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    Corações cicatrizados -

    Max Blecher

    Carambaia
    2016
    232 páginas
    7h 44m
    ISBN-13: 9788569002154
    Português Brasileiro
    4.2
    80 avaliações
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    Favoritos9Desejados194Avaliaram80

    Emanuel estuda Medicina em Paris quando descobre sofrer do mal de Pott, tuberculose óssea que afeta a coluna vertebral. Parte para Berck-sur-Mer, balneário no litoral norte da França especializado no tratamento da enfermidade. Na cidade, 5 mil pacientes, provenientes de todos os cantos do mundo, se submetem à terapia, que consiste na imobilização do corpo por um colete de gesso. Envoltos nessa carapaça, os doentes são forçados a passar meses deitados, à espera de que seus ossos quebrados e roídos sejam endireitados e consolidados. Mas, em Berck, eles não precisam ficar restritos à cama. Instalados nas chamadas goteiras, os enfermos locomovem-se com a ajuda de maqueiros e até sozinhos, em charretes adaptadas, puxadas por cavalos. Assim, passeiam, vão à praia, levam uma vida praticamente normal. Sempre na horizontal. Nesse cenário, o romeno Max Blecher (1909-1938) situa seu romance Corações cicatrizados. Como o personagem Emanuel, ele também recebeu o diagnóstico do mal de Pott quando estudava em Paris, aos 19 anos. Com inesperada vitalidade e até humor, o escritor descreve a rotina dos internos do sanatório de Berck, divididos entre a imobilidade, os desejos, os encontros, as amizades, as paixões. Um dos principais nomes da literatura romena, Max Blecher é frequentemente comparado pela crítica especializada a Franz Kafka, Bruno Schulz ou Robert Walser. Nasceu em 1909 na província da Moldávia, viveu em Paris e, por causa da doença, passou temporadas em sanatórios da França, Suíça e Romênia. Ligado aos modernistas romenos, Blecher começou a escrever para revistas literárias aos 19 anos. Aproximou-se do movimento surrealista em Paris e, em 1935, teve um texto publicado na revista de André Breton, com quem se correspondia com frequência. Blecher morreu aos 28 anos, deixando um livro de poesia, Corpo transparente (1934), três romances – Acontecimentos na irrealidade imediata (1936), Corações cicatrizados (1937) e A toca iluminada (publicado postumamente, em 1971) –, além de contos, resenhas, artigos e traduções. Com 232 páginas e tradução direta do romeno, este volume tem capa envolta em tecido, reproduzindo a trama do gesso que imobiliza os pacientes de Berck. Outro detalhe do projeto gráfico: quando Emanuel é imobilizado e tem de viver deitado, o texto muda de orientação, e a leitura passa a ser na horizontal. Corações cicatrizados chegará em breve também aos cinemas. O livro foi transformado em filme pelo diretor romeno Radu Jude, vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim de 2015.

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    Rodrigo Pamplona26/03/2023Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Existir, ainda que não totalmente (Sem Spoilers)

    Título: Corações Cicatrizados Título original: Inimi Cicatrizate Autor: Max Blecher Editora: Carambaia Número de páginas: 232 Em sua curta vida completamente definida e confinada por uma doença chamada Mal de Pott (ou tuberculose óssea, como é comumente conhecida), o escritor romeno Max Blecher (1909-1938) produziu dois livros amplamente consagrados, uma coleção de poesia e inúmeras prosas e traduções. Convenhamos que, para um jovem que passou a última década de seus curtos 28 anos em vários sanatórios, deitado e com o torso completamente imobilizado em gesso, é uma conquista e tanto. Assim, a publicação, em 2016, da nova tradução de Corações Cicatrizados diretamente do Romeno para o Português pelas mãos de Fernando Klabin via Editora Carambaia trouxe a visão singular e dolorosa de Blecher para um público entusiasmado; inclusive eu! Permitam-me começar, portanto, falando sobre a edição em si. Como bem definido pela própria Editora, o projeto gráfico do livro inspirou-se no enredo do romance para estimular no leitor algumas das sensações descritas pelo autor. A capa é estampada com os detalhes da trama de uma atadura, base para o gesso no qual é envolvido o personagem principal durante boa parte da história. Envolta em tecido, capa, contracapa e lombada trazem ao toque dos dedos a sensação de gesso na pele. Além disso, a orientação do texto também acompanha o protagonista e inverte-se no exato momento em que ele passa a viver na posição horizontal – ou seja, a partir do instante em que Emanuel vê-se colocado em uma cama, o leitor passa a saborear as páginas não mais em posição “retrato”, mas, sim, em modo “paisagem”. Que espetáculo extraordinário! Dentre todos os livros que já vi, talvez esse seja o projeto gráfico mais incrível que já tive em mãos! Sobre a história em si, posso dizer que Corações Cicatrizados me deixou completamente sem ar nas 30 primeiras páginas. Que escrita primorosa! As palavras são precisas, impecavelmente lapidadas, com frases curtas excepcionalmente bem redigidas, uma eloquência contundente capaz de conduzir o leitor ao âmago do que pretende o autor. Me causou um frisson tamanho que encerrei a leitura simplesmente para poder me maravilhar com o que tinha em mãos. Em resumo, Corações Cicatrizados conta a história de Emanuel, um estudante de Medicina que descobre sofrer de uma tuberculose óssea que afeta a coluna vertebral. Emanuel parte, então, para Berck-sur-Mer, balneário no litoral norte da França especializado no tratamento da enfermidade. É ali que toda a história se desenrola. O mais impressionante é identificar que a história do autor se confunde com a do personagem. Blecher também foi diagnosticado com Mal de Pott aos 19 anos e faleceu vítima dessa enfermidade. É, portanto, um livro autobiográfico. Enfim, passada a emoção intensa do início, me vi devorando o livro em doses homeopáticas, reduzindo propositalmente a velocidade da leitura. Quanto mais lia, mais desejava voltar ao início para saboreá-lo de novo. Já no fim, tomado por profunda melancolia, fechei o livro com a certeza de ter uma grande obra em mãos. Todo livro melancólico encerra em si um lado luminoso. É como uma moeda, com duas faces. Não tenho certeza sobre a intenção de Blecher com esse livro, mas a minha interpretação particular me fez olhar para o outro lado da moeda: se Blecher, no alto dos seus vinte e tantos anos e vivendo sob condições tão horríveis, ainda assim foi capaz de produzir um livro tão intenso, do que reclamamos das nossas vidas? A vida nos impõe limites inimagináveis, isso é certo, mas, certo também é o martelo que cada um possui dentro de si para quebrar essas paredes. Que belo martelo o senhor encerrava dentro de si, Sr. Blecher. Recomendo este livro para todos que buscam conhecer a literatura romena, para todos que buscam por uma leitura profunda e de qualidade. Você sairá melancólico, mas, por favor, olhe o outro lado da moeda. Por fim, ao contrário dos protagonistas de tanta ficção recente, Emanuel nunca é uma vítima, mas um observador perspicaz da natureza humana, incluindo a sua própria. Leva 5 de 5 estrelas. Passagem interessante: “O mistério mais perturbador talvez seja aquele que se nos apresenta na mais simples evidência” (pg. 78)

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    Marcel Blecher

    O escritor Romeno Max Blecher teve vida curta e intensa. Aos dezenove anos, quando estudava medicina em Paris, foi diagnosticado com mal de Pott (tuberculose da coluna vertebral), passando os dez anos seguintes em tratamento. Ativo apesar da doença. Sua obra é uma das mais belas e enigmáticas meditações sobre a existência, num tempo dilacerado pelas catástrofes históricas e marcado pela constituição problemática do sujeito e pela renovação artística e literária das vanguardas.

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    Marcel Blecher