Li esse livro pouco tempo após ter lido Teste da fé, publicado pela mesma editora Ultimato. Como gostei do primeiro, quis dar uma conferida neste também, achando que encontraria algo parecido. No entanto, este Verdadeiros cientistas, fé verdadeira me decepcionou sob vários aspectos.
O primeiro deles, de cara, a evidente ausência de revisão. Infelizmente é muito comum em editoras cristãs (principalmente aquelas mais voltadas à evangelização) a publicação de livros de baixa qualidade, mal redigidos, com traduções amadoras, ausência de revisão, formatação e design amadores, dentre outros defeitos. Contudo, já sabendo disso e não tendo mais paciência para esse tipo livro de baixa qualidade, comprei esse livro da Ultimato julgando que encontraria algo de qualidade superior por duas razões. A primeira delas, os preços praticados pela editora. Uma vez que o recorrer a tradutores amadores (baratos ou até gratuitos?) e o dispensar revisores são, provavelmente estratégias para baratear o custo do livro e, assim, poder vendê-lo mais barato, de modo a atingir melhor o propósito de disseminação de conteúdo cristão, julguei que os preços mais elevados praticados pela editora Ultimato se deveriam à busca de um serviço mais profissional. Como na ficha catalográfica do livro encontrei o nome de nada menos do que quatro revisores (dois revisores técnicos e dois revisores gerais), pensei, inicialmente, que minha conclusão estava correta e que, portanto, eu poderia comprar o livro sem medo.
Entretanto, decepcionei-me. Os erros crassos multiplicam-se página após página, dando mostra mais do que suficiente de que não houve revisão alguma. Para citar alguns exemplos que encontro a esmo, no início da página 334, temos que dever ter presumivelmente ter levado à cena que agora testemunhamos. Em três linhas contíguas da página 333, temos três erros do mesmo nível: o que na ciência chamamos como [o correto seria usar a preposição de ou nada] acontecimentos fortuitos, são reconhecidos no teísmo bíblico como tão dependente [deveria ser dependentes, no plural] do poder criativo e soberano de Deus quanto qualquer ocorrência previsível obediente à lei. Pode [ser] justo expressar hostilidade pessoal a essa doutrina
. Na página 336, temos tanto pra nós quanto para nossos menos científicos antepassados, onde, além do uso equivocado de tanto
quanto quando o correto seria usar tanto
como (erro que se repete muitas vezes ao longo de todo o livro), temos pra (informal) e para na mesma frase. Na página 328, temos tanto cristãos quanto não cristãos havia passado a pensar em Deus
, em que além do mesmo erro com tanto
quanto em lugar de tanto
como, temos havia, quando o correto seria haviam, com o verbo auxiliar concordando com o sujeito composto no plural. Talvez a pessoa que redigiu o texto confundiu-se com a regra que diz que quando usamos o verbo haver como verbo principal com o sentido de existir ele não deve concordar com o sujeito no plural.
Há também alguns erros de tradução que tornam o texto confuso em alguns pontos. Por exemplo, na página 327 temos: Especialmente nas ciências físicas, o dogmatismo arrogante deu lugar a uma maneira muito mais cautelosa e tentativa [??? seria experimental?] de apresentar conclusões. Na página 326, temos Alguns teólogos incentivaram essa crença ao buscar desesperadamente fraquezas nas teorias científicas que consideravam como competitivas [o correto seria concorrentes]. Enfim, todos esses erros que listei estão concentrados em 10 páginas: por essa amostra o leitor pode ter uma noção do restante.
Acrescente-se a isso que o acabamento material também não justifica o preço, já que o livro é impresso em uma espécie de papel jornal grosso.
Por fim, também achei o conteúdo decepcionante. Ao passo que em O teste da fé, temos relatos bem integrados, neste Verdadeiros cientistas, fé verdadeira, muitos relatos são resumos das carreiras dos cientista apenas com uma apêndice ou uma introduçãozinha em que fala como chegou a ser cristão. Em resumo, esses resumos de carreiras só servem para provar que são cientistas competentes. E fica como se o livro se reduzisse a isso: a provar que há cientistas com grandes carreiras que são cristãos.