A primeira coisa que me chamou a atenção nesse livro, claro, foi o título. Se não me falha a memória, ele veio em alguma lista de indicações de livros de fantasia com personagens femininas marcantes e na hora em que bati o olho, já me interessei. A segunda coisa que me chamou a atenção foi a avaliação de uma mãe na Amazon, dizendo que as histórias do livro eram ‘inapropriadas’ por causa das ‘imagens perturbadoras’ e ‘problemas de abandono’.
Obviamente essa mãe também não gosta muito de contos de fadas clássicos e provavelmente vetou a leitura de <i>Barba-Azul</i> e <i>João e Maria</i> na casa dela. E, embora eu entenda certas questões de gatilhos, os argumentos dessa mãe me pareceram muito pouco convincentes. Ou melhor, extremamente convincentes no sentido de que EU PRECISAVA LER O LIVRO.
E no final das contas, <i>Not One Damsel in Distress</i> foi, simplesmente, um deleite. A edição é muito bonita, capa dura e toda ilustrada, e as histórias, adaptadas de contos do folclore de várias partes do mundo, mantém o frescor de suas versões originais. Eu conhecia algumas delas, como Atalanta, a caçadora e Bradamante, mas a maioria delas me foram novidades.
A única coisa de que não gostei é que o livro não foi traduzido para o português e não posso sair estocando dele para dar de presente para minhas sobrinhas. Porque, ao contrário da mãe preocupada que prefere cercar a filha de muros, eu acredito que essas imagens perturbadoras - homens cruéis, mulheres vistas como cidadãs de segunda classe pela sociedade que as cercam, morte e violência - são necessárias (não a níveis de <i>Decamerão</i> ou Marquês de Sade, obviamente). E são necessárias não apenas para que as crianças se preparem para a realidade que eventualmente terão de enfrentar, mas também porque elas nos revelam que há esperança. Que as coisas podem mudar - que nós podemos mudar nossos destinos.