor diante do bom achado. Sem o trabalho dedicado, espinhoso, louvável de Mário Pontes, coordenando os deixados de Juarez Barroso, creio impossível ter-se atingido este resultado. Foi um difícil ato de dignidade intelectual e humana. E, não tenho dúvidas que os meses duros de tarefa frutificaram em uma homenagem póstuma coerente com o peso e o tamanho do autor de Joaquinho Gato. Terá vida longa, sem favor algum. Um dos grandes trabalhos da atual geração de escritores brasileiros e, por certo, aqueles em que Juarez se colocou inteiro, maduro, na culminância de seu talento, que a morte estúpida nos levou aos quarenta e pouco anos. Aqui, uma espécie de forra. O saldo é positivo: Doutora Isa, como Joaquinho Gato, já são parte do nosso patrimônio literário. João Antônio Copacabana, 29 de junho de 1978
Doutora Isa (Vera Cruz #268)
Juarez Barroso
Civilização Brasileira
1978
174 páginas
5h 48m
ISBN-14: 000000001X0011
Português Brasileiro
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