Nesta obra, Georges Duby "fala" de uma certa Idade Média, a das obras-primas. O seu esforço de explicação incide "aqui por força, nas formas de arte que foram criadas na proximidade do poder e no universo estreito da alta cultura". Foram essas obras praticamente as únicas que chegaram até nós. Uma vez que "a criação artística é sempre governada pelas forças sociais dominantes", o autor focaliza a sua atenção em "O mosteiro (980-1130)", "A catedral (1130-1280)", "O palácio (1280-1420)", espaços em que a invenção foi modelada para "a glória de Deus", e abrigo terreno de seus representantes, para "o serviço dos príncipes" e "o prazer dos ricos".
O tempo das catedrais (Imprensa Universitária #8) - A arte e a sociedade, 980-1420
Georges Duby
Lista de Livros: O tempo das catedrais, de Georges Duby
Parte I A magistratura imperial era uma outra instituição divina que se situava um pouco mais acima na hierarquia dos poderes, no grau intermediário entre os reis da terra e as dominações celestes. Perante Carlos Magno prosternara-se um papa. Sobre o túmulo de S. Pedro, saudara-o com o nome de Augusto. Novo Constantino, novo David, o imperador do Ocidente passou a ter como missão guiar para a sua salvação o conjunto da cristandade latina. Mais do que os reis que se inclinavam diante deles, os novos imperadores tiveram de comportar-se como heróis de Deus. Mas sabiam-se também sucessores de César. Nos gestos de consagração que lhes, cabia cumprir e que suscitavam a obra de arte, recordavam-se de seus predecessores, cujas liberalidades tinham outrora adornado as cidades antigas. Quiseram pois que os objetos que, por sua ordem, eram oferecidos a Deus, tivessem a marca duma certa estética. A do Império isto é, a de Roma. Os artistas que obedeciam às suas vontades e às dos outros soberanos do Ocidente, procuraram assim mais deliberadamente a inspiração nas obras da Antiguidade. Da renovação do Império procede muito diretamente tudo o que liga no ano mil a arte do Ocidente à da Roma clássica. * Mais do blog Lista de Livros em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2021/10/o-tempo-das-catedrais-arte-e-sociedade.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte II Os primeiros concílios da paz de Deus nunca negaram aos homens de guerra o direito de se baterem: Deus colocara-os no ponto mais alto da hierarquia social para que desempenhassem uma função militar. Ora, por alturas de 1020, alguns clérigos começaram a professar que as alegrias da guerra são prazeres culposos e que aquele que decide proibir-se deles agrada ao Senhor. Às prescrições da paz de Deus juntaram-se as obrigações da trégua. Desde a Quaresma até Páscoa, não assaltarei o cavaleiro desprovido de arma secular: no tempo da penitência, convinha abster-se da guerra tanto como dos outros prazeres do corpo. Por meados do século, no momento em que as peregrinações a Santiago e Jerusalém ganhavam pouco a pouco o ar de agressões militares em países do Islã, as assembleias a que presidiam os bispos acabaram por condenar qualquer violência entre cristãos. Que nenhum cristão mate outro cristão, porque quem mata um cristão derrama, sem nenhuma dúvida, o sangue de Cristo. Assim sendo, aonde iriam levar a força das suas armas os cavaleiros que as instituições divinas votavam ao combate? Para fora do povo de Deus e contra os inimigos da fé. Só a guerra santa era lícita. Em 1063, um papa arregimentava os cavaleiros de Champanha e de Borgonha que se aprestavam para a peregrinação a Espanha; exortava-os a lançarem-se contra os incréus; se alguns morressem na luta, o sucessor de Pedro, que detém as chaves do paraíso, prometia-lhes a indulgência. Em nome de Cristo, esta tropa tomou Barbastro, uma cidade sarracena cheia de ouro e de mulheres. Trinta e dois anos mais tarde; um outro papa apontava às violências cavaleirescas um fim mais exaltante: libertar o túmulo de Jesus. A todos os peregrinos armados que respondessem ao seu apelo, oferecia um emblema, símbolo de Vitória, a cruz, o estandarte de Cristo. Que é a cruzada senão o resultado final das longas pressões do espírito feudal sobre o cristianismo, e que foram os primeiros cruzados senão os vassalos fiéis dum Deus cioso que leva a guerra ao campo dos seus inimigos e que, pelo ferro e pelo fogo, os verga sob o seu poder? A escultura sacra acolhe então, entre os atributos da força divina, as cotas, as lorigas, os elmos, os escudos e todo um exército de lanças, apontadas contra as forças da noite. * Mais em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2021/10/o-tempo-das-catedrais-arte-e-sociedade_23.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte III No princípio do século, o panteísmo de Amaury de Bène foi violentamente extirpado: importava não confundir Deus com as criaturas e distinguir os valores particulares do corpo, da alma e do espírito, sem no entanto condenar a matéria, sem a colocar à margem de Deus, nem a levantar contra ele, como um princípio diferente e hostil: o dualismo maniqueu continuava a ser o maior perigo. Prudentemente interpretada, a teologia de Dinis, o Areopagita, oferecia um ponto de equilíbrio. Mostrava a natureza vinda de Deus e retornando a ele, para o completar. Neste duplo movimento de amor, as criaturas apareciam como substâncias distintas da divindade que existe separadamente delas, mas o ser delas é conforme com um modelo exemplar que está em Deus. Iluminadas, inteiramente cheias por ele, não apresentam, contudo, mais do que um reflexo dele. Segundo o pensamento dionisino e segundo a teologia ortodoxa que nele se inspira, a matéria participa no esplendor de Deus, glorifica-o, leva ao conhecimento dele. O otimismo jubilante de Francisco de Assis assim a concebia. Como exprimir o enternecimento que o tomava ao encontrar nas criaturas o sinal, o poder e a bondade do Criador? Tal como noutro tempo os três meninos na fornalha convidavam os elementos todos a louvar e a glorificar o Criador do universo, assim Francisco, cheio do espírito de Deus, encontrava em todos os elementos e em todas as criaturas tema para dirigir ao Criador e ao Senhor do mundo glória, louvores e bênçãos... Se via um campo esmaltado de flores, logo lhes pregava, como se elas fossem dotadas de razão, e as convidava a louvar o Senhor. As searas e as vinhas, as águas correntes, as hortas verdejantes, a terra e o fogo, o ar e os ventos, tudo isto ele exortava, com a simplicidade mais sincera, a amar a Deus, a obedecer-lhe de boa vontade. Dava o nome de irmão a todas as criaturas, e, por uma prerrogativa recusada aos outros, o seu coração penetrava os segredos delas, como se, libertado do corpo, vivesse já na gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Irmão de Jesus, Francisco sente-se também irmão das aves do céu, do sol, do vento e da morte. Vai pelos campos da Úmbria, e todas as belezas o acompanham em cortejo de alegria. Uma tal comunhão com a alegria do mundo estava de acordo com os desejos de conquista da juventude cortês. Era capaz de trazer a Deus os bandos de rapazes e moças que iam florir a árvore de Maio. Era acolhendo a natureza, os animais selvagens, a frescura do amanhecer e as vinhas maduras, que a Igreja das catedrais podia esperar atrair a si os cavaleiros caçadores, os trovadores, as velhas crenças pagãs no poder das forças agrestes. O asceta São Bernardo o dissera já com veemência: Vereis por vós próprios que se pode tirar mel das pedras e azeite dos rochedos mais duros. * Mais em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2021/10/o-tempo-das-catedrais-arte-e-sociedade_69.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte IV Os acontecimentos do passado não explicam o presente, prefiguram-no, ao mesmo tempo que o concluem. * Durante o século XIV, revelam-se e acusam-se no corpo da cristandade do Ocidente os indícios duma retração. O desejo de cruzada mantém-se vivo, obsidiante. Está no coração da política da Igreja e do comportamento de todos os cavaleiros. Mas deriva lentamente para o lado dos mitos e das nostalgias. Entre a queda de S. João de Acre em 1291, última possessão franca da Terra Santa, e a debandada dos cruzados em Nicópolis, em 1396, diante do exército turco que invadia os Balcãs, a realidade é o lento abandono do Mediterrâneo oriental. Bizâncio, depois de 1400, não é senão uma praça investida, ansiosa, uma espécie de vanguarda condenada perante as pressões dos infiéis e da Ásia. Se a Europa não se espalha mais, antes recua, é porque o número dos seus habitantes, que não parara de crescer desde há pelo menos três séculos, começou a decair nas proximidades do ano 1300 e porque a grande peste de 1348-1350 e as vagas epidêmicas que a seguiram transformaram essa regressão em catástrofe. Nos primeiros anos do século XV, a população, em muitos países da Europa, é metade da de cem anos antes: inúmeros campos a mato, milhares de aldeias desertas e, nas muralhas que se haviam tornado demasiado largas, uma ruína que atinge os bairros da maior parte das cidades. Acrescentam-se as agitações da guerra. A força agressiva que ainda não há muito se desenrolara por fora, em expedições de conquistas, sente-se agora que se recolhe. Suscita constantes defrontamentos entre os Estados, grandes e pequenos, que se reforçam, que dividem a cristandade e que, rivalizando, se opõem. Por toda a parte bandos armados, que pilham e devastam, quadrilhas, condotte. Por toda a parte os salteadores e os esfoladores, profissionais da guerra. No período de cinquenta anos que a fronteira do século XIV enquadra, situa-se uma das grandes viragens que na Europa infletiram a história da civilização material. Esta história desenvolveu-se em dois amplos impulsos separados por uma depressão muito longa. O século XIV situa-se na abertura da fase estagnante que se prolongou até às proximidades de 1750. * Mais em: https://listadelivros-doney.blogspot.com/2021/10/o-tempo-das-catedrais-arte-e-sociedade_95.html XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX Parte V Mais do que uma arte de viver, o cristianismo do século XIV foi uma arte de bem morrer, e a capela, mais do que o lugar das orações e da contemplação mística, o dum culto funerário. As forças associadas de vulgarização e de laicização colocaram o sentimento da morte nessa posição dominante, pondo no centro dos ritos e da imaginária religiosa esta interrogação primária: que aconteceu aos defuntos? onde estão? A doutrina da alta Igreja propunha uma resposta tranquilizadora. A morte é uma passagem, o termo da viagem terrestre, a chegada ao porto. Um dia, talvez próximo, virá o fim dos tempos, o regresso glorioso de Cristo, a ressurreição da carne na sua plenitude. Então os bons serão separados dos maus e a imensa multidão dos ressuscitados repartida em dois grupos, que se encaminharão, um para as alegrias, o outro para as penas eternas. Enquanto esperam este último dia, os defuntos repousam num lugar de refrigério e de calma, dormem o sono da paz. Tal é o ensinamento da liturgia dos funerais. E a Igreja conquistadora da Alta Idade Média perseguira, ao tempo, para as destruir, as práticas funerárias do paganismo. Ameaçara com as mais graves penas os que se obstinassem em levar alimentos aos mortos. Esvaziara os túmulos das joias, das vestes, das armas, de todo o abundante mobiliário colocado junto dos cadáveres, para que o defunto pudesse viver em aprazimento a sua existência misteriosa e não viesse, insatisfeito, importunar os vivos. A morte instalara-se portanto na nudez, no despojamento tranquilo. Discrição surpreendente: nenhum adorno, nenhum emblema sobre os restos das princesas carolíngias inumadas no envasamento da basílica de Santa Gertrudes em Nivelles, e quando os arqueólogos abriram o único túmulo dum rei de França que ficara inviolado, o de Filipe I, em Saint-Benoit-sur-Loire, não descobriram nada junto do corpo defunto, a não ser os restos dum simples revestimento de folhagem. * Mais do blog Lista de Livros em:
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