Dois amigos, Humberto e Murilo, realizam uma viagem de 1600 quilômetros para filmar um documentário acerca do trecho mineiro da Rio-Bahia. Desde Divisa Alegre (Bahia) até Além Paraíba (Rio de Janeiro), registram histórias narradas por andarilhos, prostitutas, caminhoneiros, professoras, crianças, donas de casa, trabalhadores rurais, lavadeiras e muitos outros personagens que vivem nas cidades às margens ou próximas da estrada. O romance Um chão de presas fáceis (selo Escrituras) é o resultado do trabalho de seleção e organização deste registro, realizado conforme os indicativos do roteiro e as informações fornecidas pelo protagonista, com o objetivo de encontrar um arranjo semelhante à proposta do filme inacabado. Projeto com o patrocínio do Programa Petrobras Cultural.
Um Chão de Presas Fáceis. Documentário
Fernando Fiorese
RESENHA DE: UM CHÃO DE PRESAS FÁCEIS – DOCUMENTÁRIO (ROMANCE) DE FERNANDO FIORESE
Documentário como se sabe, é um filme não-ficcional que se caracteriza pelo compromisso da exploração da realidade. Sustenta-se, via de regra, em acontecimentos reais. Mas disto, entretanto, não se deve deduzir que represente a realidade “tal como ela é”. Apresenta argumento quase sempre aberto, porque filma personagens reais, fatos e locações realistas, envolve o “acaso” e, em assim sendo, a câmara não exerce domínio total. Daí temos que o documentário é também resultado de um processo criativo - onde está presente a representação de uma determinada visão de mundo do autor -, marcado por várias etapas de seleção que são expostas no produto final após a montagem. O livro “Um chão de presas fáceis” do mineiro Fernando Fiorese (Editora Escrituras, São Paulo, 2015, 280p.), propõe-se enquanto romance, a empurrar e alargar horizontes. Na capa, após o título, deparamo-nos com a palavra “Documentário”. E, já na “NOTA DO AUTOR”, a guisa de prefácio, o texto se abre a explicar o argumento do documentário que o romance pretende simular. Basicamente este: dois amigos, Humberto e Murilo, realizam uma viagem de 1600 quilômetros para filmar um documentário acerca do trecho mineiro da rodovia Rio-Bahia- BR-116. Desde Divisa Alegre (fronteira com a Bahia) até Além Paraíba (divisa com o Estado do Rio), registram histórias narradas por andarilhos, prostitutas, caminhoneiros, professoras, crianças, comerciantes, donas de casa, trabalhadores rurais, lavadeiras e muitos outros personagens que vivem nas cidades às margens ou próximas da estrada. Antes e durante as filmagens reúnem farto material, incluindo cópias de textos extraídos de livros, folhas manuscritas, recortes de jornais e etc. Muito bem; todo este material que seria selecionado para compor o documentário, acaba indo parar às mãos do autor após um trágico acidente que interrompe as filmagens, e este, por sua vez, resolve dar vida a essa história através do livro. E é assim que a criatividade digna de nota e elogios de Fernando Fiorese, nos apresenta uma obra que, em visada macro, envolve três perspectivas que se entrelaçam aos pares. A dos Cineastas/Autor, Documentário/Romance e finalmente, Sociedade/leitor. Os textos apresentados, ou se quiserem as ações filmadas, tendem a escapar dos limites de um enquadramento linear, fazendo com que os registros se tornem incompletos e fragmentários (consequência direta da própria natureza do material que foi entregue ao escritor) num primeiro momento, para ir fazendo sentido na articulação ousada e bem sucedida entre elementos tão dispersos. Daí a impressão que causa no leitor de que há realmente uma câmara a filmar. Recurso que substitui o narrador quando transpõe a narrativa para a terceira pessoa, através de personagens fortes que vivem situações de risco, conflituosas ou que enfrentam obstáculos. É como se soluciona o aparente conflito dos gêneros documentário X romance? De fato, a especificidade romanesca é do domínio interior, daquilo que não pode ser apreendido pela câmara. Noutros termos, o romance permite-se invadir o plano da consciência das personagens e analisar-lhes a mola psicológica das ações: a palavra alcança representar o acesso ao mundo interior de cada um, o que não ocorre com a câmara que apenas registra o mundo exterior plasticamente concebido. Mas, valendo-se de uma linguagem mais acessível e de efeito imediato, o autor explora a vida interior das personagens, simplesmente fazendo-as depor. A obra cresce e se agiganta dentro dessa perspectiva cinematográfica, e o romance acaba por se tornar mais literário ainda, porque nos apresenta a imagem presente, vivida no presente. Seja pela voz, o discurso, o monólogo, ou mesmo o exame de consciência, a personagem impõe-se não mais como um homem de quem se “conta a história”, mas como um indivíduo que está presente enquanto se lê. Fiorese convoca suas criaturas, por um breve instante ao palco da vida; e elas por mais obscuras, por mais humildes, por mais toscas que pareçam na multidão, têm algo a revelar ou segredar – a consciência de um sofrimento muitas vezes indefinido, o testemunho de uma dor que pode (e muitas vezes é),coletiva, enfim, aquela tônica do sofrimento humano. Dessas personagens nos acercamos com a simpatia despertada pela identificação. Vale a pena transcrever o que nos diz um certo Sabino da Pedra Azul (mistura de profeta com “maluco”), e verdadeiro mestre de cerimônias na abertura da epopeia de Fiorese empreende: “… Deus só pensa grande. E os pequenos, nada vezes nada. Sabino sabe sem ser sabido, mas ninguém sabe Sabino, nem o sabedor mais sabido. Porque eu não deixo. Eu sou a ignorância dos sabidos. Deus é grande e cada dia cresce mais ainda contra o mundo, contra os pequenos do mundo. Com as cercas, com os fazendeiros, com a polícia. Deus demasia. Também com as máquinas, Deus demasia. Com os parentes de sangue, com as igrejas dos sabidos, com as escolas onde eles colocam régua e relógio na cabeça da gente. Deus demasia. E os pequenos? Os pequenos têm de agarrar com Cristo Jesus, irmãozinho dos desgraçados, dos doentes, dos órfãos, dos minguados, dos famintos, dos cegos, dos coxos, dos acanhados, dos desprovidos, das viúvas, dos enjeitados, dos mal-ajambrados, das mulheres de beira de estrada. Deus só não caga na cabeça dos coitados por causa que Deus não tem cu. Então só faz engordar e engordar. E ainda arrota as leis dos homens e vomita mais cerca e arame farpado e empresta suas línguas de fogo pras carvoeiras e põe revolver na mão de pistoleiro e faz festa pra gato e patrão. O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó é grande, é redondo de gordo, e só quer saber de gente grande e redonda que nem ele. Os pequenos mais os magrelos ficam na míngua, aguentando as onze mil varas de Deus e agarrando com Jesus Cristo”. p. 9 De tal perspectiva sente-se a “religiosidade” exercendo poderosa influência no modo de produção capitalista extremamente excludente que historicamente se estabeleceu e se firmou no Brasil até hoje. A História tem por sinal, destaque importante na montagem do arcabouço do romance, pois os textos dessa natureza, vão aparecendo em costura perfeita num equilíbrio entre informação e interpretação de perspectiva comparativa. Há espaço também para impregnações líricas de um humanismo tocante como acontece em “Tudo lhe fede, nada lhe cheira” onde acompanhamos parte da vida e das desgraças de Betinha, ou em “A ausência mais cruel” ou ainda no fantástico capítulo “É melhor ser o primeiro na vila do que o segundo em Roma”. Vistos no conjunto, os capítulos ou fragmentos textuais formam uma teia neoimpressionista a partir de impressões cumulativas, que se vão agregando em torno de uma impressão maior. Ótimo que assim o seja, porque nos orienta para realidades e subjetividades insuspeitadas, competindo com a vida em inventividade. Não podemos deixar de acrescentar também, como um ponto a mais de interesse que obra nos causa, o fato de que, embora falte o conhecimento às personagens arroladas (como na maioria delas falta), elas veem, sentem, sofrem – e tiram conclusões. Amargas, cínicas, desesperadas e até bem humoradas, porém conclusões de quem se rebela, e em estado de revolta permanecem buscando estados de paroxismo que redundam em violência. Sempre violência. No grande painel que se vai construindo, há o avanço de um sociologismo para o regime de uma psicologia social. Eis o segundo plano que os sucessivos instantâneos de diferentes focos acabam por revelar na ótica dos personagens, os quias se movem sob a capa pesada do sofrimento, da falta de oportunidade, do tédio, da descrença e da indiferença. E o mais triste, constatarmos que a postura existencial dessas personagens não forceja através de atos ou intenções, a transformar o ambiente. “Aí a vida da gente não passa de trepar, comer e beber. Trepar, comer e beber. É só. Tem condição?” p. 75 “Ninguém teve a coragem de abrir a boca pra falar um á”. p. 69 “Já eu, nunca tive condição, muito menos coragem, de dar uma bela de uma banana pra esta vidinha besta!” pg. 190 Quando muito evadem-se para o Rio de Janeiro ou São Paulo, ou ainda para os Estados Unidos, como é o caso emblemático do escritor J.T. Dairy a experimentar o american way of life. Não se pretende transformar o meio. Se limitam a aceitar as regras do jogo que lhe são impostas, e a resistir o mais possível. Suportam os ditames violentamente repressores do meio, sua falta de justiça, de lógica, de ordenamento. Não sonham nem buscam, para além da revolta, aquela convivência crítica que, partindo da revolta, se viabiliza na reflexão e produz transformação. Isto ocorre, é bom que se diga, não somente nas paragens dos sertões de Minas, mas se alastra em gradações diversas por todo o país. O jogo da terra arrasada que todos nós bem sabemos qual é. Isto constitui a nosso ver, o cerne deste “Chão de presas fáceis”.
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