bar de metanopoli Interior. Entardecer. Um bar rutilante da zona de Metanopoli: o néon resplan‑ dece nas superfícies, nos metais. Vê‑se o exterior através das vidraças: um panorama cruel de fieiras de luzes e edifícios envidraçados, que se assemelham a globos de fulgor. Um rapaz aproxima‑se do telefone, numa parede vio‑ lentamente esmaltada, abstracta. É o Rospo1. Um rapaz louro, de cabelo curtíssimo numa cara quadrada e inteligente: apenas umas farripas sobre a testa. Tem o cigarro «colado» entre os lábios. Não é o que se chama uma viga, mas é maciço, robusto e ágil, na sua calma narcisista. Marca um número no telefone: a câmara enquadra‑lhe em grande plano a cara, que surge assim em toda a sua evidência. 1 A alcunha Rospo significa «sapo». (N.T.) 24 rospo Está? És tu, Gimkana2?… Por aqui, está‑se na maior, esta tarde! A sua cara exprime satisfação contida, determinação per‑ versa. casa do gimkana Interior. Entardecer. A câmara enquadra em grande plano Pucci, de alcunha «o Gimkana», com o auscultador na mão junto de um humilde móvel familiar. Tem um rosto pálido, taciturno, com cicatrizes e olhei‑ ras: o aspecto é quase o de um bom rapaz, reservado, edu‑ cado, mas há nele também algo de terrível, que leva a pensar que seja capaz de tudo. gimkana (captando rapidamente o sentido das palavras do Rospo) Os velhos foram‑se embora, hã? Pois então vamos já buscar as garinas e seguimos logo para tua casa. bar de metanopoli Interior. Entardecer. Uma sombra quase de mau humor e de raiva instala‑se nos olhos do Rospo, que, contudo, sem perder a calma, numa atitude de «chefe», replica: 2 Trata‑se de outra alcunha: em português, «gincana». (N.T.) 25 rospo Não, não, quais garinas, qual quê! Para essas há sempre tempo. Antes vamos lá armar confusão. Vá, anda daí, depressa! casa do gimkana Interior. Entardecer. O Gimkana faz um esgar de mofa rápido, mas não se des‑ mancha; responde com voz rouca, depressa: gimkana Vou buscar a guita e sigo já para aí! bar de metanopoli Interior. Entardecer. O Rospo desliga e disca rapidamente outro número: a pes‑ soa a quem telefona demora a atender, e o Rospo aguarda impaciente, ora aliviando a pressão no cigarro preso entre os lábios, ora voltando a apertá‑lo. casa do contessa Interior. Entardecer. O telefone toca em cima de uma secretária com livros e papéis espalhados a trouxe‑mouxe. A câmara enquadra, sempre em grande plano, o Con‑ tessa3, que acaba de atender. 3 Nova alcunha: Contessa, «condessa». (N.T.) 26 Alto, corpulento e ao mesmo tempo feminil, inclusive na cara de cariátide gótica, com cicatrizes, o Contessa tem um ar inefável, brusco, quase odioso. No fundo, também ele é um bom rapaz convencional, regrado e conformista até em excesso. Que também possa ser um «meliante» é, por um lado, impossível e, por outro, perfeitamente expli‑ cável, com aquela sua cara selvagem. contessa (depois de ouvir o convite do Rospo) Eu, a bem dizer, tenho cá em casa os velhos dos velhos: vieram pas‑ sar a quadra em família. Como é que vou fazer para me livrar deles? bar de metanopoli Interior. Entardecer. O Rospo está prestes a enfurecer‑se. rospo Qual é a tua? Trata de dar graxa à tua mãe e aos velhos todos, e pira‑te! Estás à espera de quê, estafermo? Sem sequer ouvir a resposta do Contessa, pousa com raiva o auscultador e marca outro número logo em seguida. barzito da periferia Interior. Entardecer. Entre uma jukebox silenciosa e uma mesa de matraquilhos sem ninguém, preso à parede suja de um barzito, o tele‑ fone toca. 27 Quem atende, sempre enquadrado em grande plano, é Gianni, conhecido como «o Teppa»4: está fardado à teddy, como se nota pela gola levantada do blusão de couro preto, o cachecol garrido e sujo que lhe envolve o pescoço, o boné com viseira, de jockey, enterrado até aos olhos. É um belo rapaz, moreno, robustíssimo, uma espécie de gigante jovem e harmonioso. A cara é de patife, mas também ela funda‑ mentalmente boa e generosa, como é a cara dos fortes. teppa Já era mais que tempo de os teus pais se porem a milhas: há um mês que o andas a prometer. Mas diz lá, mandaste‑os à vida? Olha, o Toni está aqui e manda‑te ir dar uma volta! Com um sorriso tranquilo, passa o telefone ao compincha, que está ali, logo enquadrado, também ele, por um grande plano. É Toni, de alcunha «o Elvis», em homenagem a Elvis Presley — é o companheiro inseparável do Teppa, forte e alto como ele, trajando como ele, só que, em vez do boné, usa uma poupa espectacular, emergindo um bom palmo acima da testa, de cabelo escuríssimo. Tem uma cara doce, mas marcada, de bom rapaz, tímido, que, se pratica actos violentos, é tão‑só por uma espécie de desespero. toni Oi, vê lá o que fazes! Não te ponhas a fazer merda logo esta noite, que é fim de ano! (Fica um pouco à escuta) Já te conhecemos de ginjeira, pá! 4 A palavra teppa significa «meliante, patife, delinquente». (N.T.) 28 bar de metanopoli Interior. Entardecer. O Rospo tem novo assomo de raiva. rospo Vai‑te lixar! Desliga e marca um último número. escritório de mosè Interior. Entardecer. Desta vez o telefone está em cima de uma mesa de traba‑ lho, com objectos vários. Grande plano de Mosè ao telefone. É louro com sinais de uma psicologia patológica na cara: dir‑se‑ia tratar‑se de um sifilítico congénito. Queixo saliente, boca retorci‑ da, num esgar cruel e grosseiro. Mas também nele há uma certa ousadia simpática, vigorosa. mosè És tu, Rospo…? (Ouve o telefonema, anuindo, expressão dura) Hum… hum… hum… Boa! Sempre com o mesmo semblante duro, sem mudar de expressão, pousa o auscultador. Fade out.
A Nebulosa -
Pier Paolo Passolini
Antígona
2016
200 páginas
6h 40m
ISBN-13: 9789726082712
Português
Edições (1)
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