Em “O Diabo e Eu”, Alcimar Frazão conta a história do bluesman norte-americano Robert Leroy Johnson. Nascido aproximadamente em 1911 (sem registro), numa pequena cidade do interior do Mississipi, morreu aos 27 anos, deixando uma obra pioneira no “delta blues”. Suas 29 músicas (gravadas em 7 meses entre 1936 e 1937) continuam sendo interpretadas e regravadas por diversos artistas e bandas, como Led Zeppelin, Bob Dylan, Eric Clapton, The Rolling Stones, The Blues Brothers, Red Hot Chili Peppers e The White Stripes. Johnson recebeu em 1990 o Prêmio Grammy póstumo de “Melhor Álbum Histórico”, entrando para o “Hall of Fame” em 1998.
Cantor e guitarrista, Robert Johnson é uma referência no formato de “doze compassos” do blues. Considerado por Muddy Waters como “o mais importante cantor de blues que já viveu”, Johnson ainda ganhou notoriedade por conta de uma das mais famosas lendas da música. Fala-se que, para ter o talento ímpar que o caracterizou, Johnson teria vendido sua alma para o diabo, na encruzilhada das rodovias 61 e 49, em Clarksdale, Mississipi. Em troca, o diabo teria tomado seu violão, afinado um tom abaixo (uma marca do “delta blues”) e o devolveu acompanhado de um talento incomparável. Quem muito difundiu o mito foi o guitarrista Son House, sendo que Johnson capitalizou a fama nas letras de suas músicas, especialmente em "Crossroads Blues", "Me And The Devil Blues" e "Hellhound On My Trail". O filme “Crossroads” (“A Encruzilhada”, no Brasil), lançado em 1986, com Ralph Macchio no papel de um jovem guitarrista obcecado pela obra de Johnson, faz menção a essa história. O gran finale mostra um duelo de guitarras em que Eugene Martone (o personagem de Macchio) enfrenta um enviado do diabo, interpretado por ninguém menos que Steve Vai.
“O Diabo e Eu” foi lançada originalmente em 2013, com pequena tiragem e de forma independente. Em 2016, a Editora Mino relançou a HQ numa edição de luxo, papel de alta gramatura, capa com aplicação de hot stamping dourado e 13 páginas extras com ilustrações de outros artistas sobre o mesmo tema. Frazão fez um trabalho ousado. Suas ilustrações em alto-contraste em P&B assemelham-se a xilogravuras. Os quadrinhos não tem texto! Apenas com imagens (sem diálogos nem onomatopeias), o autor vale-se de mensagens subliminares e do uso da semiótica para criar quadros eloquentes. Se por um lado a narrativa é valorizada pelos detalhes desenhados, por outro exige do leitor um conhecimento prévio da biografia de Robert Johnson, para conseguir aproveitamento integral de importantes referências colocadas em cada quadro, às vezes de forma bastante discreta.
Nota do livro: 6,62 (3 estrelas).