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    Mulheres, raça e classe -

    Angela Davis

    Boitempo
    2016
    248 páginas
    8h 16m
    ISBN-13: 9788575595039
    Português Brasileiro
    4.7
    5401 avaliações
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    Mulheres, raça e classe, de Angela Davis, é uma obra fundamental para se entender as nuances das opressões. Começar o livro tratando da escravidão e de seus efeitos, da forma pela qual a mulher negra foi desumanizada, nos dá a dimensão da impossibilidade de se pensar um projeto de nação que desconsidere a centralidade da questão racial, já que as sociedades escravocratas foram fundadas no racismo. Além disso, a autora mostra a necessidade da não hierarquização das opressões, ou seja, o quanto é preciso considerar a intersecção de raça, classe e gênero para possibilitar um novo modelo de sociedade. Davis apresenta o debate sobre o abolicionismo penal como imprescindível para o enfrentamento do racismo institucional. Denuncia o encarceramento em massa da população negra como mecanismo de controle e dominação. Dessa forma, questiona a ideia de que a mera adesão a uma lógica punitivista traria soluções efetivas para o combate à violência, considerando-se que o sujeito negro foi aquele construído como violento e perigoso, inclusive a mulher negra, cada vez mais encarcerada. Analisar essa problemática tendo como base a questão de raça e classe permite a Davis fazer uma análise profunda e refinada do modo pelo qual essas opressões estruturam a sociedade. Neste livro, tal discussão é sinalizada pela autora por meio de sua abordagem do sistema de contratação de pessoas encarceradas nos Estados Unidos, que já durante o período escravocrata permitia às autoridades ceder homens e mulheres negros presos para o trabalho, em uma relação direta entre escravidão e encarceramento como forma de controle social. Nesse sentido, mesmo sendo marxista, Davis é uma grande crítica da esquerda ortodoxa que defende a primazia da questão de classe sobre as outras opressões. Em As mulheres negras na construção de uma nova utopia, a autora destaca a importância de refletir sobre de que maneira as opressões se combinam e entrecruzam: As organizações de esquerda têm argumentado dentro de uma visão marxista e ortodoxa que a classe é a coisa mais importante. Claro que classe é importante. É preciso compreender que classe informa a raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero informa a classe. Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma forma que gênero é a maneira como a raça é vivida. A gente precisa refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre as outras. A recusa a um olhar ortodoxo mantém Davis atenta às questões contemporâneas, que abarcam desde a cantora Beyoncé à crise de representatividade. A discussão feita por ela sobre representação foge de dicotomias estéreis e nos auxilia numa nova compreensão. Acredita que representação é importante, sobretudo no que diz respeito à população negra, ainda majoritariamente fora de espaços de poder. No entanto, tal importância não pode significar a incompreensão de seus limites. Para além de simplesmente ocupar espaços, é necessário um real comprometimento em romper com lógicas opressoras. Nesse sentido, acompanhar suas entrevistas é fundamental. Davis traz as inquietações necessárias para que o conformismo não nos derrote. Pensa as diferenças como fagulhas criativas que podem nos permitir interligar nossas lutas e nos coloca o desafio de conceber ações capazes de desatrelar valores democráticos de valores capitalistas. Essa é sua grande utopia. Nessa construção, para ela, cabe às mulheres negras um papel essencial, por se tratar do grupo que, sendo fundamentalmente o mais atingido pelas consequências de uma sociedade capitalista, foi obrigado a compreender, para além de suas opressões, a opressão de outros grupos.

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    Maria Fernanda21/02/2017Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    A TERRA DOS LIVRES E O LAR DOS BRAVOS

    Eu não me sinto capaz de resenhar esse livro... Não acho que consigo fazer jus, em alguns parágrafos, a tudo o que Angela Davis me ensinou em quase 300 páginas. E ainda assim, cá estou eu, porque essa bíblia precisa ser exaltada e enaltecida. Muita gente tem a ideia quase fixa de que livros de não-ficção são chatos e arrastados, e, por isso, passam longe quando veem um. Quanto a isso, confiem em mim quando digo que a leitura de "Mulheres, raça e classe" é bem diferente. A sensação é de estar assistindo a uma aula de História daquele professor legalzão que deixa os olhos dos alunos brilhando, tamanha desenvoltura carrega a prosa de Angela Davis. "Quero ser igualada ao negro. Enquanto ele não tiver seus direitos, nós não teremos os nossos." Angelina Grimké, branca, numa reunião feminista confederada, em 1863. Com fatos, estatísticas, relatos e citações embasadas numa bibliografia de peso, somos levados a enxergar a real situação dos afro-americanos desde a luta pela abolição da escravatura até a década de 1970. A autora disseca o histórico podre do racismo nos Estados Unidos, indo ao cerne da questão por meio de discussões sobre feminismo, sufrágio, Guerra Civil, encarceramento em massa, servidão tautológica, paternalismo, sexismo, o mito do estuprador negro e da negra promíscua. E mais, muito mais. "Mulheres, raça e classe" é o tipo de livro para quem quer estudar o racismo e a supremacia branca de uma maneira que não é abordada na escola. (Nem em qualquer ambiente dominado pela "direita", já que agora debater direitos humanos virou "doutrinação" e "pauta da esquerda".) E é também o tipo de livro para quem acredita em racismo reverso ou acha que "os negros sofriam racismo no passado, isso já acabou". Ata.

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    Angela Yvonne Davis

    Filósofa socialista estadunidense, alcançou notoriedade mundial na década de 1970 como integrante do CPUSA, próxima dos Panteras Negras e por ser personagem dum dos mais polêmicos julgamentos criminais da história dos Estados Unidos.

    28 Livros
    432 Seguidores
    Alabama, Estados Unidos

    Angela Yvonne Davis