"Você vai ler aos saltos, o coração disparado, como quem sobe uma escada de quatro em quatro degraus sem saber ao certo onde está ou do que foge. A história começa com um homem desmemoriado que vagueia sem reconhecer aquela que deve ser a sua própria cidade. Ele tampouco entende o porquê de permitir-se o ingresso numa trama torpe, repleta de pequenos e grandes desconfortos".
MARCADOS -
Sergio Napp
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Ver maisMARCADOS POR UM JOGO DE CIRCUNSTÂNCIAS
A Editora Penalux acaba de editar o romance “Marcados”, obra póstuma de Sergio Napp que se constitui em uma intensa jornada nos interstícios da mente humana. Imagem e reflexo trágico e angustiado dos dias atuais de desumanização sem precedentes. Sergio Napp(*) era um autor experiente. Profundo conhecedor da arte literária e ciente de que o gênero romance, por se ocupar da recriação do mundo pode configurar em boa medida, os parâmetros desse 'jogo de circunstâncias' a que estamos submetidos e que chamamos vida. Jogo que atualmente se passa em uma sociedade em dissolução, em decadência. Nesse livro de prospecção psicológica ele nos leva a fundo em uma sondagem interior apreendendo e fixando o fluxo vital do tempo, como duração existente fora dos limites do relógio e do encadeamento sucessivo dos fatos, Os capítulos não têm títulos. Ou melhor, são datações seguidas dos nomes dos personagens principais. (Daniel, Joffre e Fábio). Esta a única referência temporal da história. O enredo cria uma atmosfera suficientemente forte para manter no leitor sempre a mesma curiosidade aflita: um homem aparentemente desmemoriado se dá conta que está em um teatro em meio à cerimônia de entrega de um prêmio a uma atriz. Lembranças se embaralham e se esfumaçam. A memória não alcança reconstituir todos os lances que envolvem acontecimentos sinistros: uma modelo assassinada / um grande amor que se perde pela doença / um assassino a perseguir uma personagem / um político inescrupuloso ao extremo / o sexo comprado a dólares. Eis a trama do romance, o foco central. Lembrar o que afinal aconteceu. À volta do protagonista vão se adensando todos esses dramas interconjugados. Dir-se-ia estarmos diante de um thriller psicológico, mas não é bem isto. O livro vai além. Aos poucos instala-se um aparente caos narrativo ao propor-se um mosaico de vozes, um tecido variado de circunstâncias que a memória involuntária de cada personagem surpreende e trança ao sabor do subconsciente. Disponibilidades psicológicas que descortinam os labirintos mentais cronometrados pelas sensações, ideias, pensamentos e vivências. Sempre avançando em ondas interiores: Daniel 06.01 “… se outrora tiveram um sentido, uma razão qualquer, perdeu-se no tempo e na memória. A rua é tão somente uma rua e, da mesma forma, a casa é uma casa e nada mais. Ou serei eu o indiferente, o que buscando desencontrou-se em seus caminhos e, agora, não traz em si nenhuma expectativa de retorno.” p. 15 Fábio 10.01 “… Aos sete anos o homem a quem eu chamava de pai me violentou. Bebia muito, mas porque estava desempregado. Não há forma de esquecer o horror daquela noite. Minha mãe havia saído para um serviço qualquer. Trabalhava mais do que podia, sustentando a todos nós. Naqueles tempos a sua falta me perturbava e não entendia o porquê de sua ausência,” pg. 53 Joffre 14.01 “Distribuiu alimentos, roupas e balas para as crianças. Deixei as minhas na lama. No primeiro caminhão que passou me escondi e, sem querer, dei na capital. Assaltei, roubei, dormi na rua, cheirei cola, tudo o que um animal faz para sobreviver.” pg. 95 A progressão da trama se dá em quadros justapostos e não encadeados numa fabulação que se constrói por acumulo de cenas mais ou menos desordenadas, até que os núcleos dramáticos interligam-se apertadamente, aos poucos, para finalmente ocorrer a montagem do quebra-cabeça: as peças vão se justapondo pela adequação de múltiplas e dinâmicas associações, que dão conta da dramática instabilidade de nosso sistema de valores, do mundo e da sociedade altamente globalizada, o dilema da necessidade premente de ter, vencer e ultrapassar os limites do humano, leva o indivíduo para a absurda violência perante si e os demais humanos ou ao ajuste às condições sub-humanas de sobrevivência. Esquecemos as relações familiares e sociais, estamos perdendo o senso de responsabilidade compartilhada no campo social e na vinculação das relações interpessoais que, quando ocorrem, têm sido cada vez mais nocivas na base da pura e simples exploração de uns contra outros. Marcas que ficam nos outros e que alteram suas vidas para o pior, sem percebermos o óbvio: a exploração, a miséria e a infelicidade causadas volta e recai sobre todos. É o delírio coletivo atual. Quem procura na leitura uma não-vida, o narcótico para os sentidos, ou porque não alcança enxergar, nem na vida, nem na literatura, suas dimensões ocultas e significativas, não se dê ao trabalho de abrir esse livro. Fiel registro de como esse jogo de circunstâncias que é a vida, pode para sempre nos marcar. (*) Sergio Napp (1939-2015) - Além de escritor e letrista, foi engenheiro, professor universitário de matemática e gestor cultural, três vezes diretor da Casa de Cultura Mario Quintana. Autor premiado e com 26 obras publicadas, escreveu um pouco de tudo: conto, crônica, poesia, romance e literatura infantojuvenil (três de seus textos infantis foram selecionados para a Feira Internacional do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha/Itália).
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