Mas, como assim criticar a Disney, uma empresa de entretenimento infanto-juvenil, que move milhões de dólares e emprega milhares de pessoas nos EUA, França, Japão e outros países, que vende revistas e desenhos inocentes e diverte toda família? Por acaso os autores são antiamericanos? Justamente, passados cinquenta anos da publicação deste livrinho, a Disney comprou diversas empresas e se tornou um conglomerado que vende séries e filmes pelo mundo através de aplicativos de smartphone e televisão. Não, os autores são americanos do sul. Como poderiam ser contra o lugar onde nasceram? O que os autores condenam é a forma pela qual Walt Disney e seus sucessores escolheram para entreter crianças de zero a mais de cem anos.
E qual é a forma? Sintetizar, resumir a história do mundo de maneira pobre e facilmente inteligível. Os personagens infantis, sobrinhos de Donald, de Mickey, do Pateta geralmente dão lição de moral sobre os tios. Não há casais nessas histórias, não há pai nem mãe. Nós sentimos pena do sovina Tio Patinhas porque é rico sem trabalhar é rico e solitário. Mickey é o amigo de todos e que faz o bem e nos identificamos com ele, mas gosta de investigar e bancar o detetive, acredita com isso que é o dono da razão, não é pra menos que seja ídolo nos EUA e Europa. Já o Pato Donald tem mais carisma dos leitores sul-americanos, é um sobrinho querido-lastimado pelo Tio Patinhas, sempre em busca de trabalho, sempre se dá mal em todos os empregos, só tem felicidade quando sai com os sobrinhos em busca de ouro para aumentar a fortuna de Tio Patinhas (roubando tesouros de selvagens-bonzinhos) e sempre perseguido pelos irmãos Metralha (o mal encarnado em sujeitos barbados metamorfoseados em cães, que ora se vestem de guerrilheiros revolucionários, ora de exploradores espanhóis roubando Astecas e Incas, impérios de patos, ora ora!).
Não há trabalho, não há esforço, sempre a tecnologia está a serviço do domínio e da conquista pelo Tio Patinhas de mais ouro para sua fortuna. Não há uma sequência exata, tudo nas histórias tem começo meio e fim, o sossego é abalado por um evento dramático. Seja um rival de Donald que quer conquistar Margarida, uma prestação que não é paga e que força Donald a buscar qualquer tipo de emprego (tratado como diversão, pantomima, a graça está no drama do pato nervoso e instável, além de tudo azarado - herdeiro da fortuna de Patinhas que nunca morre, namorado de Margarida com quem nunca se casa, tio de três sobrinhos geniosos que sempre estão dispostos a mostrar a ignorância desse tio, mas quase nunca ou na verdade jamais reconhecer que ele os adotou de um pai que nunca existiu).
"Amanhã o moderno será obsoleto. Os produtos da ciência, os inventos de Pardal, o tráfico de genialidades são objetos de consumo imediato, perecíveis, fugazes, substituíveis.''
"Essa repetição da história em história em quadrinhos, converte o homem imprevisível em um ser sempre previsível. Traduz o doloroso transcurso temporal em velhice eterna e prematura, Não se pode buscar no passado as causas do presente. Disney se encarregou de mandar o Pato Donald como embaixador a todas as partes. Pena que Sócrates não pôde comprar suas revistas. Certamente não teria tomado cicuta!"
''Mickey é o símbolo de uma falsa mãe."
"O mundo inteiro do pato é televisivo, queira ele ou não, e ele não pode fugir desse fato"
"A ameaça não é por [Donald] ser o porta-voz do american way of life, o modo de vida do norte-americano, mas porque representa o american dream of life, o modo porque os EUA se sonha a si mesmo, se redime, o modo por que a metrópole nos exige que representemos nossa própria realidade, para a sua própria salvação.''
"Os personagens se movem no reino do ócio.''
"O imaginário infantil recobre todo o cosmos Disney"
"Disney expulsa o setor secundário do seu mundo de acordo com os desejos utópicos da classe dominante de seu país. Mas, ao fazê-lo cria um mundo que é uma paródia do mundo do subdesenvolvimento. Só há setor primário e terciário no universo de Disney."
"Esse livro não surgiu da cabeça aloucada de indivíduos, mas converge para todo um contexto de luta a fim de derrubar o inimigo de classe em seu terreno e em nosso terreno.''
Não se trata de proibir nem condenar Disney, isso faria exatamente aumentar a venda dos produtos já bem comercializados da Disney e sim mostrar o quão nocivos eles são para as pessoas como um todo em uma sociedade cada vez mais doente, alienada, que piora a cada ano consumindo passivamente um entretenimento que se confunde como inocente e que no entanto vende ilusões trágicas para a realidade. Sabe-se que Disney era simpatizante do nazismo e inclusive há desenhos em que o Pato Donald usa a suástica em um boné, o livro mostra essa ilustração. Mickey da forma como conhecemos desenhado por Ub Iwerks nunca foi visto por Walt Disney, que o concebeu como Mortimer Mouse. A obra de arte de Salvador Dali e Disney foi concebida por ghost writers sem reconhecimento devido. Alvaro de Moya que faz o prefácio confessa que desenhava Mickey e assinava com o nome de Walt Disney.