Caixa com os quatro volumes do Livro das mil e uma noites, pela primeira vez traduzido direto do árabe. O primeiro volume traz as 170 primeiras noites, com introdução de Mamede Mustafa Jarouche. Nela, o tradutor conta a historia das supostas fontes em persa e sânscrito que teriam sido a base para a obra. Esta edição apresenta notas sobre aspectos linguísticos ou que explicam o cotejo entre manuscritos e edições árabes, alem de anexos, com traduções de passagens do livro que possuem mais de uma redação, e que servem de elementos de comparação para o leitor interessado na historia da constituição do Livro das mil e uma noites. O segundo volume completa a tradução do que, segundo convenção da critica filológica, e chamado de ramo sirio. O ramo sirio e constituído pelos manuscritos que foram copiados, dos seculos XIV ao XVIII, na região árabe-asiática do Levante, que corresponde ao Líbano, Síria e Palestina. O terceiro volume, segundo as fontes originais, inicia o que se chama de ramo egipcio das historias, sua parte mais tardia (alem de variações comparativas apresentadas em anexo). O livro conta, ainda, com nota introdutória e posfacio a cargo do tradutor, com indicações das fontes. O quarto e ultimo volume, enriquecido com notas e apêndices que ajudam a compreender a gênese e os aspectos mais complexos do texto, contem a versão original dos textos Aladim e Ali Baba. Nas palavras do escritor Alberto Mussa, a tradução tem o mérito de recuperar todo o sabor do original, livra-lo de todas as censuras, restituir sua sabedoria, sua licenciosidade e, principalmente, o seu bom-humor.
Caixa Livro Das Mil E Uma Noites - 4 Volumes -
Mamede Mustafa Jarouche
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Jorge Luis Borges (1899-1986) dizia que o título mais belo de uma obra literária era este - "Livro das mil e uma noites" ou "Livro das 1001 noites", além de Monumento da literatura universal e uma das obras de maior assombro do que a imaginação humana é capaz. Nós brasileiros temos o privilégio de ter uma tradução direta do original árabe, ao contrário de outros países cuja tradução geralmente é feita a partir do francês, que foram os primeiros do Ocidente a traduzi-la, no século XVIII, por um escritor chamado Antoine Galland (1646-1715), mas de forma fragmentada, a não respeitar sua cronologia, a selecionar o que bem entedia e cortando as passagens eróticas, consideradas indecentes à época pela Igreja Católica, que detinha o monopólio da educação e da censura. Alfim, embora devamos muito a Galland, ainda assim é uma tradução da tradução e para quem se interessar está disponível no mercado até hoje (atualmente pela editora HarperCollins, com apresentação de Malba Tahan) lida por gerações anteriores à nossa. Hoje, século XXI, felizmente temos uma tradução completa, e à altura, da original. Mamede Mustafa Jarouche, o tradutor, é um dos maiores pesquisadores brasileiros da literatura árabe, além de professor na USP. E é graças ao fato de termos departamentos de línguas clássicas nalgumas universidades brasileiras que nós, falantes da língua portuguesa, podemos ter acesso a este tesouro publicado pela Globo Livros (selo Biblioteca Azul). Uns anos atrás, lembro-me de que passei dois meses usando todo o meu tempo livre só para ler esses 4 volumes (falta-me apenas o 5º volume para completar a saga). Fiz umas anotações para um artigo ou uma resenha bem longa, mas furtaram meu notebook e, nele, minhas notas. Hoje, num email antigo, achei um dos trechos mais bonitos de TODA a obra, narrados por Sahräzäd (também grafado como Scherazade em português), que compartilho aqui, já que a resenha se foi. É a 74ª história do 1º volume: "Quando Badruddin Hassan ultrapassou os vinte anos, seu pai adoeceu, mandou chamá-lo e disse: 'Eu lhe recomendarei algumas coisas às quais chegou o meu entendimento e que meu saber alcançou. Vou lhe fazer cinco recomendações: 1-) a primeira recomendação é: não tenha intimidade com ninguém e assim escapará de acidentes; a segurança está na solidão; não se misture nem se associe a ninguém, pois eu ouvi o poeta dizendo: Ninguém há neste tempo cujo afeto se deseje, Nem amigo que nas vicissitudes seja fiel; 2-) a segunda, meu filho, é: não oprima ninguém, caso contrário o destino oprimirá você. O destino num dia está a seu favor e noutro está contra, e o que o mundo lhe dá amanhã terá de ser pago. Eu já ouvi o poeta dizer: Reflete e não te apresses no que almejas, Sê clemente e como tal serás reconhecido; 3-) a terceira recomendação: observe o silêncio, desvie os olhos dos defeitos alheios e contenha sua língua, pois já se dizia: 'quem observe o silêncio, se salva'. Também ouvi o poeta dizer: Ainda que alguma vez te arrependas de tua mudez, De teres falado sempre te arrependerás; 4-) A quarta, meu filho: eu o previno contra o consumo do vinho, pois ele é o motivo de toda discórdia; o vinho faz perder o juízo. Cuidado, muito cuidado para não tomar vinho, pois eu ouvi o poeta dizer: É bebida que afasta do bom caminho, E do mal escancara os portões; 5-) E a quinta, meu filho: preserve o seu dinheiro e ele o preservará; guarde o seu dinheiro e ele o guardará; não abuse de seu dinheiro, pois caso contrário você precisará de gente inferior; conserve as moedas, que são unguento, pois eu ouvi alguém dizer: Se o meu dinheiro escasseia, ninguém me acompanha, Mas quando ele aumenta, companhia todos se tornam; Quanto amigo para torrar dinheiro me acompanhou, E quanto amigo, esgotado o meu dinheiro, me abandonou! Aceite, pois, minhas recomendações'. E não cessou de repetir as recomendações até que seu sopro vital se esvaiu, e ele foi então carregado e enterrado." [74ª história do Livro das mil e uma noites, vol. 1, ramo sírio. Tradução Mamede Mustafa Jarouche. Ed. Globo Livros, 2005.]
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