Rogério Sganzerla foi um cineasta raro no cinema brasileiro, era criativo, crítico, econômico, experimental, popular, sofisticado e o mais importante: não era chato. Nasceu em Joaçaba, cidade catarinense, em 1946. Iniciou sua carreira como colunista no Suplemento Literário do Estado e posteriormente trabalhou para a Folha de S. Paulo, escrevendo textos críticos sobre cinema. Seus artigos são claros, precisos, sintéticos, coerentes. Rogério era cinéfilo, porém não era bitolado como muitos, talvez porque aprendeu com Orson Welles o básico, isto é, que um filme é, antes de tudo, um filme. Seu olhar sobre o cinema era objetivo e clínico, pois havia percebido a violenta ruptura entre o cinema clássico e o moderno. Coisa que muitos críticos e cineastas de sua época e da atualidade não foram-são capazes de entender e enxergar. Sganzerla escreveu sobre o tratamento que os cineastas davam para a imagem e consequentemente como construíam suas narrativas através dos diversos estilos de montagem tais como a montagem clássica (paralela) de Griffith, a montagem vertical de Eisenstein, a expressiva de Orson Welles e a desmontagem de Godard, que segundo o autor, era “a montagem da sétima arte”. Em suas análises já consta sua teoria sobre os “Cineastas da Alma” e os “Cineastas do Corpo” e também a distinção entre o tratamento da “Câmera Cínica” e a “Câmera Clínica”. O que (me) impressiona é que antes de fazer cinema, o jovem crítico já tinha uma concepção muito vasta e clara sobre o tipo de linguagem que realizaria posteriormente. E o mais interessante: sua teoria sobre o cinema é coerente. Classificações como a “Câmera Cínica” eram definidas através de análises de filmes como “A Casa de Bambu” de Samuel Fuller, “Scarface” de Howard Hawks, “Acossado” e “Viver a Vida” ambos de Jean-Luc Godard. Os longas de Fuller e os de Godard são os exemplos mais pertinentes que o autor explorou para explicar o tratamento da “Câmera Cínica”, entretanto, “O Bandido da Luz Vermelha”, seu filme-manifesto foi a prova mais clara sobre este tipo de tratamento realizado no Brasil. Portanto, foi a partir da crítica que Rogério percebeu que era possível realizar um filme inventivo utilizando as mesmas técnicas utilizadas pelo Neorrealismo Italiano, Godard, a Nouvelle Vague Japonesa e Glauber (“Terra em Transe”). As filmagens destes filmes eram realizadas em locações, os diretores utilizavam muito o Plano-sequência para enfatizar a performance do atores, que atuavam e contracenavam com atores não profissionais para induzir no espectador uma noção mais realista do espaço fílmico. Os “Jumps Cuts” descontínuos eram frequentemente adotados na montagem que tinham uma estrutura narrativa semelhante às esquetes, como se fossem blocos narrativos autônomos que juntos formassem uma unidade. A mise-en-scène utilizava o distanciamento crítico tanto na construção dos atores/personagens quanto no enredo como pretexto para expressar ideias e reflexões, sobretudo, sobre a própria linguagem cinematográfica. Seu primeiro filme de curta-metragem chamado “Documentário”, foi produzido em 1966. Nele, Rogério já demonstrava a síntese de seu pensamento perante o cinema moderno. No entanto, foi somente em 1968 que realizou o seu primeiro longa-metragem intitulado “Bandido da Luz Vermelha”. Neste filme, o cineasta segue todos os conceitos que escrevera nos artigos de jornais. As personagens de “Bandido” são fechadas, ou seja, não são redondas (termo utilizado na literatura para classificar personagens psicologicamente complexos, desenvolvidos), a câmera se limita a mostrar as ações, evidenciando os objetos e as locações. O drama é interiorizado pelos atores, valorizando apenas suas ações. A câmera neste filme e em toda a filmografia de Rogério é Cínica, amoral, só mostra o que é concreto, só segue os atores para revelar emoções, porém, nunca revela o interior deles e seus mistérios. Se os “Cineastas da Alma” utilizavam um Close Up em tal cena dramática para envolver o público com o ator, para torná-la mais intimista, os “Cineastas do Corpo” tais quais Hawks, Fuller, Godard e o próprio Sganzerla, faziam o oposto. Pois utilizavam um Plano Aberto ou um Plano Geral em tal cena que deveria ser supostamente dramática, só para lembrar ao público que um filme é um filme e nada mais. Esse tipo de escolha não era arbitrária, pois servia para gerar um estranhamento e “desdramatizar” a cena, para mostrar apenas a jornada da personagem, sem querer manipular os sentimentos dos espectadores. O fato era que Rogério não julgava as atitudes aleatórias das personagens. A matéria-prima de seu cinema está no próprio ator e no espaço fílmico. E a mágica consta nos cortes abruptos e na montagem sonora, que há consonância e muita dissonância. Com o “Bandido”, Rogério conseguiu provar que o cinema brasileiro poderia ser moderno na montagem fragmentada, na mistura de gêneros e crítico no conteúdo, sem ser careta e sem demonstrar uma falsa compaixão pelo povo. O “Bandido” trata-se das deficiências de um país subdesenvolvido, expõe uma realidade urbana violenta, sem um ponto de vista fechado, mas sim aberto para as interpretações e questionamentos do público, e adota uma estética documental. Rogério dizia que o cinema moderno de ficção não foge do caráter documental, diferente do cinema clássico e do atual cinema industrial que permanece utilizando os estúdios e insiste em não sair do berço.