Escrever essa resenha é um desafio, porque qualquer palavra provavelmente não estará à altura de Os Santos de Colditz! Irreverente, provocativo, emocionante, envolvente, assustador... Uau. Perco o fôlego só de lembrar seu enredo e cenário. M. R. Terci foi além do que imaginava, levou-me direto para a II Guerra Mundial e me lançou para o interior de uma cela desoladora em um Oflag, ou seja, um campo nazista destinado a oficiais prisioneiros de guerra!
Com genialidade, no frio Castelo de Colditz, o autor nos apresenta vários protagonistas!
A princípio conhecemos o capitão-aviador Garcia e o cabo Franco, ambos brasileiros. Eles se conheceram no Oflag, pois não faziam parte da mesma companhia. É claro que se unem com o comum interesse de permanecerem vivos, mas a confiança entre ambos é tão instável quanto sua esperança de saírem de Colditz.
Garcia guarda um segredo, Franco também. Não dizem um ao outro o que sabem, porque soaria loucura. Não dizem porque as palavras seriam insuficientes. Mas as paredes de Colditz guardam segredos demais, elas sangram sussurros que fariam qualquer pessoa perder a sanidade.
Em Colditz, o que treme não são apenas os corpos pelo inverno rigoroso. A hierarquia nazista também não é das mais firmes. Difícil ser leal a algum valor quando se é leal ao mal. O inimigo nem sempre veste a farda dos Aliados, às vezes ele apenas ocupa um cargo que você cobiça.
O sargento Otto "Filho da Puta" Müller (como Garcia gentilmente o chama) é frio, impassível, calculista... Ele carrega no sangue o orgulho ariano, mas é capaz de esquecê-lo quando o assunto é poder. Não teme, não hesita. Colditz, sob as botas desse soldado, lhe parece o lugar mais adequado.
Se Otto é o exemplo de um cruel oficial nazista, o tenente Joseph Strauss nos faz repensar o estereótipo. Há quem compactuou com os ideais nazistas porque atendiam uma sede pessoal por justiça, por prosperidade, por dignidade... Hitler realmente conseguiu envolver incontáveis jovens alemães (desde a infância) em suas propostas, mas a face podre da guerra se revelou como uma consequência tardia para muitos deles. Se arrependimento fosse suficiente para mudar decisões do passado, se escolhas pudessem ser anuladas, a vida de Joseph teria sido diferente.
As paredes de Colditz não guardam apenas segredos. Elas também escondem sombras mais escuras do que podemos supor. Mas há quem pode ouvi-las, há um guerreiro cujo coração não se perdeu nas frivolidades dos espólios de guerra. Os olhos estreitos do sargento Akira, oficial do exército japonês (aliado nazista), veem além da alma humana.
Os Santos de Colditz apresenta duas faces do mal: a guerra e o sobrenatural. Prisioneiros e oficiais nazistas enfrentarão coisas que desafiam a lógica; criaturas com sede de morte. As paredes do Castelo de Colditz já não sangram sussurros. Elas gritam.
A narrativa do autor é prioritariamente em terceira pessoa, mas há momentos narrados em primeira. É incrível como nos sentimos próximos dos personagens! Eu odiei Otto "Filho da Puta" Müller por muitas páginas, mas (caramba!) preciso tirar o chapéu para a sua fibra. Ele realmente leva os prisioneiros ao limite, mas faz o mesmo consigo. Como não respeitar, ainda que eu não quisesse fazer isso, um cara assim?
Eu me identifiquei com Joseph. Quem nunca fez algo profundamente contrariado? Quem nunca se sentiu sem escolha? De um jeito digno, ele ainda faz o possível para sustentar seus valores. Infelizmente, em Colditz, isso não quer dizer muito.
Cada personagem d'Os Santos de Colditz é profundamente real. Carrega consigo algo admirável e execrável na mesma intensidade. O que mais gostei é o modo como o autor virou de cabeça para baixo todo o contexto, afinal, quem se importa com a guerra quando criaturas malignas estão matando aleatoriamente? Não há para onde fugir, não há como se esconder. É preciso enfrentar seus monstros, nem que os encontre no reflexo do espelho.
Mais uma vez, parabenizo o autor pela excelente obra! Como único alerta, destaco que há elementos compartilhados entre Os Santos de Colditz e Caídos, outro livro do autor. Não acho que o leitor sentirá dificuldade na interpretação d'Os Santos, mas seria interessante ter como complemento a noção dos mistérios de Caídos.
Considero Os Santos de Colditz digno de 5 estrelas! Mais uma vez, adiciono uma obra do Marcos Terci entre as minhas favoritas. Vale a pena ver "o outro lado" da II Guerra Mundial, enriquecido com cativantes personagens brasileiros e boas doses do gênero horror. Leitura mais do que recomendada!
Resenha publicada no blog My Queen Side: