Aunque la mayoría de los novelistas de ciencia-ficción son hombres, existe ya una visión peculiar, desde la óptica femenina y feminista, del género, como las de Úrsula K. Le Guin y Kit Reed. El hombre hembra, aclamada unánimemente por la crítica especializada como una aportación esencial al género, aprovecha al máximo la capacidad potencial de la ciencia-ficción para presentarnos el contraste entre el mundo real (el tipo de vida actual de muchas mujeres) y un mundo imaginario (la vida que podrían llevar en otras condiciones). Todo ello, narrado en un tono poético e intimista que constituye un atractivo más de esta novela extraordinaria. Joanna Russ, nacida en 1937, es licenciada en inglés y «Master in Fine Arts». Desde 1966 ha enseñado literatura en diversas universidades, alternando la actividad docente con la literatura y como conferenciante. Ha escrito más de cuarenta cuentos para varias revistas y antologías de ciencia-ficción. El año 1972 fue galardonada con el premio Nébula al mejor cuento, When it Changed, relato que inspiró posteriormente El hombre hembra. Situada por la crítica junto a Disch y Delany como pionera de la llamada New Wave americana por su lenguaje dotado de una prosa viva, enérgica y atrevida, además de su compromiso con el feminismo radical.
El hombre hembra -
Joanna Russ
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Minha admiração por Joanna Russ vem desde antes do meu contato com The Female Man, quando li um ou dois textos dela no Arquivo Radical um deles, sobre a ideia de misandria, é interessantíssimo. Ela, uma feminista lésbica, sempre foi muito comprometida com a denúncia das mazelas da realidade (seja do regime político da heterossexualidade, da lesbofobia e da divisão entre público e privado para ocultar as desigualdades vivenciadas pelas mulheres). Na ficção científica não poderia ser diferente: crítica de livros e contos das mais diversas autorias (ela foi contemporânea de Ursula K. Le Guin e Philip K. Dick na chamada new wave da ficção científica estadunidense, iniciada entre os anos 60 e 70), sempre deixou bem claro que a escrita de ficção especulativa era (e é), também, uma arena política. . É deste contexto que sai The Female Man, em 1975. Trata-se de uma ficção científica profundamente inspirada pela teoria feminista materialista, desenvolvida na chamada segunda onda do movimento (entre os anos 60 e meados dos anos 80), na medida em que discute a opressão das mulheres a partir de uma vivência real, material, cotidiana, e as marcas que essas pequenas e grandes violências do cotidiano deixam em sua subjetividade. Também é marcada pelo experimentalismo da new wave, por seu foco no desenvolvimento das personagens, em seus sentimentos e relações interpessoais, e não necessariamente nos mecanismos tecnológicos que tornam possível o encontro interdimensional entre suas quatro protagonistas diferentemente da chamada ficção científica dura, ou sci-fi hard. . A história se reveza no ponto de vista de quatro mulheres: Janet, Jeanine, Joanna e Jael. . Janet pertence a Whileaway, uma Terra alternativa em que uma praga eliminou a totalidade da população masculina há milênios, restando apenas mulheres. A sociedade que se desenvolveu, exclusivamente feminina, passa bem longe de ser perfeita, mas apresenta um contexto em que mulheres não são moldadas pelo medo de assédio/estupro, podem se relacionar com as mulheres que desejarem, e estão livres para desenvolver atividades científicas. Whileaway não é um mundo urbano, mas dividido em campos abertos, florestas, fazendas e vilarejos industriais para os quais suas habitantes são alocadas e realocadas para trabalhar no que for necessário. . A história se inicia quando Janet abre um portal para o mundo contemporâneo e é descoberta em plena Times Square. A partir daí, ela passa a entrar em contato com as outras personagens. . Jeanine, por sua vez, é de uma Terra em que a segunda guerra mundial jamais ocorreu, e a grande depressão se estende até a década de 60. Profundamente angustiada e reprimida, a jovem foi criada para acreditar a maior realização de sua vida seria o casamento, a validação masculina e os cuidados domésticos. Acompanhar seu crescimento ao longo da narrativa é bem interessante. . Joanna, possível alter-ego da autora, é de uma Terra mais parecida com a nossa. Uma das poucas mulheres no contexto acadêmico em que trabalha, Joanna é aquela que expressa a fúria e a angústia das expectativas masculinas depositadas sobre ela. Reativa, se autodenomina um female man por realizar tarefas tipicamente associadas ao masculino (graduação, pesquisa, mestrado, etc.), o que só pode significar que ela é um homem mas então, Joanna nos questiona, se ela é homem, por que não é tratada como um? Joanna nos mostra que, não importa o que somos capazes de fazer ou o quanto conquistamos: no fim do dia, fatalmente somos reduzidas ao nosso sexo. . Jael, o ponto catalisador de toda a narrativa (e motivo pelo qual as personagens se encontram), vem de uma Terra marcada por uma guerra entre homens e mulheres, conflito este que ultrapassa os limites de sua realidade, e assume aspecto interdimensional. Interessante e assustadora, Jael é a personagem mais ambígua e questionável da obra, dividindo opiniões entre as demais protagonistas. Falar mais sobre ela renderia alguns spoilers. . A trama em si pode parecer confusa, já que o revezamento entre pontos de vista ocorre sem aviso, e nem sempre é fácil perceber qual personagem narra o quê. Isso, pessoalmente, não me incomodou, e eu me senti como que relaxada na poltrona de um avião, apenas aproveitando a viagem, seguindo minha intuição, sem me preocupar de entender e assimilar tudo. . A escrita de Russ é bastante experimental, passeando pelos universos paralelos, narrando a vida cotidiana das protagonistas e os pequenos detalhes da experiência de opressão que as angustiam (em um dos capítulos conhecemos a jovem Laura, interesse amoroso de Janet, que fornece um relato tocante sobre a repressão de sua lesbianidade). Uma ideia de enredo se delineia com o aparecimento de Jael que, de certa forma, está ali para amarrar algumas pontas soltas da narrativa , mas nem isso descaracteriza a escrita de fluxo de consciência de Russ. É muito menos um livro plot-driven que um relato de experiência e um passeio por diversos estilos literários, metalinguagens e quebras da quarta parede em um dos capítulos, a autora antecipa as críticas que o livro receberia da crítica especializada ao escrever uma série de frases soltas como pretensioso, confuso, imaturo ou feminists demais. Ademais, a própria Joanna (autora) se intromete em alguns momentos, como o espírito da obra, para nos descrever certas situações. . The Female Man é um livro tocante, por vezes furioso, por vezes deliciosamente divertido, que nos apresenta possibilidades de vida, acima de tudo. Em suas passagens mais delicadas (como quando uma das personagens relembra um momento da infância em que presenciara o linchamento de uma mulher por ter sido vítima de abuso), apresenta uma raiva pungente que não pode jamais ser contida. Em vida, Russ advogava pela necessidade de se deixar inspirar pela raiva e pelos sentimentos fortes que nós, enquanto mulheres, somos ensinadas a reprimir. Em The Female Man, o resultado é incrível e catártico, um fogo que queima em silêncio, e que mal posso esperar para reler em um futuro próximo e descobrir algo novo que não tinha percebido antes.
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