Esta foi a primeira vez que resenhei ou li um livro como “O Escorpião de Lugano”. Confesso que quando escolhi lê-la estava atraída pela “poesia” que captei nas poucas linhas oferecidas ao leitor na forma de sinopse, mas não se assuste, não é uma coletânea de poemas. De fato, trata-se de uma narrativa, mas que, inegavelmente, também é poética.
Geralmente, ao iniciar a leitura de uma história, tenho alguma ideia, ainda que pequena, do que virá. É claro que há sempre a expectativa sobre os lugares, as personalidades, o desenrolar dos acontecimentos, e essa curiosidade, ao menos essa, vai sendo saciada a cada página. Em “O Escorpião de Lugano”, isso ocorreu de forma bem diferente do que eu previ. A cada página, mais perguntas surgiam. A princípio, perguntas muito simples e costumeiras, perguntas sobre um lugar; em seguida vieram algumas mais profundas, humanas, existenciais até. Mas a maioria ligada a uma simples, mas fundamental questão: do que se trata a obra?
Essa não foi uma questão fácil, incomodou-me o tempo inteiro enquanto lia. Seria sobre um lugar? Música? Sobre a arte de escrever? Sobre a arte de pintar, ou melhor, a arte como um todo?
É tudo isso e ainda mais. Ela fala sobre o silêncio, sobre uma busca, sobre um grito interior, sobre o movimento, sobre o equilíbrio ou a falta dele, sobre a mudança, sobre a imobilidade que existe no movimento (contraditório isso, mas também extraí algo assim na minha leitura e fez bastante sentido para mim), é sobre um um olhar atento naquilo que os "apressados" veem sem enxergar, é sobre um escorpião. Tudo isso em apenas 73 páginas... Não é para qualquer um!
"Assim, temos nosso cerne, como as árvores de boa cêpa e raízes profundas que buscam a água funda, mas nosso espírito guarda, talvez como aquele de cada árvore, um sonho de eternidade, a veleidade voluptuosa do voo do pássaro, a força do jorro da vida, a naturalidade dos riachos que correm. Embora nos mantenhamos fixos num solo amigo e a realidade das paisagens se inscreva mais na repetição do que na novidade nelas." (pag.47)
Não sei se consegui captar com exatidão os sentimentos e ideias por trás das palavras da autora, mas também não enxerguei nenhuma pretensão de conduzir o leitor a alguma verdade absoluta, já que a ideia de movimento e mudança estão bastante nítidas no texto, ao menos para mim.
Bom, o leitor deve estar se perguntando agora quando vou falar um pouco mais sobre a narrativa, em si, talvez algo mais objetivo, como os acontecimentos, o enredo, os personagens, etc. Acontece que esta não é uma história que possa ser descrita assim, de maneira tão prática, apesar de que, na verdade, a narrativa em si é algo muito simples, apenas um pretexto para uma exposição de ideias. Ela é o relato de uma viagem a Lugano. Enquanto observa os lugares, as pessoas, as paisagens e algumas cenas bastante triviais, o narrador reflete sobre diversas questões e essas reflexões é que são na verdade o que há de essencial no texto.
Apesar de a obra estar classificada como ficção e fazer parte de uma coleção intitulada “Viagens na Ficção”, eu a classificaria também como uma narrativa filosófica, já que, a meu ver, cada linha está repleta de ideias. Minha leitura não será igual a de outras pessoas, o que obriga os curiosos a lerem e dialogarem em particular com o texto se quiserem saber mais.
Em respeito à escrita, estou encantada e, voltando ao que falei no início, descobri que é poética, sim; mais que isso, é musical. Há ritmo. As palavras são colocadas de uma maneira bastante característica e sua sonoridade soa bastante agradável para mim. Em sua forma, é também enigmática, repleta de metáforas, de “sins” de “nãos” de “talvez” de “respostas” e “não respostas”, de “tudo” e de “nada”; necessita ser desvendada. A impressão que tive foi que, por mais simples que parecesse uma frase, escondia algum significado oculto — talvez eu tenha me excedido em minha interpretação, talvez não, não sei. A verdade é que me senti bastante livre para buscar significados no texto de Marisa Guaranys.
Em suma, é um livro de poucas páginas, mas que não é para ser lido, como dizem, em uma “sentada”, nem numa tarde. É uma obra para ser lida pouco a pouco, com cuidado, até mesmo para ser sentida. É para deixar na mesa de cabeceira e ler todos os dias, ou sempre que tiver vontade, até mesmo algum trecho aleatório, para tentar extrair dele um algo mais.
RESENHA FEITA POR DEH RATTON.