A década de 1990 foi um tempo difícil para os nerds. Não havia internet. Não havia revistas que falassem de coisas nerds. Aproveitando esse espaço, foi criado a revista Herói, a primeira revista no Brasil a tratar de assuntos da cultura pop de maneira despojada e sem subestimar os jovens leitores. Essa revista em formatinho, de 32 páginas e que custava apenas R$1,95 foi um verdadeiro divisor de águas no jornalismo do Brasil e no mundo nerd.
Pegando carona no sucesso do anime de maior sucessor da época, Os Cavaleiros do Zodíaco, a revista foi um enorme sucesso. Apesar do anime ser o carro-chefe da revista (boa parte das capas era sobre ele), também encontrávamos matérias sobre várias animações, gibis, séries, filmes, jogos, brinquedos, etc. A revista tratava esses assuntos de forma séria mas com uma linguagem de fácil entendimento. Antes da Herói, esses assuntos eram raramente tratados na mídia tradicional, sendo sempre tachados como “cultura inútil” ou algo de pouco prestígio se comparado à “alta cultura”. Os demais meios de comunhão não entediam o que era a revista nem o porquê de fazer tanto sucesso. No seu auge, a revista Herói chegou a vender 400 mil edições de um mesmo número! Mais que a revista Veja!
Pode parecer exagero mas a Herói conseguiu canalizar essa carência por informação da cultura pop e criar toda uma geração nerd. Foi através dela que muitos tiveram contato com animes, heróis como Fantomas, Patrulha Estelar, Spawn, Aquaman, etc. A Herói pavimentou o caminho para que outras revistas sobre esse assunto fossem criados, para que os mangás chegassem ao Brasil, para que sites como Omelete fossem criados e até mesmo eventos como A Comicon Experience foi consequência desse processo todo.
O livro em si não é perfeito. Ao invés de contar a história da revista de forma tradicional através do autor e seu único ponto de vista, o autor usa depoimentos de vários envolvidos na criação da revista, o que acaba sendo muito interessante, pois acabamos tendo vários pontos de vista de um mesmo acontecimento. Na sessão onde mostra informações sobre os envolvidos, poderia ter colocado informações sobre o que estão fazendo atualmente, ao invés de repetir os depoimentos dados no início do livro. Mas de qualquer forma, é uma obra muito especial, feita especialmente para os fās. Para quem viveu aquela época, é impossível não ler esse livro com um sorriso estampado no rosto e dar suspiros de nostalgias a medida que vamos relendo as histórias envolvendo a revista.
Este livro apesar de pecar em algumas coisas, compensa na emoção que faz o leitor que viveu aquela época, fazendo-o relembrar aquela época. E tenho muito orgulho de poder dizer que ajudei na produção dele, na época quando era um projeto no site do Catarse e ter podia contribuir minha pequena contribuição para que esse projeto dos sonhos se tornasse realidade. A Herói foi, sem dúvida, a base da minha formação nerd e ler este livro me fez reviver esse momento mágico da minha vida.