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    A reinvenção do corpo (Coleção Ciências Sociais 2) - Sexualidade e gênero na experiência transexual

    Berenice Bento

    edufrn
    2014
    330 páginas
    11h 0m
    ISBN-13: 9788542503456
    Português Brasileiro
    4.5
    39 avaliações
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    Skooblover09/03/2014Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A reinvenção do corpo

    O livro conta com uma importante incursão etnográfica empreendida pela autora através de observação entre transexuais participantes do Processo Transexualizador do SUS em Goiânia no final da década de 1990 e início dos anos 2000, e a observação do coletivo de militância de transexuais em Valência/Espanha. O livro se trata de uma versão de sua tese de doutoramento defendida em 2003, contando com uma importantíssima localização dos sujeitos transexuais como objeto de estudo sociológico, atividade ainda não tomada pelas Ciências Sociais na época, crítica que a própria autora empreende ao mostrar que a Ciência Médica e a Piscologia acabaram por tomá-los enquanto objeto de estudo num movimento a patologizá-los. O texto se ancora em autores e autoras da teoria queer importantes, como Judith Butler e sua teoria da performance, de reconhecimento internacional, que na época do seu doutorado ainda não tinha tido conhecimento a nível brasileiro acadêmico. Um dos objetivos principais do livro é mostrar que a transexualidade não se trata de uma doença nem de um transtorno psicológico, como aponta a medicina e a psicanálise. Através de uma importante argumentação em situar a construção do "dispositivo da transexualidade" (nome dado pela autora pelo conjunto de saberes que patologizam a experiência transexual, que identifica uma essência para identificar o "verdadeiro transexual", outra desconstrução da autora) através da história da constituição da transexualidade enquanto categoria nosológica criada pela medicina e saberes psi. Não pretendo com essa review apontar todas as características impactantes do trabalho da autora. O que eu vejo é que o livro se trata de leitura importante tanto para os estudiosos da experiência transexual, como àqueles que estudam o gênero de uma forma geral, uma vez que um dos aprofundamentos teóricos que a autora acaba por fazer é mostrar o quanto essa experiência nos mostra a estrutura em que se encontram as normas de gênero. Desse modo, a transexualidade não se trata de um "estereótipo de gênero", como alguns apontam, mas de um fazer o gênero através de atos, assim como é feito por homens e mulheres assim identificados ao nascer. Quer dizer, acaba-se, portanto, por situa esses sujeitos ao lado de homens e mulheres tomados como normais pela ciência médica. Ou seja, o gênero ele é feito através de atos, tanto por transexuais como não transexuais, o que mostra a autora ancorada em Butler que cita Derrida, em seu conceito da citacionalidade para mostrar que os atos performativos do gênero se fazem repetida e continuamente, através de confirmações ininterruptas de performances. A reinvenção do corpo, mostra também, como a autora vê a questão de uma identidade transexual, o que poderia ser proposto ao pensar em uma essência comum a todos os sujeitos transexuais, o que não é possível. Se trata de uma experiência diversa que abarca diferentes formas de lidar com o corpo, com os conflitos, mas que posiciona os sujeitos através de disso mesmo, de posições de identidades através de uma comunidade de emoções que os unem através de narrativas dos conflitos que vivenciaram consigo mesmos e com os outros. A cirurgia transgenitalizadora e as técnicas estilísticas corporais não são demandas pelos sujeitos transexuais como uma necessidade para a experiência sexual, mas para sua posição em reconhecimento de seu pertencimento à humanidade, continuamente negada pelo dispositivo da transexualidade e pelas normas de gênero que cortam a sociedade. Enfim, o espaço é curto, e o livro é muito mais do que eu falei nessa Review, que talvez tenha até o empobrecido com tamanho resumo. Ele Mostra narrativas, estratégias, vivências de transexuais, desconstrói o transexual como patologia e, desmistifica o sujeito que é visto como a fonte de seus conflitos, mostrando que estes conflitos são resultado das normas de gênero que, amparadas na matriz heterossexual, genitaliza os corpos, as subjetividades e toma suas genitálias como fonte de problema, como definidoras de suas condutas. Ou seja, são efeito do que os/as julgam como causa. Quer dizer, a discussão que a autora empreende situa sua preocupação em níveis cada vez mais profundos em pensar as normas de gênero, como o gênero é tido, como categoria cultural ou diagnóstica, que aprofundará em outros trabalhos. E uma reflexão última, também feita no livro, é inspiradora, que transcrevo aqui para não correr o risco de citar e perder seu efeito: "A experiência transexual realça que a primeira cirurgia que nos constituiu em copos-sexuados não conseguiu garantir sentidos identitários, apontando os limites discursivos dessas tecnologias e a possibilidade rizomática de se criarem fissuras nas normas de gênero". (2006, p. 228).

    1 curtida

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