Título inaugural da coleção Contraposições, Refutação contém as traduções de dois artigos sobre a noção socrático-platônica de refutação. Um deles apresenta a posição de Gregory Vlastos, estudioso da filosofia antiga e autor de várias obras sobre Platão e Sócrates, que desenvolve sua definição hipotética da refutação socrática. O outro é a contraposição às teses de Vlastos, escrito por Monique Dixsaut, professora e filósofa francesa cujos trabalhos repousam sobre a filosofia antiga em geral, sobretudo na filosofia grega e nos diálogos de Platão, em particular.
Refutação (Coleção Contraposições) -
Gregory Vlastos, Monique Dixsaut
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Ver maisSócrates: um filósofo moral (Vlastos) ou um cético acadêmico (Dixsaut)?
INTRODUÇÃO Este livro é composto por dois artigos acadêmicos, escritos por duas autoridades mundiais nos estudos de Platão, a saber, Vlastos e Dixsaut - o primeiro já falecido, a segunda ainda em plena atividade. O primeiro artigo é de Vlastos e o segundo é justamente uma consideração crítica da filósofa francesa ao artigo do filósofo canadense. O tema é a 'élenkhos' (usualmente tomado como 'refutação'), i. e., o conceito envolvendo esse termo na filosofia de Platão. RESUMO-VLASTOS Vlastos defende a clássica perspectiva sobre a existência de diálogos autenticamente históricos em relação a Sócrates e que, posteriormente, Platão passou a acrescentar suas próprias doutrinas aos diálogos, desfazendo-se da figura histórica de Sócrates e passando a tomá-lo como personagem. Então, volta-se para os diálogos que julga serem os diálogos de juventude de Platão e que revelam Sócrates como um filósofo moralista. A propósito, esta é a perspectiva característica dessa escola de interpretação, em grande medida influenciada pelo próprio Vlastos. Vlastos entende que nesses diálogos podemos discernir a verdadeira élenkhos socrática, a qual consiste, defende o autor, em quatro passos: primeiro, Sócrates colhe alguma crença moral do indivíduo e da qual discorda; então, faz o indivíduo admitir algumas premissas adjacentes que fazem parte das suas crenças particulares; revela, na sequência, a incoerência daquelas premissas adjacentes com a primeira tese defendida; por fim, conclui que o contrário da tese inicial contra a qual se levante é que é verdade. Vlastos está ciente de que, do ponto de vista lógico, não há possibilidade de tal conclusão, pois o indivíduo pode muito bem abrir mão de uma ou todas as premissas adjacentes para manter sua tese inicial. Em outras palavras, o procedimento parece só poder mostrar a incoerência e desarmonia entre aquelas crenças, não que o contrário da tese primeira é verdadeiro. Mas nem os adversários de Sócrates recorriam a tal subterfúgio, nem Sócrates. De fato, quando ele surgia, era por parte de outro interlocutor, que surgia negando uma das premissas adjacentes. Então, Sócrates aplicava o mesmo procedimento para que o indivíduo, por outras premissas adjacentes, chegasse à mesma conclusão. No final das contas, Sócrates pressupunha que havia em todo homem um pano de fundo moral que contradizia as crenças morais e existenciais falsas e que poderia ser usado para fornecer essas premissas adjacentes. Portanto, qualquer que seja a veracidade de um postulado moral, ele deverá se provar como tal por meio da coerência para com as demais verdades que o indivíduo adota. Enquanto não o fizer, poderá sempre ser alvo do mesmo procedimento que sempre concluirá na falsidade da tese falsa. Sócrates estava confiante nas verdades que abraçava justamente por tê-las colocado à prova e não as ver sendo demonstradas como incoerente. Mas a possibilidade de o ser faz com que Sócrates declare sua ignorância essencial, segundo Vlastos. O mesmo ainda afirma que Platão teria desenvolvido a teoria das ideias para dar conta do fornecimento desse background moral comum a todos os homens. RESUMO-DIXSAUT Dixsaut, por sua vez, rejeita essa distinção clássica sobre o Sócrates histórico e prefere uma perspectiva holística dos diálogos, tomando todos como sendo intencionalmente uma composição de Platão. Com isso em mente, dedica-se a desacreditar algumas das conclusões de Vlastos, dentre as quais, a de que Sócrates extraía, no final das contas, uma contradição com a tese inicial. Ela observa que há casos em que tal não se dá, mas se aponta meramente uma verdade aparente. A mesma autora, a partir da contestação daquela tese fundamental da reconstrução histórica de Sócrates, rejeitará a noção de uma transação do élenkhos socrático para a dialética platônica, pois tudo é produto o mesmo autor. Dixsaut observa a influência da concepção aristotélica ao se delimitar o que seria o élenkhos de Platão, e passa a discutir a questão no 'Tópicos' e 'Refutações Sofísticas' do 'Órganon. Basicamente, nota que há três tipos de raciocínio (demonstrativo, dialético e erístico) e quatro gêneros de discussão (didática, peirástica, dialética, erística). A autora nota que para Aristóteles, o discurso digno de se denominar científico é o didático, que se vale da demonstração. À dialética cabe lidar com premissas endoxais para se chegar a concepções endoxais. Pode-se, no máximo, refutar uma opinião, mas não aprender a verdade de nada. E como a dialética ainda depende de se verificar a reação do indivíduo, não pode nem mesmo ser escrita. Portanto, pelo prisma aristotélico, nem mesmo dialética são os escritos de Platão. Platão, por sua vez, na perspectiva de Dixsaut, encara a dialética como uma verdadeira ciência, mas não como um mero modo de raciocínio, mas toda uma forma de pensar e conceber as coisas. Em resumo, Dixsaut entende que a élenkhos tinha um papel purgativo da alma, libertando-a do estado de amathía - a ignorância sobre a própria ignorância do indivíduo, uma falta de conhecimento de si mesmo. E tal postura negativa é um avanço no conhecimento, pois sabe-se ao menos que uma pretensa verdade não o é. Em outras palavras, para Dixsaut, o que perpassa todos os diálogos é o desejo de Platão livrar o homem das opiniões para alcançar um estado de sabedoria que é essencialmente um inquirir, questionar e examinar, bem como o saber que as coisas podem ser encaradas sob diferentes perspectivas e ângulos, fornecendo novas apreensões do real. AVALIAÇÃO CRÍTICA A tradutora dos artigos parece dar razão à crítica de Dixsaut. Ela, em sua introdução, dedica-se a um resumo minucioso do texto da filósofa, enquanto dá pouca atenção ao texto de Vlastos. De toda forma, uma avaliação crítica deve ser dada a cada um dos textos, ou na obra como um todo? Essa é uma questão talvez impossível de ser estabelecida de forma absoluta. Depende muito da perspectiva do resenhista. Da nossa parte, temos mais o que dizer em relação às críticas da Dixsaut a Vlastos, que não pôde se defender - como fez em relação aos demais críticos. Primeiramente, acreditamos que Dixsaut foge muito depressa da questão da tríplice divisão cronológica das obras platônicas. Seu argumento de que se trata de uma questão pouco evidente não dialoga com as evidências que outros estudiosos oferecem à questão. E sua prova do contrário não nos parece substancial, a saber, ela nota que há uma ordem nos diálogos, o que evidenciaria seu caráter ficcional. No entanto, se há rememorações históricas, nada as impede de terem sido conduzidas pelas próprias figuras reais com tal ordenamento, talvez até mesmo por condução majestosa da parte de Sócrates. E mesmo que tenha havido uma organização esteticamente mais aprazível por Platão, podem muito bem corresponder a embelezamento das histórias reais. Quando Dixsaut contesta a concepção dialética de Vlastos, aponta que nem sempre se conclui a contraditória da tese estabelecida para ser refutada. Entretanto, em termos aristotélicos, o que ela parecia apontar é que não havia uma conclusão apontando para o contrário da tese. Ela poderia ser parcialmente verdadeira. Mas uma tese parcialmente verdadeira ainda assim é falsa. A contraditória não é tão oposta como a contrária, mas é suficientemente competente para refutar a tese. Talvez Vlastos não tenha tido o cuidado de fazer tal diferenciação, e provavelmente o faria se tivesse lido o artigo de Dixsaut. Na forma como Dixsaut encara a questão, parece não haver qualquer possibilidade, a partir de Platão, de reconstruir a figura histórica de Sócrates. Assim, não faz muito sentido quando ela diz que Platão teria herdado isso ou aquilo de Sócrates, pois pelos seus cânones fica indefinido o que pertence a cada filósofo. Portanto, a questão sobre onde termina Sócrates e começa Platão parece permanecer, apesar da contestação da autora. Incomodou-nos, também, o fato de Dixsaut não lidar com os textos de Platão citados por Vlastos para fundamentar suas interpretações. Ainda que Dixsaut tenha razão em muitos de seus apontamentos - também bem fundamentados em textos platônicos -, não ofereceu uma interpretação alternativa que coadune com sua visão geral da doutrina do fundador da Academia. E, aliás, no final das contas, o Platão de Dixsaut parece pouco diferir da filosofia cética da Academia pós-Platão. Ela encara as coisa com uma pluralidade eclética e uma falta de convicção absoluta que em pouco, ou talvez em nada, distingue-se dos postulados dos futuros acadêmicos. E isso soa anacrônico e estranho à filosofia de Platão e às afirmações de Sócrates de que detinha a verdade - como apontou Vlastos. No final das contas, parece-nos que a verdade a respeito da questão está em algum lugar entre a posição de Vlastos e a de Dixsaut. Na verdade, pendemos mais para a interpretação de Vlastos, mas entendemos que seja necessário lidar com os apontamentos de Dixsaut a respeito da luta de Sócrates contra a opinião e contra a amathía. REFERENCIAL TEÓRICO Evidentemente, ambos os autores estão mais do que atualizados para a sua respectiva época dos principais trabalhos circulando no mundo a respeito de Platão. Além deles mesmos serem referências globais, recorrem a outros autores consagrados, como Robinson, Cornford, Dodds e outros tantos. Vlastos ainda faz ampla referência a dois autores referenciais do século XIX, a saber, Zeller e Grote. Ambos, obviamente, citam com familiaridade os textos de Platão, inclusive no original grego, bem como Aristóteles. Dixsaut, mais jovem do que Vlastos, o qual já faleceu, tem a vantagem de citar o próprio Vlastos. Vlastos, por sua vez, cita várias críticas feitas ao seu trabalho, concordando e dando razão quando julgava-as justas e rejeitando-as quando lhe pareciam equivocadas, apontando suas razões para tal juízo. RECOMENDAÇÃO Este é um texto acadêmico. É extremamente útil e interessante para quem estuda Platão. Não precisa, necessariamente, ser um especialista ou pretender se especializar em Platão. Basta ter lido algo próximo da metade dos diálogos, para não ficar perdido. No mínimo os mais famosos (República, Fédon, Apologia, Mênon) e talvez um daqueles não tão famosos fora do âmbito dos estudantes de filosofia (como o Górgias, principalmente, bem como o Fedro, Teeteto, Timeu e Sofista). Já para os que têm leitura em Platão, parece-nos que o livro é de extremo valor e pode oferecer uma leitura muito prazerosa. Quem se interessa pela discussão epistemológica, lógica e moral, o livro será do maior interesse.
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