Verdadeiramente terrível e inteiramente inusitado, Sob A Pele acompanha a trajetória de Isserley, uma caçadora incomum nas rodovias escocesas. Sua arma é seu Toyota vermelho, deslizando pelo asfalto, em busca de corpos masculinos perfeitos. Caroneiros incautos, musculosos e repletos de hormônios. Uma espécie de reflexo distorcido de si mesma: ela é uma mulher de compleição singular.
Sob A Pele
Michel Faber
Irssely é uma alienígena. Não nos é informado de onde veio nem como chegou à Terra, mas sabemos que ela era muito pobre em seu planeta e, por isso, aceitou o trabalho que lhe foi oferecido aqui. Esse trabalho consiste em sequestrar homens musculosos para que sirvam de alimento em seu planeta, uma iguaria caríssima, acessível apenas a poucos. Irssely é muito solitária. Ela tenta se contentar com os simples prazeres que nosso planeta pode oferecer, mas ao mesmo tempo há muito sofrimento em seus pensamentos ao lembrar do seu passado e, principalmente, pela transformação que precisou sofrer para viver entre os humanos: seu corpo alienígena foi mutilado para se parecer o mais próximo possível de uma mulher. O livro aborda temas sensíveis, como a forma com que tratamos os animais. Na perspectiva dos alienígenas, nós, humanos, somos apenas mais uma espécie a ser explorada. É até levemente cômico notar que eles consideram os animais terrestres mais próximos deles do que os próprios humanos. Esse trabalho não é algo que Irssely gosta de fazer, mas ela sabe que não tem opções: viver na propriedade miserável de seu planeta era muito pior. Aos poucos, a personagem vai se tornando cada vez mais complexa. Por um lado, cumpre seu papel no esquema de captura de homens, mas por outro, começa a questionar o sentido disso tudo. Ela observa a humanidade com um olhar estrangeiro, mas profundamente atento, percebendo nossas fragilidades, violências e contradições. O livro ganha força ao mostrar a transformação interna de Irssely. Gradualmente, ela desenvolve empatia pelos humanos que deveria apenas caçar. Esse processo a coloca em conflito com sua própria espécie e com o trabalho que aceitou para sobreviver. O dilema dela é doloroso: ser leal ao seu povo e à missão ou ceder a um sentimento novo de compaixão, mesmo sabendo que isso pode custar sua vida. Outro ponto relevante é o tema da identidade. Irssely foi obrigada a remodelar seu corpo para se parecer com uma mulher humana, mas nunca se sente totalmente pertencente a esse corpo. Há uma tensão constante entre quem ela é de verdade e a máscara que precisa usar. Esse aspecto torna a narrativa uma poderosa metáfora sobre alienação, desigualdade, exploração e até mesmo sobre gênero e corpo. A escrita de Michel Faber é crua, muitas vezes desconfortável, mas também poética. Ele não dá respostas fáceis: coloca o leitor diante de questões éticas e existenciais, como o que significa ser humano, o que é compaixão e até que ponto aceitamos a exploração de outros seres em nome do prazer ou da sobrevivência. No fim, Sob a Pele é muito mais do que uma ficção científica sobre alienígenas é uma reflexão profunda sobre humanidade, moralidade e empatia. A solidão de Irssely e sua busca por sentido acabam funcionando como um espelho para o leitor, que se vê forçado a repensar a forma como tratamos tanto os outros quanto a nós mesmos.
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