Nessa segunda leitura, fui surpreendida por encontrar muito mais do que me lembrava. E perceber valor no que encontrei.
No Brasil, o livro chamou-se "Ali Morava o Pecado" e data de 1950 segundo a fonte encontrada. Trata-se de um policial gótico. E disse um crítico: "uma novela gótica para homens".
Primeiro, à medida que relia, me ocorreu o óbvio: sendo uma história de obsessão sexual, seria "para machos". A habilidade de Fischer ao descrever a atração entre os personagens, e seus encontros sexuais, é visível: o uso das palavras, o ritmo, as elipses, resvalando na crueza sexual - porém sem cair no vulgar. Hábil. Os leitores de pornografia ficarão desiludidos. A atmosfera é a certa, mas a linguagem não é chula.
Mas o "gótico para machos" também o é num outro sentido: narrada em 1ª pessoa pelo protagonista masculino, revela-se uma novidade para o gótico, que em geral utiliza a voz narrativa das mulheres. Não aqui. Acompanhamos a evolução da obsessão de Harry, um jogador de basquete que vem descansar em suas férias numa cidadezinha - e entre as fofocas locais, incluindo uma história macabra de crime, trava conhecimento com Lela Doane; a atração começa...
A diferença desssa mescla de gótico com policial está na ambientação e atmosfera. Uma propriedade caindo aos pedaços, o clima de suspense e mesmo de horror sugerido (Harry sempre se lembrando das histórias que ouviu na cidade) em cenas que em princípio não o provocariam. É de destacar-se uma cena em que, indo ao encontro da amante, a atmosfera criada pelo autor tem algo de sombrio, de assustador - como se, ao invés de um encontro sexual, algo de horrendo fosse acontecer.
Medo, suspeitas, dubiedade, a sugestão de mortes ocorridas de forma particularmente apavorante, mentiras, segredos... e a obsessão. Um retrato. Uma advertência ou uma sedução? Traições, e sempre, sempre, a obsessão.