“Os japoneses – povo de artistas – são os grandes amorosos da criação, da forma, da vida; ninguém como eles conhece melhor os segredos da ave, do insecto, do réptil, do peixe, dos moluscos, do verme, de todos os seres da terra; a animalidade graciosa desses seres, estudada com percepções especiais, que nos escapam, constitui o tema mil e mil vezes variado, dos seus primores de arte. Mas esse mostro, essa disformidade, essa alforreca que se apresenta como uma única excepção da lei geral da gentileza da vida, e parece resumir em si o enfado inteiro de um dia de mau humor do Omnipotente, devia ter deixado impressões tristes nos primeiros japoneses que a avistaram; e foi preciso arranjar logo uma explicação condigna do fenómeno.” – e este texto foi escrito no inicio do século XX – “Chega um comboio, estava, demora-se um instante. É então a confusão última, o delírio das corridinhas, a gargalhada de despedida, e a perna nua que avança do Kimono, sem pudores, e alcança a portinhola em curvas impagáveis; lá dentro, é a agitação confusa de mil cabeças; e dois mil braços gesticulam ao mesmo tempo, irrompem pelos postigos fora como uma coruja de serpentes, querendo também mercadejar, reclamando um jornal, um bolo, um pêssego, um bento, um bule de chá. E roda o comboio, e a turba que fica, curva-se ao ver fugir-lhe um amigo, um conhecido, um amo, um cliente, ou por simples mímica imitativa; e todas as cabeças quase tocam o chão na derradeira reverência. Sayonara!…”
A Dança Das Borboletas (Horas Extraordinárias #12)
Wenceslau de Moraes
O Independente
2004
156 páginas
5h 12m
ISBN-10: 9729437173
Português
Edições (1)
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