O livro Nietzsche e o ressentimento apresenta o modo como o conceito de “ressentimento” é apropriado por Friedrich Nietzsche e a abrangência que ele confere ao termo, utilizando-o tanto para a descrição de uma obstrução psicológica quanto para a caracterização de um fenômeno social presente em certas concepções de moral e de justiça pautadas, segundo ele, pela sede de vingança. A obra tematiza ainda possibilidades de superação do ressentimento e apresenta especulações que ultrapassam o círculo da filosofia e permitem pensar o uso do conceito para uma análise social e política, como faz, por exemplo, Peter Sloterdijk em seu livro Cólera e tempo (Zorn und Zeit), ou como se permite fazer o autor em suas reflexões sobre o Apartheid da África do Sul, superado sob a liderança de Nelson Mandela. Trata-se, assim, de um livro que se ocupa de aspectos internos da obra de um dos grandes filósofos da atualidade e, também, da possibilidades de uso de elementos dessa obra para pensar a atualidade.
Nietzsche e o Ressentimento -
Antonio Edmilson Paschoal
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Ver maisUma obra em que o ressentimento é exposto de maneira profunda. Estudado, analisado, conceituado, dissecado e explicado em seu viés nietzschiano, vez que o termo em Nietzsche recebe contornos próprios, o autor aprofunda o debate em torno da questão de modo brilhante. Afinal, o que é o ressentimento? Pelas abordagens de Nietzsche, o autor pontua que "o ressentimento se apresenta como um fenômeno psicológico complexo que pressupõe, para o seu surgimento, uma espécie de debilidade psicológica e para a sua solução, justamente um tipo de saúde, em parte inata, em parte cultivada, que permite ao homem pautar as suas ações não pelo passado e sim por interesses do presente e do futuro". Sendo o ressentimento o cerne da obra e tendo Nietzsche como o filósofo propositor do termo numa forma própria, Antonio Edmilson Paschoal discorre de maneira profunda sobre as origens do termo (para além de Nietzsche), suas causas históricas e sociais, seus debates no campo filosófico e possíveis formas de superação de tal fenômeno. A noção de "ressentimento", como já mencionado, é exposta em todos os seus vieses. As entranhas são mostradas ao leitor, cuja busca bastante detalhada que o tema merece é procedida e acompanhada passo a passo por quem lê. O suporte teórico e referencial bibliográfico em que se debruça o autor é farto. As obras de Nietzsche, como é de se esperar, ganham relevo nas citações. O autor demonstra em várias passagens o conhecimento profundo que possui sobre o pensamento do filósofo do martelo. Separam-se os aportes de Nietzsche em várias fases, onde o autor demonstra essas mudanças no decorrer do livro. O livro abre apresentando as ocorrências do termo "ressentimento" nos escritos de Nietzsche. É em tal capítulo que se explica a definição própria que o termo recebe em Nietzsche. No capítulo que segue, "Ressentimento e vontade de poder", o autor explana que para Nietzsche não havia uma separação concreta entre a fisiologia e a psicologia, vez que o filósofo tratava ambas as questões como sendo única. Assim, os efeitos nocivos do ressentimento são sofridos tanto por corpo como por mente. O ressentido tem o seu senso de domínio (a vontade de poder) refreada, pois o ressentimento adoece o homem em todos os sentidos. No terceiro capítulo há uma profunda análise dos entraves acadêmicos de Nietzsche para com Dühring, estando expostas as principais críticas do filósofo do martelo para com os temas da justiça, da vingança e do ressentimento. São analisados tantos os contructos filosóficos de Dühring (a fim de situar o leitor naquilo que Nietzsche critica), como os de Nietzsche, tendo como principal ponto a ideia de justiça. O capítulo que segue aborda as leituras de Nietzsche em algumas obras de Dostoiévski. O autor narra biograficamente como se deu o contato de Nietzsche com alguns dos livros do escritor russo e o respeito que se tinha por este. Pela análise de personagens dos romances lidos, tem-se constatado ali o "homem do ressentimento", perceptível tal construção literária pelas características de personalidades marcantes nas histórias do autor russo. Já em ""Má Consciência" e Ressentimento" o autor chama atenção para às nuances nos termos empregados por Nietzsche, isso ao considerar que todo filósofo toma muito cuidado com as palavras que utiliza em seus escritos. Nietzsche principalmente, dada a sua condição de também filólogo. Daí é que neste capítulo o autor expõe as ocorrências dos termos "má consciência" e "ressentimento" na obra de Nietzsche, demonstrando toda a fluidez de sentidos que os termos recebem a depender da época em que a palavra foi utilizada. No sexto capítulo da obra, o autor apresenta as "possibilidades de se colocar para além do ressentimento". Há alguma ou algumas formas de superar o ressentimento? Existe um meio de se transpor aquele sentimento que corrói o indivíduo internamente? Que tipo de atitude seria necessária para livrar-se do ressentimento? Alguns pontos para tais indagações são dados em Nietzsche. Mas o autor vai além, encerrando no apêndice da obra com algumas especulações propostas para novas investigações sobre o tema. São sugestões, novos questionamentos e até mesmo propostas efetivas com base em casos concretos que visam incutir a discussão acerca do ressentimento e dos meios possíveis para a sua superação. A exposição neste sentido pelo autor é profícua. Um livro que merece e deve ser lido por todos os que almejam estudar o tema mais a fundo: seja Nietzsche, seja o ressentimento - melhor que sejam ambos, pois a filosofia de tal pensador analisado na obra está sempre abordando o tema. O ressentimento, portanto, da forma como qual estudado e explanado na obra, traduz-se num conceito que "se apresenta como um convite para a retomada, em outras ocasiões, do debate acerca dos danos da sede de vingança, por um lado, e dos limites e alcances das alternativas que podem ser pensadas em relação a ela, por outro." Vale a pena conferir!
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