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    O Escorpião de Lugano (Viagens na Ficção) -

    Marisa Guaranys

    Chiado
    2015
    73 páginas
    2h 26m
    ISBN-13: 9789895157242
    Português Brasileiro
    5
    2 avaliações
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    Quando penso nos compositores que extraíram acordes do ruidoso silêncio onde se encontravam, compreendo que deve haver algo mais e que só eles ouvem. Porém, quando penso nos pintores e escultores que extraíram cores e formas do mesmo silêncio, embora embalados por uma música muito particular, então eu posso compreender que há um silêncio na música, uma batida a menos no coração da humanidade. E é precisamente por isso que tudo brilha: porque há uma gota d’água no coração da madeira, uma bolha de ar no coração da pedra, uma luz de estrelas no coração da noite, uma sombra de árvore no coração do dia, uma imobilidade no coração da ventania, um calor no coração do frio, a luz de um certo olhar na noite dos sentidos, uma nota de tristeza no coração do amor, uma morte no coração da eternidade. Um eu no coração do nós. Um escorpião no fundo do lago. E é precisamente este arremesso de opostos que buscam nossos olhos permanentemente, que busca nosso coração aflito, surpreendido por aquilo que não poderia supor e que o retira momentaneamente da regularidade de sua dor de existir: o grito inesperado das coisas pequenas .

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    Conhego das Letras22/06/2016Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Não é para "qualquer um"...

    Esta foi a primeira vez que resenhei ou li um livro como “O Escorpião de Lugano”. Confesso que quando escolhi lê-la estava atraída pela “poesia” que captei nas poucas linhas oferecidas ao leitor na forma de sinopse, mas não se assuste, não é uma coletânea de poemas. De fato, trata-se de uma narrativa, mas que, inegavelmente, também é poética. Geralmente, ao iniciar a leitura de uma história, tenho alguma ideia, ainda que pequena, do que virá. É claro que há sempre a expectativa sobre os lugares, as personalidades, o desenrolar dos acontecimentos, e essa curiosidade, ao menos essa, vai sendo saciada a cada página. Em “O Escorpião de Lugano”, isso ocorreu de forma bem diferente do que eu previ. A cada página, mais perguntas surgiam. A princípio, perguntas muito simples e costumeiras, perguntas sobre um lugar; em seguida vieram algumas mais profundas, humanas, existenciais até. Mas a maioria ligada a uma simples, mas fundamental questão: do que se trata a obra? Essa não foi uma questão fácil, incomodou-me o tempo inteiro enquanto lia. Seria sobre um lugar? Música? Sobre a arte de escrever? Sobre a arte de pintar, ou melhor, a arte como um todo? É tudo isso e ainda mais. Ela fala sobre o silêncio, sobre uma busca, sobre um grito interior, sobre o movimento, sobre o equilíbrio ou a falta dele, sobre a mudança, sobre a imobilidade que existe no movimento (contraditório isso, mas também extraí algo assim na minha leitura e fez bastante sentido para mim), é sobre um um olhar atento naquilo que os "apressados" veem sem enxergar, é sobre um escorpião. Tudo isso em apenas 73 páginas... Não é para qualquer um! "Assim, temos nosso cerne, como as árvores de boa cêpa e raízes profundas que buscam a água funda, mas nosso espírito guarda, talvez como aquele de cada árvore, um sonho de eternidade, a veleidade voluptuosa do voo do pássaro, a força do jorro da vida, a naturalidade dos riachos que correm. Embora nos mantenhamos fixos num solo amigo e a realidade das paisagens se inscreva mais na repetição do que na novidade nelas." (pag.47) Não sei se consegui captar com exatidão os sentimentos e ideias por trás das palavras da autora, mas também não enxerguei nenhuma pretensão de conduzir o leitor a alguma verdade absoluta, já que a ideia de movimento e mudança estão bastante nítidas no texto, ao menos para mim. Bom, o leitor deve estar se perguntando agora quando vou falar um pouco mais sobre a narrativa, em si, talvez algo mais objetivo, como os acontecimentos, o enredo, os personagens, etc. Acontece que esta não é uma história que possa ser descrita assim, de maneira tão prática, apesar de que, na verdade, a narrativa em si é algo muito simples, apenas um pretexto para uma exposição de ideias. Ela é o relato de uma viagem a Lugano. Enquanto observa os lugares, as pessoas, as paisagens e algumas cenas bastante triviais, o narrador reflete sobre diversas questões e essas reflexões é que são na verdade o que há de essencial no texto. Apesar de a obra estar classificada como ficção e fazer parte de uma coleção intitulada “Viagens na Ficção”, eu a classificaria também como uma narrativa filosófica, já que, a meu ver, cada linha está repleta de ideias. Minha leitura não será igual a de outras pessoas, o que obriga os curiosos a lerem e dialogarem em particular com o texto se quiserem saber mais. Em respeito à escrita, estou encantada e, voltando ao que falei no início, descobri que é poética, sim; mais que isso, é musical. Há ritmo. As palavras são colocadas de uma maneira bastante característica e sua sonoridade soa bastante agradável para mim. Em sua forma, é também enigmática, repleta de metáforas, de “sins” de “nãos” de “talvez” de “respostas” e “não respostas”, de “tudo” e de “nada”; necessita ser desvendada. A impressão que tive foi que, por mais simples que parecesse uma frase, escondia algum significado oculto — talvez eu tenha me excedido em minha interpretação, talvez não, não sei. A verdade é que me senti bastante livre para buscar significados no texto de Marisa Guaranys. Em suma, é um livro de poucas páginas, mas que não é para ser lido, como dizem, em uma “sentada”, nem numa tarde. É uma obra para ser lida pouco a pouco, com cuidado, até mesmo para ser sentida. É para deixar na mesa de cabeceira e ler todos os dias, ou sempre que tiver vontade, até mesmo algum trecho aleatório, para tentar extrair dele um algo mais. RESENHA FEITA POR DEH RATTON.

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