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    O anjo bêbado -

    Paulo Mendes Campos

    Sabiá
    1969
    244 páginas
    8h 8m
    ISBN-1: 0
    Português Brasileiro
    4.5
    6 avaliações
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    O Anjo Bêbado, crônicas, Ed. Sabiá - Rio de Janeiro, 1969 Acorrentados Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.

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    Henrique Luiz Fendrich picture
    Henrique Luiz Fendrich11/09/2019Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Paulo Mendes Campos: anjo bêbado e experimentador

    De todos os cronistas tradicionais, ou, pelo menos, daqueles que se costuma reverenciar como mestres do gênero, certamente é Paulo Mendes Campos quem mais experimentou. Ele até faz aquela crônica típica, um relato bem-humorado, às vezes lírico, de um fato banal do cotidiano, mas esta não era a única forma que encontrava para preencher o espaço da crônica. Por vezes, ele o preenchia com aforismos, pedaços de histórias, reflexões isoladas. Não é à toa que o seu livro “O anjo bêbado” (Sabiá, 1969), o quarto de crônicas, conta com uma seção chamada de “Exercícios” e outra chamada de “Experiências”. Neste livro, as experiências são textos inteiros, únicos em seu tema, às vezes únicos também em parágrafos, em que Paulo Mendes Campos constrói o seu ritmo de forma poética. Ele pode fazer, por exemplo, um texto inteiro listando pessoas que são “presidiários da ternura”, e que “andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre”. Pode inverter a história de Kafka e fazer uma crônica inteira com base neste início: “Ao acordar num oco de pau uma bela manhã, um inseto viu-se transformado em homem”. Pode colocar em sequência notícias de jornal, frases de filósofos e profecias de Isaías, tudo “significando morte”. Ou ainda fazer uma crônica em que as frases são praticamente versos, como “Prosa Primitiva”, e incluir umas que são, de fato, verso do começo ao fim, como “Poema de uma tradução” e “Letra de choro para Lúcio Rangel”. Pode pintar um impressionante painel do que foi a década de 1920-1930, relacionando o que de mais importante acontecia no mundo naquela época. E há ainda textos que estão bem mais próximos do ensaio do que da crônica, como o que faz sobre a juventude – tema sua predileção, também há crônicas sobre a velhice e a maturidade. Um estudo sobre a nova mulher. Outro sobre a morte de Kennedy. Uma proposta que divide a humanidade em três categorias: bandeirantes, funcionários e angustiados. A Ilíada, a Odisséia, escritas por um Homero que não poderia ser cego. A vida de Walt Whitman esquadrinhada. E a poesia, acima de tudo a poesia, o poeta que, mesmo abstêmio, costuma ser um anjo bêbado. Há homenagens, a Sérgio Porto, a Mario Quintana, a Fernando Pessoa, a Guimarães Rosa e a Maria José – mamãe. Seus exercícios também o são de autoconhecimento, um mergulho na sua própria alma, seus espaços vazios, suas contradições contundentes. O bar, claro, não podia faltar o bar, essa casa kafkiana, as histórias de botequim. Sobressaem-se a sua cultura, o seu raciocínio, sua sensibilidade social, há mesmo momentos em que quem parece estar falando é o seu amigo Hélio Pellegrino – tudo isso Paulo Mendes Campos fazia e experimentava no espaço da sua crônica.

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    Paulo Mendes Campos

    Nascido em Minas Gerais, era filho do médico e escritor Mário Mendes Campos e de D. Maria José de Lima Campos. Começou seus estudos na capital mineira, prosseguiu em Cachoeira do Campo, onde o padre professor de português lhe vaticinou: "Você ainda será escritor", e terminou em São João del-Rei. Começou os estudos de Odontologia, Veterinária e Direito, não chegando a completá-los. Seu sonho de ser aviador também não se concretizou. Diploma mesmo, ele gostava de brincar, só teve o de datilógrafo. Muito moço ainda, ingressou na vida literária, como integrante da geração mineira de 1945, a que pertencia Fernando Sabino e pertenceram os já falecidos Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, João Ettiene Filho, Carlos Castello Branco e Murilo Rubião. Em Belo Horizonte, dirigiu o suplemento

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    Minas Gerais, Brasil

    Paulo Mendes Campos