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    Antologia do Teatro de Gil Vicente - Organizada por Cleonice Berardinelli

    Gil Vicente

    Nova Fronteira
    1984
    444 páginas
    14h 48m
    ISBN-13: 9912547863214
    Português
    5
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    Cleonice Berardinelli reuniu nesta Antologia do teatro de Gil Vicente uma amostragem variada da obra fecunda do fundador do teatro português que pode ser dividida em três grupos principais: as de enredo religioso, as tragicomédias e as comédias e farsas de assunto popular. O teatro de Gil Vicente é fonte preciosa para o estudo da linguagem, dos costumes e da vida social de Portugal em princípios do século XVI, porque deles traça um quadro preciso, em que estão presentes todas as camadas e todos os aspectos da sociedade de seu tempo.

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    JOSUÉ EBENÉZER DE SOUSA SOARES02/03/2026Resenhou um livro

    UMA VOLTA NO TEMPO

    Em “Antologia do Teatro de Gil Vicente” – reunida por Cleonice Berardinelli e publicada pela Nova Fronteira/Pró-Memória em parceria com o Instituto Nacional do Livro (3ª Ed. – 1984) – experimentei uma verdadeira viagem no tempo, nâo só por conta do teatro de Gil Vicente situar-se no início do século XVI, mas, acima de tudo, pela iniciativa da historiadora de manter o Português original (com alguma “modernização da grafia, procurando não trair a pronúncia da época” – p.14), o que foi-me um desafio acima de qualquer suspeita. Não é à toa que a minha conta no Skoob (sítio de leitores de livros que recomendo) informar que sou apenas o décimo primeiro leitor da obra, ou seja, fazem-me companhia nessa aventura apenas dez heróis da resistência. Não é uma obra para qualquer leitor. Confesso que percorri cada página do livro como um alpinista que olhava para o tamanho da montanha à frente e não via a hora de chegar ao topo. Cheguei. Não quer dizer que porque eu tenha chegado ao fim desse desafio, que tenha sido fácil. Longe disso. Ler algo que está em português arcaico, composto em versos e recheado de notas de rodapé impossíveis de serem descartadas, além de estar cheio de expressões em latim e espanhol e com uma temática medieval, religiosa e popular que foge ao que se está acostumado é tarefa por demais hercúlia. Daí a minha convicção de que não seja tarefa para muitos. A obra é acompanhada de uma introdução em que a autora ou compiladora explica não só o conteúdo, mas a metodologia que seguiu para reunir o material de Gil Vicente. Trata-se de uma antogogia do autor e restrita ao teatro. Embora pertençam ao mesmo século, destaque-se que o dramaturgo e sua obra são anteriores à obra e à pessoa de Shakespeare. De todo o teatro reúnido por Berardinelli, não tinha conhecimento, senão, do “Auto da Barca do Inferno” (1517), peça central da sua Trilogia das Barcas e obra-prima do teatro vicentino. A peça é uma sátira social que condena vícios da sociedade, usando o riso e o julgamento de almas pelo Diabo e pelo Anjo. Este é o texto mais famoso do autor e, talvez, explique meu prévio conhecimento do mesmo sem nunca tê-lo lido. Mas a obra de Gil Vicente é ampla. A antologista reúne em um só volume: “Auto da Fé”, “Auto da Barca do Purgatório”, “Auto da Alma”, “Auto da Feira”, “Farsa chamada Auto da Índia”, dentre outros. Lembremos que “auto” refere-se a uma peça teatral de curta duração, de origem medieval, frequentemente com temática religiosa, moralizante ou satírica. É um gênero dramático popular em Portugal durante o final da Idade Média e início do Renascimento (século XVI). Feitas essas considerações, devo informar que o objetivo dessa resenha é apresentar as minhas impressões sobre a obra lida. Não tenho escopo para um estudo aprofundado, porém, quero registrar os apontamentos que fiz enquanto a lia. São impressões pessoais que o leitor poderá discordar ou não e está tudo bem. Ler comentários de outros autores sobre a obra é repetir ideias. Não é meu propósito. Considere o que será abordado daqui por diante, como impressões pessoais do impacto da leitura dessa Antologia. Devo confessar que li um quarto da obra (ela possui 444 páginas) sem qualquer pretensão de fazer apontamentos. Envolvi-me na leitura e a fiz procurando desvendar o mistério de ler uma obra do início do século XVI. Fiquei absorvido. Só a partir daí que comecei a fazer algumas anotações no livro e sublinhar palavras e expressões que considerei interessantes. Portanto, farei em primeiro lugar umas considerações mais genéricas dessa primeira parte que li e da obra como um todo. Sobre a estrutura da narrativa. A obra é, toda ela, escrita em versos. Mas não é poesia; é teatro. O uso dessa estrutura remonta aos clássicos gregos e latinos – as famosas epopeias – em que a história era registrada em forma de versos. A prosa só veio a existir posteriormente, na Europa, a partir do século X, e é por isso que Aristóteles, em sua famosa “Poética”, trata da literatura de sua época e não necessariamente de poesia, estabelecendo vários conceitos que perduram até hoje como a consagrada “estrutura de três atos”. Berardinelli assim se refere sobre a questão: “Em todo o seu teatro, Gil Vicente mantêm-se fiel às formas medievais, utilizando metros e estrofes que se encontram no Cancioneiro Geral […]” (p. 13). Sobre o humor e a sátira. É sabido que a sátira é forte em Gil Vicente. Ele utiliza-se do recurso para fazer crítica social e religiosa. Todavia, não se pode ver a obra vicentina como uma obra iconoclasta. Ele condena o comportamento de certas figuras dos altos escalões do poder e da religião, mas não condena necessariamente as instituições que elas representam. É de se supor que os autos foram compostos por encomenda dos monarcas desse período, pois eles possuem como epígrafe, ano e governante para os quais (e diante dos quais) foram apresentados pela primeira vez. Fiquei curioso sobre se algum monarca ou prelado se sentiu em algum momento ofendido com as sátiras vicentinas e fui pesquisar. Embora ele tenha sido protegido pelos monarcas D. Manuel I e D. João III e pela rainha Dona Leonor de Lencastre durante 34 anos, a sua sátira mordaz incomodou prelados e nobres, resultando em censura posterior da sua obra. Descobri que com a instauração da Santa Inquisição em Portugal, em 1536 (ano da provável morte do dramaturgo), a censura abateu-se sobre a sua obra. Três anos depois, em 1539, o cardeal-infante D. Henrique ordenou a proibição de algumas peças. Sobre o conteúdo religioso dos autos. Enquanto lia a antologia preparada por Cleonice, ficava a me perguntar: seria este tipo de conteúdo que eu gostaria de encontrar num teatro? Com certeza que não. No entanto, concluí que não podemos ser anacrônicos na avaliação da obra vicentina. À sua época, conteúdo religioso e voltado para a nobreza – especialmente com críticas aos poderosos – era o que motivava a população. O teatro de Gil Vicente, ao que tudo indica, era humanista e popular. Ele possui forte ênfase no cotidiano e está à altura da compreensão do povo. O Latim e o Espanhol (castelhano), que estão presentes às mancheias, eram comuns na Portugal da época. Vivia-se a religião de forma plena. A autoridade religiosa do catolicismo romano era quase uma força política e em alguns contextos mais forte até. Logo, estava tudo em conformidade com os costumes da época. O que não impede que o leitor contemporâneo sinta esse distanciamento cultural e geográfico do que está sendo apresentado nos autos. Vamos prosseguir. Quero entrar em alguns detalhes. Farei alguns destaques de elementos textuais que chamaram a minha atenção. 1o) A forma contraída do famoso palavrão: “fideputa” (pp. 101, 112, 279). Já havia aparecido outras vezes, mas só a partir de agora que comecei a fazer os meus apontamentos. Não são só coisas boas que se eternizam. Não sabia que esse palavrão era mais velho do que minha terra natal. 2o) A aparição no “Auto da Barca do Purgatório” (1518) do nome do nosso país. Isso demonstra que a descoberta do Brasil não só era do conhecimento do dramaturgo, mas, de certa forma, causava espécie para a personagem Maria Gil, pois ela reproduz a seguinte fala: “Ora assi me salve Deus e me livre do Brasil [...]” (p. 103), o que pode ser também – já que a Descoberta tinha sido recente – uma referência ao tipo de gente que Portugal estava enviando para povoar e colonizar o Brasil: os degredados de toda espécie. Nova citação do país ocorre no verso 483 do “Auto dos Físicos” (p. 363). 3o) Surpreendi-me com a expressão “dor de cotovelo” (p. 108) e quis logo saber se tinha o mesmo sentido como é usada no Brasil contemporâneo. Descobri que o significado em Gil Vicente é literal ou conotativo de dor física/esforço no contexto de prestação de contas dos pecados. As obras de Gil Vicente usam linguagem medieval/humanista, onde a "dor" muitas vezes era uma metáfora para o sofrimento físico ou o peso dos pecados terrenos que o indivíduo leva ao purgar, diferente da metáfora emocional moderna. No Brasil, "dor de cotovelo" é uma expressão popular que significa sentir inveja, ciúme ou despeito pelas conquistas ou felicidade alheia. Também é amplamente usada para descrever a tristeza, o ressentimento e a melancolia causados por uma decepção amorosa ou término de relacionamento. Portanto, o uso da expressão evoluiu, passando de um sentido mais literal ou de dor punitiva para a conotação de inveja/ciúme na linguagem popular moderna. .-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.- Faço uma pausa aqui para salientar que a tentação pelo abandono da leitura é grande. Defendo a tese – também de outros estudiosos – de que ninguém é obrigado a permanecer lendo um livro que não esteja gostando. Cada qual faz o que quiser com o seu tempo; o que não significa que um livro seja bom ou ruim por conta disso, pois os valores para definir a qualidade de uma obra são maiores que o somatório dos gostos pessoais. Há que haver uma motivação maior para dedicar-se a uma obra que aparentemente esteja sendo de difícil digestão. No caso em tela, eu possuía três motivações para a permanência do livro aberto diante de mim: o autor, que ainda não havia lido; a obra, que ainda não conhecia; a grafia do idioma, o Português em expressões mais arcaicas. Todavia, concluo que a dificuldade da leitura é ampliada por quatro fatores: a) O Português arcaico, com grafia antiga que nem sempre é decifrável; b) Incidência grande de palavras em Latim e Castelhano; c) Incidência constante de palavras e expressões de época que não possuem significado ou sentido para nossos dias e que exigem a busca de compreensão imediata, seja na notas de rodapé ou fora da obra; d) A construção da narrativa por meio de versos e estrofes, coisa a que não estamos acostumados em nossos dias. Perceba-se que é comum encontrarmos em situações como essa, casos em que o que é dificuldade para uns é motivação para outros. Voltemos aos nossos destaques da leitura. .-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.- 4o) Quando o autor, no “Breve Sumário da História de Deus”, introduz como personagens estes três: Lucifer, Belial e Satanás (p. 156), tem-se a impressão – diferentemente de nossos dias – que se tratam de três personas, o que conota uma concepção diferenciada, talvez hierarquizada, da Doutrina de Satanás à época. Essa pode não ser a visão católica do tema, mas tão somente uma abordagem do autor. Segundo a forma mais comumente aceita hoje, os três nomes fazem referência à mesma pessoa. Na concepção de Gil Vicente, Lucifer é “o maioral do inferno”; Belial é “meirinho de sua corte”; Satanás é “fidalgo de seu conselho” (loc. Cit.). No transcurso da narrativa, conclui-se que o dramaturgo está utilizando-se de “licença poética” para desenvolver personagens e enredo, sem quaisquer outros compromissos com a Teologia. 5o) Na “Farsa Chamada Auto da Índia”, o autor introduz um personagem denominado Castelhano (p. 233). Toda a participação desse personagem no Auto é feita na língua espanhola (castelhano). Quando me vi tendo que ler trechos longos, estrofes inteiras, em espanhol, imaginei como seria um teatro lotado com o povo precisando transitar entre o Português, o Latim e, agora, o Castelhano. Concluí que se tratava da Corte e da nobreza, e que já estariam acostumados com essas línguas. Ver, também, página 279, na abertura de “Quem tem Farelos?” com Apariço e Ordonho. 6o) No “Auto do Velho da Horta” aparece a personagem Branca Gil (p. 253). Não pude deixar de fazer a ilação imediata: teria Gilberto Gil se inspirado nessa personagem vicentina para colocar o nome de sua filha de Preta Gil? Por óbvio que Preta Gil é um nome artístico, mas não deixa de ser o nome civil, pois é uma abreviação de seu nome de registro: Preta Maria Gadelha Gil Moreira. Embora "Preta" não fosse considerado um nome comum na época de seu nascimento (1974), seu pai, Gilberto Gil, insistiu no registro para celebrar a identidade negra, tornando-o seu nome próprio. Segundo a Billboard Brasil, foi um ato de resistência e afirmação da família contra o racismo. Alguma família brasileira adotaria o nome da personagem de Gil Vicente para uma filha? Ressalte-se que não é uma personagem de reputação ilibada: trata-se de uma alcoviteira (p. 266). 7o) Ainda no “Auto do Velho da Horta” surge a expressão “matar os de qualquer idade” (p. 270), que em princípio nos assusta. Porém, Berardinelli esclarece o termo “matar”: trata-se de “emprego hiperbólico (comum na dialética amorosa da época) do verbo, com o sentido de fazer sofrer intensamente”. Não é diferente de como usamos o verbo ainda hoje: “matar de inveja”, “morrer de amor”, “eu te mato”, dentre outras. Outras expressões ainda em voga em nossos dias são: “pata chueca” e “tange viola” (p. 284). Uma expressão que parece datada, mas que é muito interessante e reforça o sentido emocional do verbo “matar”, já mencionado, é: “Estou coa candea na mão”, que significa “estou morrendo [de amor]” (p. 286). 8º) Surpreendi-me com a expressão “Oh, coitado!” (p. 275). Equivalente ao bordão “Ô… coitado!”, muito utilizado em programas de humor dos anos 1980, em especial pela personagem Filomena, mais conhecida como Filó e interpretada pela humorista Gorete Milagres. A gente vai vendo como certas palavras e expressões resistem ao tempo. 9º) Um exemplo da ironia vicentina está bem vívido na seguinte estrofe de “Quem tem Farelos?”: “Pentear e jejuar, / todo dia sem comer, / cantar e sempre tanger, / sospirar e bocijar: / sempre anda falando só, / faz das trovas tão frias, / tão sem graça, tão vazias, / que é cousa pera haver dó,” (p. 280). Sente-se a musicalidade introduzida pela rima e pela métrica nos versos. 10o) Novamente surpreso, agora com a aparição da palavra “brasonar” (p. 281). Depois de meu pai – que me ensinou no susto essa palavra – é a primeira vez que a vejo escrita em qualquer leitura que tenha feito, de texto que não seja meu (rsrsrsrs). 11o) Talvez por conta da necessidade de rimar, mas, ao que me parece, mais por ser um costume da época, encontramos várias frases com o pronome invertido em sua posição na frase, comparado ao que praticamos hoje. Exemplos: “nem ele tem que lhe eu dê.” (p. 281); “Fazei o que vos eu digo,” (p.353); “Hou males, quem me vos deu” (p. 375). A questão tem tanto a ver com a rima, que como visto no segundo exemplo, três versos após (verso 258), aparece o pronome na posição correta: “atentais no que vos digo?”. 12o) Um exemplo de expressão incompreensível – para nós simples mortais brasileiros do século XXI, se não fora a cooperação da nota de rodapé – é este: “e chanta nele bocado”, que significa “e ferra nele uma dentada” (p. 281). Outro exemplo é: a palavra “desdichado”, que significa “desgraçado” (p. 282). 13o) Ao mencionar, pela boca de Aires: “Vós tendes-me em dous ceitis”, pode-se, num primeiro momento, supor que Gil Vicente estivesse familiarizado com essa terminologia bíblica (p. 290). No entanto, “ceitis”, plural de “ceitil”, diz respeito a uma antiga moeda portuguesa e por isso aparece em algumas traduções da Bíblia em língua portuguesa (ex.: Almeida Revista e Corrigida). Aparece em Lucas 12.6 (ARC): "Não se vendem cinco passarinhos por dois ceitis? E nenhum deles está esquecido diante de Deus". O ceitil era a moeda portuguesa de menor valor na época da tradução de Almeida. Na Bíblia, o uso da palavra representa algo de valor insignificante ou muito pequeno. 14o) Gil Vicente usa o recurso das onomatopeias para reforçar suas ideias e incentivar a continuação da leitura: “Ãe, ãe, ãe, ãe!”; “Meau. Meau!” (p. 291); “Cacaracá! – cacaracá!” (p. 293). 15o) É notório o uso de rimas, a cadência, a redondilha maior: “Renego deste lavrar / e do primeiro que o usou! / Ao diabo que o eu dou, / que tão mau é d’aturar! / Ó Jesu! Que enfadamento, / e que raiva, e que tormento, / que cegueira, e que canseira! / Eu hei de buscar maneira / d’algum outro aviamento.” (p. 304). Percebe-se, também, a ironia, a crítica social, mas ainda assim o meu esforço é enorme para tentar entender a satisfação, o entretenimento ou mesmo a cultura que os frequentadores dos teatros de Lisboa e outras cidades achavam nestes autos. Ressalto que a dificuldade é minha, raciocinando com a cabeça do homem contemporâneo. O teatro de Gil Vicente é muito importante para entender a cultura e os costumes da época. É um teatro popular e está carregado de informações acerca da vida cotidiana de então. Sinta a musicalidade nas métricas e nas rimas dessa estrofe: “Antes o darei ao diabo / que lavrar nem mais pontada. Já tenho a vida cansada / de jazer sempre dum cabo. / Todas folgam, e eu não; / todas vêm e todas vão / onde querem, senão eu. / Hui! que pecado é o meu, / ou que dor de coração?” (p. 304). 16o) No “Auto de Inês Pereira” (1523), o escudeiro Brás da Mata gaba-se de ser um "bom jugador de bola" (p. 326) para impressionar Inês. Fiquei curioso em descobrir qual semelhança havia entre esse jogo e o futebol, bastante conhecido e praticado pelos brasileiros. Havia uma grande chance de não ser o futebol (football) como conhecido hoje, visto que o mesmo é uma invenção inglesa (1863), unificando jogos praticados em escolas e universidades, embora civilizações antigas como a China, a Grécia e povos mesoamericanos já jogassem versões com bola. Tudo indica que o escudeiro queria impressionar Inês, destacando habilidades típicas da nobreza e pequena nobreza da época e que o que ele pretendia demonstrar se referisse a um simples jogo da bola ou jogo do empuxo/empuxo de bola (não um esporte coletivo), um precursor dos esportes modernos que envolvia lançar, bater ou rolar uma bola (frequentemente de couro ou madeira) com a mão ou com instrumentos, muito comum nas cortes e ambientes aristocráticos. 17o) No “Auto dos Físicos” aparece a expressão “U’a alface esparregada” (p. 352). Achei curiosa a expressão por três motivos: primeiro, a contração do artigo indefinido uma (o livro por inteiro é tomado de contrações semelhantes); segundo, a presença do substantivo “alface”, o indica quão longeva é essa verdura; o adjetivo “esparregada”, que me fez querer saber o que significava, a saber: guisada, refogada. Não gosto de alface esparregada; prefiro in natura, mesmo. Hahaha! 18o) Outro auto de Gil Vicente é a “Comédia da Rubena” (p. 375). A comédia é constituída por ecos em que a última palavra de uma estrofe fornece a deixa para a primeira palavra da estrofe seguinte rimar com ela. Não é à toa que há um personagem por nome Eco e o texto seja chamado de “comédia”. Há um subgênero da Poesia que usa o mesmo artifício, se chama sextina, e é uma forma poética rigorosa composta por 39 versos: seis estrofes de seis versos (sextetos) e um terceto final (envoi). A característica principal é a repetição das seis palavras finais da primeira estrofe em uma ordem espiral (retrogradação cruzada) nas cinco estrofes seguintes, sem rimas obrigatórias, finalizando com o uso de todas elas no terceto. 19o) Como já temos afirmado, a presença do idioma espanhol em Gil Vicente é grande. Em alguns autos são inserções pontuais, em outros, se alterna com o português e, no caso do auto “Frágua d’Amor” (p. 383), todos os versos e, consequentemente, todas as estrofes, aparecem em espanhol. 20o) O livro agrega em seu fim, uma “Carta que Gil Vicente mandou [....] a el-Rei Dom João [....]” (1531). Na carta, o autor apresenta os seus argumentos sobre a causa de um terremoto ocorrido em Portugal à época, e que “os frades diziam que o terremoto fora enviado por Deus [....]” (p. 403). Em seus argumentos ele cita Sodoma, a morte dos egípcios no Mar Vermelho, a destruição dos adoradores do bezerro de ouro, a destruição de Jerusalém (p. 405), demonstrando ser conhecedor de passagens das Escrituras Sagradas, o que é questionado por Cleonice Berardinelli, que assim se pronuncia em nota de rodapé na página: “uma argumentação que pode não ser inteiramente válida, mas procura fundamentar-se seriamente”. Chegamos, portanto, ao fim de nossos destaques, reconhecendo que são apenas impressões pessoais, surgidas no calor da leitura e que não representam, necessariamente, a opinião dos especialistas em Gil Vicente. São impressões de um leitor leigo que detectou palavras, expressões e citações, que achou merecedores de um comentário de sua parte. Ao fim, Berardinelli fornece um bem elaborado glossário de palavras e expressões mais difíceis, que ajuda no entendimento do texto vicentino. Somadas as centenas de notas de rodapé, à uma lista de obras citadas e uma notícia biobibliográfica sobre sua pessoa, o leitor possui elementos suficientes para alcançar o espírito medieval vicentino e conhecer a antologista. Por certo há um distanciamento cultural não só da forma de humor, mas também do que era atraente, por conta das distâncias do tempo e do espaço. Quinhentos anos e um Oceano separam o texto de Gil Vicente de nossa atual realidade brasileira. Mesmo assim, recomendo a leitura da obra. Sei que é tarefa difícil – como muitas outras e cito “A Montanha Mágica” de Thomas Mann –, mas é recompensadora.

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    Gil Vicente

    Gil Vicente (1465? — 1536?) é geralmente considerado o primeiro grande dramaturgo português, além de poeta de renome. Há quem o identifique com o ourives, autor da Custódia de Belém, mestre da balança, e com o mestre de Retórica do rei Dom Manuel. Enquanto homem de teatro, parece ter também desempenhado as tarefas de músico, actor e encenador. É frequentemente considerado, de uma forma geral, o pai do teatro português, ou mesmo do teatro ibérico já que também escreveu em castelhano - partilhando a paternidade da dramaturgia espanhola com Juan del Encina. A obra vicentina é tida como reflexo da mudança dos tempos e da passagem da Idade Média para o Renascimento, fazendo-se o balanço de uma época onde as hierarquias e a ordem social eram regidas por regras inflexíveis, para uma nova sociedade onde se começa a subverter a ordem instituída, ao questioná-la. Foi, o principal representante da literatura renascentista portuguesa, anterior a Camões, incorporando elementos populares na sua escrita que influenciou, por sua vez, a cultura popular portuguesa.

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