Um romance peculiar e muito bem desenvolvido. Vencedor do "Prêmio Açorianos de Criação Literária" no ano de 2011.
Conta a estória em primeira pessoa de um personagem, o narrador, sobre episódios de sua vida durante o contexto político e social nos meados dos anos 60, durante a ditadura militar no Brasil, no Rio Grande do Sul.
O protagonista, apócrifo, constrói a narrativa a partir de sua experiência com um grupo de estudos de textos filosóficos no início de sua faculdade de História, em Porto Alegre. O grupo, autodenominado de "Caverna" compunha uma espécie de confraria clandestina de leitores de textos filosóficos, dedicado à análise e ao debate. Dentre os textos selecionados estavam várias obras consideradas "subversivas" para o regime recém-instaurado na época.
O tema dos debates, aliado a um grau de mistério e de seletividade na escolha dos membros da confraria (muito provavelmente pelo critério de capacidade intelectual e de interesse pelos temas do que propriamente com o objetivo de resguardo sigiloso) ocasionou um crescente interesse dos órgãos policiais que, à época, perscrutavam potenciais ou reais opositores ao regime político.
Instaurado o contexto de suspeita seguiram as perseguições e investigações, resultando na tortura e na prisão ilegal de seus membros.
O envolvimento do personagem é conduzido especialmente pela paixão de uma jovem estudante de Medicina (Ana) empolgada com o ativismo político de oposição.
No turbilhão de acontecimentos o protagonista, embora não um militante político, fora considerado alvo de investigação, submetido a torturas e prisão.
A fuga da prisão, na Ilha do Presídio, no lago Guaíba, levou o protagonista a uma série de sucessivas experiências em locais recônditos e marginalizados como, por exemplo, um prostíbulo em um vilarejo situado às margens do Guaíba (Vilarejo Éden).
O nome falso (tomado de empréstimo a um primo falecido), o acolhimento no prostíbulo, a necessidade do jovem em satisfazer as necessidades de sua anfitriã (uma cafetina idosa e obesa), a carência das mulheres situadas na situação de contingência que as levam à venda de seu corpo (com as quais o personagem também se envolve), a ausência de familiares abastados ou de amigos com influência política que pudessem afastá-lo das amargas experiências passadas, o estado de abandono e de necessidade, levam o protagonista a uma atitude quase cínica perante a vida, embora, paradoxalmente, não o proíbam de sentir a necessidade de amor e a busca de romance, demonstrado pelas mulheres com as quais se relaciona.
Um romance triste, uma observação quase piedosa sobre os amores, todos marcados, de algum modo, pelas circunstâncias não tão favoráveis da vida.
Daí seu refúgio a uma estância situada no Sul do Estado, no qual encontra exílio e descobre uma experiência de vida muito diferente daquela a qual se acostumara. Como peão de instância, envolvido nos afazeres rotineiros da criação gado, o personagem encontra uma parte de sua essência animal, atávica, acostumando-se a uma leitura do cosmos em contato direto com a natureza, brutal, a realidade. A leitura de mundo divergente dos modelos políticos e sociais descritos abstratamente nos livros e nas teorias estudadas. Se por um lado o "homizio"é redendor, por outro desperta o sentimento de perda, de interrupção da vida.
O episódio principal da narrativa se desenvolve justamente quando o protagonista, no refúgio rural, na busca de um predador que tem consumido parte da criação de ovelhas em sua estância, depara-se acidentalmente com uma situação: na Estância vizinha (Estância da Cruz ou La Daga) surge um elo de seu passado. Ana surge e então um reencontro ocorre, perigoso, clandestino, sempre à espreita de uma criatura ameaçadora (um puma).
Há inúmeros simbolismos nesse encontro ocorrido durante um rigoroso inverno em uma tapera situada às margens de um rio no "Cerro do Afogado" em um rincão no Sul (as circunstâncias da vida, a coincidência do reencontro, o esconderijo, uma história compartilhada, alheia a grande parte das pessoas).
A estrutura de Cruz do rancho no qual surge Ana (calvário, redenção?) e sua antiga significação (Adaga, lembrando o combate, a guerra, a polícia e a perseguição). A intersecção entre dois planos, formando a cruz e lembrando a constelação Cruzeiro do Sul, apontando para a direção do homizio e do refúgio do protagonista. O "cerro do afogado" lembrando a história de fugitivos e vítimas de outros conflitos políticos do passado. "Revoluções" passadas, como a de 1835 (Farroupilha), a de 1893 (Federalista) ou a de 1923.
Com o retorno de Ana e desvendado o real motivo de seu aparecimento constata-se que o acaso, mais uma vez, não é fruto de uma concessão bondosa ou de uma redenção. A morte (até então desconhecida) cobra o seu preço.
Após o regresso a Porto Alegre, já amainados os rigores da primeira etapa da repressão, o protagonista retoma o curso de sua vida, ainda sob a identidade falsa. Segue-se a rotina de estudos (Faculdade de História, ou de Direito?) e de trabalho, o envolvimento com novos amores e, novamente, um reencontro com Ana.
A descoberta de um provável filho, cuja paternidade lhe fora negada (embora verdadeira), a impossibilidade de retomada de uma ligação afetiva estável, a solidão, marcam a experiência de vida do personagem.
Em uma ressaca social, permeada de arrependimentos e de angústias, a narrativa retrata a busca de um ser humano na tentativa de reconstrução de sentido para sua própria existência. Outros atores, situados no outro espectro, também sofrem seus arrependimentos e angústias. Ao par dos dramas pessoais, uma parcela significativa da sociedade segue a vida tranquila, rotineira, como que alheia ao sofrimento dos personagens. A vida segue para a maioria, com seus imperativos práticos.
Esse deslocamento da realidade, caracterizado pela ausência de uma história comum do protagonista com o restante da sociedade, dá causa a um crescente sentimento de isolamento, de solidão, que inibe o protagonista de novos envolvimentos emocionais profundos.
"Por que os ponchos são negros" é um espetacular romance que retrata com peculiar sensibilidade e precisão o íntimo de um personagem envolto em um contexto histórico, social e político muito conturbado no Brasil. Como todo bom romance lança luzes sob perspectivas diversas como, no caso, a intimidade e a psicologia do narrador, permitindo que sejam criados novos sentidos à experiência. Nesse aspecto é que o romance destaca-se, relegando à margem as discussões políticas e ideológicas. Retrata, maravilhosamente, as consequências e as marcas deixadas pelos movimentos ideológicos.
Uma valiosa narrativa que serve de lembrança a todos nós, brasileiros, para o perigo que ronda próximo aos discursos e narrativas ideológicas, sobremodo ao incentivo de ações extremadas que incendeiam e nos fazem enxergar em cada indivíduo um adversário merecedor da morte.
"A noite é cancha suprema dos que se avistam co'a morte; avança seus contrafortes num passo de soberana; a noite, velha cigana sempre agourando má sorte.
Pelo noturno mistério, todos os gatos são pardos; os cachorros são mais brabos, porque o pior não é visto; e a noite traz sempre um susto noutro susto acolherado.
Quando vigora o silêncio, quem se alvorota se mostra; a frente se iguala às costas, porque a visão não perfura; a noite, velha impostora, onde a vida é uma proposta.
Rasgando o ventre da furna, sobressaltam-se as adagas. Logo, logo um corpo traga o brilho pelas entranhas. A noite só joga às ganhas; a noite aposta e não paga.
Sabem as gentes do escuro que há que manter seu segredo. Se o dia não vem tão cedo e a noite não tem janelas, ninguém escapa do enredo.
Há que se agir sem apuro; há que pôr freio nos nervos; há que vestir-se com ela. Por isso os ponchos são negros."