Outono de ouro e sangue, o novo livro de Rosiska Darcy de Oliveira, é um marco na crônica ensaística, uma profunda reflexão sobre a condição humana, na linguagem concisa da escritora. Outono de ouro e sangue é como um vitral, luminoso, montado por uma autora capaz de construir figuras coerentes e dar sentido aos fragmentos em que se transformaram a vida dos indivíduos e os cacos de um mundo atingido em cheio pela violência. Rosiska afirma, a cada página, os esforços da espécie para construir a civilização: da difícil "Arte de viver", com que, na contramão do individualismo exacerbado, tentamos conferir um sentido às nossas vidas, "única questão política que merece esse nome", até a crença na "Fundação do mundo", apesar da dificuldade de "fazer dos habitantes da terra um povo, porque a gestação do mundo é lenta e de alto risco". Redigidas ao longo dos últimos dois anos, as crônicas capturam e interpretam os momentos mais agudos do novo século, ao mesmo tempo os que surpreendem as "Revoluções invisíveis" que se vão tecendo: na atual convivência entre os sexos, que impõe uma "Reengenharia do tempo" ; no "destino que não é mais o que era antes", desde que a ciência, "Pandora à solta", abriu a caixa dos enigmas da vida, "tornando movediço o terreno do biológico e substituindo o destino pela liberdade"; no Ciberespaço, "essa utopia virtual, esse não-lugar no sentido etimológico da palavra, que se tornou uma das viagens imperdíveis, como as muralhas da China ou as pirâmides de Gizeh". No livro alterna-se o inventário dos tempos penosos que temos vivido e a alegre fruição do que o cotidiano oferece como possibilidade de celebração, o "Calendário festivo" de natais, páscoas e carnavais; o outono na Provence, "onde as vinhas se colorem de ouro e sangue"; o perfume da dama-da-noite, "que floria sob a janela do meu quarto e misturava-se aos desejos que a pele nua aceitava como uma condenação"; as alegrias do verão, "que nunca saiu da minha pele. Foi o sol que nascia e se punha em meu corpo, esse sol que dormia com a dama-da-noite que, pela vida afora, derreteu os gelos com quiseram me envolver. O verão voltava sempre, mesmo quando nevava". Colocar a esperança em nossa agenda, valorizar os preciosos momentos de prazer com que o cotidiano nos surpreende é mérito de Outono de ouro e sangue, em si mesmo um livro-resistência à morte da estética. Essa, a arte maior do povo a que Rosiska pertence: "Gente de letras". "A literatura foi e é a nossa clandestinidade, e é a partir do território liberado do imaginário que articulamos a resistência ao esmagamento do quotidiano. E é para o nosso território liberado que queremos atrair uma juventude submetida ao massacre da propaganda de não-valores" Homenageando os escritores latino-americanos, Rosiska sente que, "nós, latino-americanos, o seríamos menos não fosse a ficção que escrevemos sobre nós mesmos com a fidelidade perfeita que tem 'a verdade das mentiras' de que fala Vargas Llosa. Inventada


