"Crianças tocam um pop demoníaco. Ou serão apenas ideias sintéticas? Que te fazem sempre pertencer a uma infância mal resolvida. Sempre a ideia de crianças sorrindo, não. Minhas crianças, como eu dão risada quando dormem bizarro e bonito." O sétimo e último livro da Coleção Galo Branco de literatura contemporânea, publicada pela Editora Medita neste ano de 2015 com recursos do ProAC, o livro Arisca, de Ana Júlia Carvalheiro. Um livro com poemas e pequenos textos que podem muito bem serem vistos como pequenos poemas em prosa, Arisca é livro que parece se mostrar arisco desde o início, ele se esquiva, é daqueles que desconfia de si mesmo e do próprio leitor, Assim, meu poema sempre obscuro, esconde-se mim, dentro da sombra. Obscurecendo o sentido, prolongo a chegada da derrota. As manchas da infância se imprimem logo no primeiro poema, cujo título é o mesmo do livro, e fala da infância mal resolvida, e do sorriso das crianças que dormem, bizarro e bonito. O aprendizado da escrita, o esforço da forma, estão em momentos como Aprendi muitas coisas: a respirar, colocando o ar para fora, todo ele, buscando ele fundo debaixo das entrelinhas dos pulmões [] Aprendi a reler o que escrevo, número de vezes necessário para Enfiar, com letra maiúscula, dentro dos poros e saber de cor todos os erros. Um livro corajoso, que diz, sem indiretas, o que não é a mesma coisa que dizer com facilidade, do feminino, do tempo, da velhice, do corpo, do Outro, do romance entre o peixe de asas de fogo e a Girafa-Bexiga-Cheia de O2 num turbilhão de imagens onde, no dissecamento poético da vida, não há espaço para moralismos baratos, conceitos ingênuos, julgamentos fáceis. A foda é só uma distração, prazer dolorido que arrecada tesão.
Arisca (Galo Branco) -
Ana Júlia Carvalheiro
Medita
2015
72 páginas
2h 24m
ISBN-13: 9788565093361
Português Brasileiro
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