Umbral das Trevas -

    Alex Villechaize

    Alex Villechaize
    2016
    124 páginas
    4h 8m
    ISBN-10: B01IDOKMWA
    Português Brasileiro

    "Lá dentro da casa, tudo era silêncio, penumbra e poeira dos séculos e séculos. Cidão adentrou a sala de estar e parou, assustado. Lá estavam os pais de Filomena na mesma posição em que os havia visto da última vez, quarenta anos atrás. Sentados, imóveis, lado a lado, na poltrona em frente à TV desligada. Cidão aproximou-se devagar. Tocou o braço da Dona Juraci. Estava gelada. De repente, a cabeça dela caiu dos ombros e rolou pelo tapete. Seca e oca como uma cabaça. O corpo, também seco e oco, tombou para o lado, encostando-se no ombro de Seu Rodriguez. Ele, desacostumado com carinho, desabou para o lado, enquanto sua cabeça caía para trás em noventa graus. E, da boca aberta, palhas e penas começaram a se agitar. Um pardal pequeno surgiu dali. O passarinho se equilibrou nos lábios secos e mortos por alguns segundos e se jogou em vôo pela sala. Cidão tropeçou nos próprios pés, deu meia volta e saiu correndo pela porta por onde havia entrado."

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    Luciano Otaciano30/01/2025Resenhou um livro
    5 (Perfeito)

    Maravilhosamente perturbador!

    Para aqueles que se debruçam sobre as páginas deste blog, é sabido que nutro uma predileção especial pela leitura de contos. Este aqui tem leitura desafiante, UMBRAL DAS TREVAS reúne sete narrativas cuja classificação em um gênero literário específico se revela uma tarefa árdua. Em suas duzentas e vinte e quatro páginas, somos conduzidos por situações banais do cotidiano e eventos deveras improváveis, num amálgama de fantasia e horror. Contudo, nada é apresentado de maneira explícita. Os personagens habitam tramas que transcendem a mera aparência, e sempre há algo mais a ser desvelado nas sutilezas do texto. Como um admirador confesso das narrativas curtas, imergi nas profundezas de UMBRAL DAS TREVAS e, em breve, percebi a necessidade de desacelerar meu ritmo. O autor elegeu uma linguagem elaborada e intricada, que evocou em mim reminiscências da literatura acadêmica brasileira, convertendo a leitura da obra em um genuíno exercício de concentração. Apenas assim conseguimos apreender os significados subjacentes a cada uma das histórias. Essa escolha revela-se audaciosa em tempos nos quais a linguagem se apresenta veloz e as narrativas são de fácil digestão. Por outro lado, alguns contos, ao final da leitura, soaram completamente desprovidos de sentido (neste ponto, questionei-me se realmente careciam de lógica ou se sua complexidade superava minha capacidade interpretativa). Destaco, em especial, o conto que empresta nome à coletânea, UMBRAL DAS TREVAS. Em minha modesta opinião, esta se revela a narrativa mais bem elaborada e de impacto visual marcante. Isso mesmo, visual. Trata-se de uma daquelas histórias de caráter quase cinematográfico, nas quais não apenas lemos, mas nos sentimos transportados para o âmago da trama, visualizando nitidamente os eventos que se desenrolam. Os demais contos flutuam em uma oscilação de qualidade (algo comum em coletâneas), contudo, todos compartilham dessa linguagem densa que, a meu ver, pode configurar-se como o calcanhar de Aquiles da obra. UMBRAL DAS TREVAS é amplamente recomendado para os aficionados por uma literatura brasileira de viés mais tradicional, comprometida com frases meticulosamente elaboradas e reflexivamente construídas, destituídas da simplicidade e da rapidez que caracterizam os novos tempos. É um livro que pode surpreender precisamente por não se conformar a esse fluxo.

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