Se eu tivesse alma -

    Débora Gil Pantaleão

    Benfazeja
    2016
    48 páginas
    1h 36m
    ISBN-13: 9788569577058
    Português Brasileiro

    Edições (1)

    Ver mais
    • book cover
    Resenhas (1)Ver mais
    Krishnamurti Góes dos Anjos picture
    Krishnamurti Góes dos Anjos15/07/2016Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Uma alma sensível em meio ao absurdo do mundo

    Alberto Camus em “O mito de Sisifo”, define o termo 'absurdo na literatura', falando de um mundo que é um exílio para o homem que, agora, despido de ilusões, não tem mais para onde voltar nem para onde ir. É sentimento que, em pleno século XXI se acentua, sobremodo nos que têm sensibilidade para o perceber. Débora Gil Pantaleão, uma jovem paraibana de 27 anos, acaba de lançar pela Editora Benfazeja seu primeiro livro de poemas. “Se eu tivesse alma”, reunindo 40 poemas nos quais predomina a visada existencial no ser humano abandonado em um mundo vazio de sentido. Exposto ao chocante desamparo de nossa condição, na qual solidão e angustia são temas intermitentes, o ser prossegue em sua peregrinação de sofrimento. Vide os poemas “Viral” e “Existe”, este último merecendo destaque: Existe Existe em mim Uma voz que cala E outra que canta Uma boca que grita E outra que se traveste Um peito que incha E logo enfraquece Existe em mim Uma dor pacata E outra que estremece Um grunge alto E um blues que padece Um peito que incha E logo se esquece. Há também poemas que giram em torno do fazer poético - “Rimas raras”, e a violência cometida contra o fruto de um amor literalmente abortado, exposto no poema “A sangue frio”. E falando ainda de amor, a idealização/ruína do que pensamos ser o amor, nos três poemas consecutivos: Amor parte I, II e III. O primeiro dos quais se abre com um verso que dirá muito àqueles que já amaram: “Eu queria entrar em você”. Existe todavia alguma esperança nessa poética do desencanto? Esperança que estabeleça uma fé no resultado final e exitoso da condição humana? Certamente, embora de maneira ambígua: Da história Maldito o homem que inventou a esperança Que nos entubou em garrafas divergentes Que nos quer infelizes contentes Que nos enfiou a ideia da (des)esperança. Sete vezes maldito. Esses poemas de Débora Gil, ao cabo da leitura, nos fazem recordar por uma espécie de analogia fortuita, de uma crônica do bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis a publicou em 06/10/1895 – e essa data é bom indicativo do quanto a percepção humana não obedece a parâmetros temporais restritos – , intitulada: “Quem põe o nariz para fora da porta, vê que este mundo não vai bem...”. Ao final do texto Machado escreve: “… e desconfio que há algum plano divino, oculto aos olhos humanos. Talvez a terra esteja grávida. Que animal se move no útero desta imensa bolinha de barro, em que nos despedaçamos uns aos outros?” Poetas como Débora Gil também desconfiam, e nos convidam a contemplar este parto 'difícil', exercendo a mais rica experiência sensorial criada pela mente humana. A poesia. Presságio Pressagio de que o mundo não vai acabar De que o leite não vai derramar E que ficaremos todos são e salvos Dentro deste poema. Não podemos nos furtar finalmente, de sugerir (o que certamente trará bons frutos ante ao talento da autora), outras decifrações da alma humana em sua capacidade inata de transcender, mesmo em face dos tantos e tamanhos absurdos que nos constrangem. Sensibilidade e razão, aquela historia…

    curtir

    Estatísticas

    Avaliações

    4.3 / 4
    • 5 estrelas50%
    • 4 estrelas25%
    • 3 estrelas25%
    • 2 estrelas0%
    • 1 estrelas0%