Em Do Bom Uso Erótico da Cólera, o psicanalista francês Gérard Pommier propõe uma leitura original e provocadora da cólera como força vital e estruturante do desejo. Distante de interpretações moralistas ou puramente negativas da raiva, Pommier a enxerga como um afeto com potência criativa, capaz de romper com bloqueios psíquicos e impulsionar transformações subjetivas. Partindo da clínica e sustentado pela tradição freudiana e lacaniana, ele mostra que a cólera, quando articulada ao erotismo, pode se tornar motor de fala, reinvenção e resistência ao sofrimento psíquico. A linguagem do autor é envolvente, por vezes poética, e convida o leitor a pensar o inconsciente fora dos moldes mais rígidos.
Ao longo da obra, Pommier analisa casos clínicos, referências literárias e acontecimentos contemporâneos para mostrar como a repressão da cólera pode produzir sintomas ou paralisias psíquicas, enquanto seu "bom uso" permite o acesso a um desejo mais autêntico. Ele destaca que a cólera, diferentemente do ódio destrutivo, pode se converter em energia de ligação e até mesmo em erotismo, quando mediada pela palavra e pela escuta analítica. O livro também se posiciona como crítica ao empobrecimento afetivo promovido por discursos normativos que patologizam os afetos intensos, propondo, em contraponto, uma ética do desejo viva e singular.
Mais do que uma defesa da raiva, o livro é uma reflexão sobre o lugar dos afetos na vida psíquica e na cultura. Pommier recusa leituras simplificadoras e oferece ao leitor uma visão rica e complexa das emoções humanas, especialmente daquelas consideradas "incômodas".