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    Não Com um Estrondo, Mas Com um Gemido (Coleção Abertura Cultural) - A Política e a Cultura do Declínio

    Theodore Dalrymple

    É Realizações
    2016
    256 páginas
    8h 32m
    ISBN-13: 9788580332759
    Português Brasileiro
    4.4
    62 avaliações
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    Em Não com um Estrondo, mas com um Gemido, Dalrymple dá a medida do declínio cultural e da triste decadência da Grã-Bretanha – com sua burocracia, mentalidade de bem-estar opressiva, juventude sem rumo e a perseguição em nome da democracia e da liberdade. O autor mostra como o terrorismo e o número crescente de minorias muçulmanas mudaram a vida pública na Inglaterra. Registra, também, suas observações incisivas de artistas e ideólogos e, como médico psiquiatra, discorre sobre o tratamento de criminosos e dos mentalmente perturbados, área de seu interesse.

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    Marcelo Gabriel Delfino picture
    Marcelo Gabriel Delfino15/12/2017Resenhou um livro
    4 (Muito bom)

    Certa vez fui buscar um documento na faculdade em que estudei há alguns anos. Na entrada de um dos prédios, no fim de uma pequena escadaria havia duas garotas sentadas. Uma delas vestida com trajes praticamente normais para o padrão de uma universidade: roupas indianas, ou que acham que são roupas indianas, bastante esvoaçantes e coloridas, além de colares, braceletes, piercings por todo o rosto; alguém poderia dizer que a garota era exemplo de algum desses cerimoniais que se aprende nas aulas de antropologia. Mas, como disse, ela não estava tão deslocada dentro daquele ambiente, isso é relativamente normal, sem contar que, mesmo quando algo é chocante, aquelas pessoas sabem disfarçar muito bem sua surpresa, para não correr o risco de serem acusadas de reacionarismo, etc. O estranho era mesmo a outra garota, que vestia apenas uma roupa branca e só. Era uma espécie de lençol e dava para ver que era só isso mesmo, que ela não usava nada por baixo disso. A outra garota atirava tinta nela, com as mãos ou com um pequeno pincel. Depois esta rolava em outro pano branco, colocado sobre o chão e se levantava para ser fustigada por tinta novamente para reiniciar o processo. Meu amigo perguntou a elas o que significava tudo aquilo. Era uma tarde de temperatura agradável, mas por ser inverno, faria frio mais tarde e era óbvio que a garota precisaria se lavar. Havia algumas pessoas sentadas na escadaria que ignoravam laconicamente as duas, além das que passavam e nem se dignavam a reparar nelas. A pergunta nos denunciou e as duas olharam com uma mistura de surpresa e indignação para nós dois, mais velhos e que não fazíamos parte daquele local. Mais que isso, nós éramos dois homens. Mas nada poderia me preparar para a resposta que a de roupas indianas nos daria. Ela simplesmente ficou nos olhando, tentando fazer uma leitura rápida do que éramos, e balbuciou algumas coisas ininteligíveis (claro que elas estavam “relaxadas” por assim dizer). Ele insistiu, desta vez tentando ajudar numa possível explicação: seria alguma forma de empoderamento? Novamente a resposta foi vaga e desconexa, mas veio acompanhada de um certo sorriso maroto, era isso mesmo! Nós rimos e continuamos nosso caminho. Ao olhar para trás, pude ver novamente a garota rolando no chão, o rosto coberto de tinta de várias cores. Embora pareça uma ficção, quem frequenta ou ao menos teve um contato rápido com universitários atualmente saiba que é assim ou até pior. Seria uma performance artística? Ao menos a impressão que se quer causar, sem dúvida, era essa. Mas é inegável que as garotas só estavam fazendo algo com a intenção de chocar quem assistia, um esforço vão, dado o “ambiente intelectual” em que se encontravam. O que faltava a essas garotas era, evidentemente, compreensão do episódio, do lugar e do significado do que estavam fazendo. Isso e uma clara incapacidade de elaborar e se expressar. Para mim, um retrato fiel do sistema educacional brasileiro, onde se aprende pouco e depois, na universidade, se destrói, em nome do pensamento crítico, o que poderia ainda ter de concreto dentro da cabeça das pessoas. Comecei narrando um fato real (e corriqueiro, infelizmente), de pessoas que atingiram o ensino superior de uma excelente universidade, que geralmente se imagina estarem livres dos percalços identificados por todos na educação, para comentar sobre o primeiro tema do livro e que é fundamental em tudo o que virá depois: o ensino da língua. As garotas ali eram parte de uma elite, se não econômica, ao menos em termos de educação e deveriam ser mais articuladas. Dalrymple discute se os novos métodos de ensino da língua, que procuram não corrigir os alunos, com medo de que se traumatizem para o restante da vida e que não querem dar sequência ao que entendem como domínio de classe, podem levar a algum lugar que não seja desastroso. Para nós, brasileiros, o tema é fundamental uma vez que, inspirados em Paulo Freire, nossos educadores se convenceram de que a fala e a escrita dos alunos, por mais erradas que sejam, são apenas manifestações de sua condição social, de seu grupo, como gírias, adaptações e invenções, pura criatividade de um povo alegre e malabarista por vocação, que não merecem e não podem ser corrigidas. Para esses iluminados, ensinar a norma culta significa tolher a criatividade espontânea das classes mais baixas e submetê-las, desta feita pela via da língua, ao domínio de classe. O que esses autores não percebem é que a língua é também uma forma de reconhecer o mundo (inclusive o interno). Pessoas que tem pouco domínio da língua não conseguem se expressar adequadamente, mas também não conseguem compreender sutilezas e gradações tanto na própria linguagem quanto na realidade. A língua é certamente um instrumento de conhecimento do mundo. Se nos ensinarem que uma bola não é redonda, mas triangular, sem que ninguém corrija, vamos seguir pensando que o formato redondo na verdade se chama triângulo. Isso em relação a uma forma, agora imagine conceitos complexos, a expressão de sentimentos e sensações, o que acusa pensamentos confusos e encerrados num labirinto sem contato com o mundo externo, incapaz de trocar com ele, pois não consegue compreendê-lo. Alguém que defenda essas hipóteses não deveria ser levado a sério, para começo de conversa. E há um lado mais nefasto ainda, que é o engessamento daquele que fala erradamente na sua classe social. Porque se o sujeito usar a tal liberdade de escrever como quiser, não será aceito em vestibulares, concursos públicos ou a qualquer vaga de emprego que dispute. Sua condição estigmatizada vai perdurar por toda a vida e no máximo se terá criado um revoltado. A cereja do bolo, no entanto, vem quando nos damos conta que apesar de toda a pompa com que descrevem a criatividade da língua viva falada, de seu potencial contestador, revolucionário mesmo, esses autores não aplicam suas teorias na prática. Nenhum deles usa gírias, escreve como bem entende e se vale da sintaxe das ruas para apresentar suas ideias. É um belíssimo exemplo, e que a meu ver desacredita definitivamente essas teorias, de paralaxe cognitiva, termo usado por Olavo de Carvalho para se referir aos intelectuais que não conseguem refletir sobre sua própria condição e acabam apresentando inconscientemente a refutação de suas ideias. Como alguém que tenha limitações em relação ao principal instrumento que temos para travar contato com o mundo pode almejar um lugar no mundo? Praticamente como arremate a essa precarização da inteligência, que atinge principalmente as classes mais pobres, mas não apenas elas, encontramos uma miríade de teorias que procuram relativizar a responsabilidade das ações dos indivíduos. Ora são os pais, a violência simbólica, a genética, a miséria, a violência na escola, etc, tudo aparece como atenuante. Sobra muito pouco espaço para escolhas e consequências, algo que deveria ser óbvio em nossas vidas. Dalrymple repudia qualquer teorização que retire das pessoas as consequências de suas ações, à ausência de autorreflexão, que leva a absurdos de deturpação moral. S Crítica solidamente embasada em sua experiência profissional nos presídios, entre outras instituições, em que lida com situações extremas e pode constatar que nossa principal doença é a de atribuir a outros a responsabilidade por nossos atos. Destaco mais dois ensaios que são emblemáticos. Sobre o islamismo no ocidente, que gera jovens que pretendem manter o extremismo contra a sociedade de que fazem parte (e na qual usufruem liberdade). Ao mesmo tempo em que consideram as mulheres ocidentais como prostitutas que devem ser violentadas, as procuram em busca de sexo. O contato com drogas, que consideram um pecado gravíssimo, enfim, a incapacidade de enxergar sua condição e como ela contradiz a sua fé. Mas, obviamente, não são capazes de perceber a contradição inerente a suas vidas e cobram dos outros toda a rigidez que não são capazes de viver. Imagine como é passar sua vida toda em negação, gozando de tudo o que considera errado, mas incapaz de abandonar isso. Essa contradição geralmente é resolvida de modo violento. E com novas leis sendo aprovadas contra a suposta “xenofobia” dos europeus, podemos ver casos de estupro onde os muçulmanos não são considerados culpados, literalmente recebendo salvo conduto porque se trata de “sua cultura”. Assim, cada vez mais contraditórios, esses jovens muçulmanos ocidentais se tornam também mais violentos, dispostos a fazer valer a pureza de suas ideias e de sua fé sobre os infiéis. A discussão nesse caso é tão importante quanto mais se resmunga qualquer coisa sobre multiculturalismo. Se a Europa abandonar sua cultura em nome da tolerância irrestrita, é evidente que em alguns anos não se poderá mais falar em uma cultura europeia. Tudo terá sido modificado ou mesmo voluntariamente esquecido. Agora, levando em conta o comportamento dessas pessoas, que espécie de sociedade multiculturalista vai emergir desses conflitos? Um sinal de tolerância é justamente educar crianças para absorvam a cultura do país em que estão vivendo, sendo tratadas como estrangeiras, mas com a mesma liberdade, desde que aceitem viver sob os costumes locais. Na prática, essa postura acaba aceitando os filhos de imigrantes como cidadãos sem qualquer tipo de restrição. Foi assim e deveria continuar sendo. Mas defensores de novas ideias consideram que qualquer um tem direito a proteger sua cultura, mesmo que ela ofenda e ameace diretamente pessoas inocentes (ou cause mortes, como se sabe). O outro ensaio é um verdadeiro primor e encerra o livro. Trata de uma jovem que o autor conheceu no presídio após ela matar sua namorada. Quando reconstitui sua história, tenho certeza que se lido por um esquerdista, ganharia todos os elogios, pois parece vincular uma vida de sofrimento, de miséria e abuso sexual até desembocar em uma atitude extrema. Mas não estamos diante de um autor simplista. Já quase no fim, o que destruiria completamente a simpatia que até então os progressistas teriam por ele, passa em revista as teorias que supostamente poderiam ajudar em seu desenvolvimento. Ora, aprendemos com uma multidão de autores que a família patriarcal, monogâmica, heteronormativa, etc, etc, gera mais neuróticos do que qualquer outra coisa, mas Dalrymple mostra que isso foi justamente o que lhe faltou. O Estado havia lhe dado uma pensão e uma casa, dizendo que poderia se virar bem, quando a retirou de casa. De modo que ela nem precisava trabalhar, porque não lhe faltava nada; logo, não se trata de miséria. Liberdade sexual também não lhe faltara, já que houve até muita, a ponto de ser abusada por um dos irmãos. Mais algumas doses desse remédio não resolveria. Da mesma forma, seu padrasto abusava da tolerância do Estado em relação a seus crimes, sendo solto a cada vez e podendo voltar para casa. Drogas para dar asas à sua criatividade e não ser careta? Teve acesso desde sempre, se embebedando todas as noites que podia. Tudo o que os progressistas defendem lhe foi dado e, no entanto, isso só a encerrou em mais sofrimento. Nenhuma das soluções mirabolantes que os esquerdistas afirmam possuir e que já são empregadas tanto na Inglaterra quanto no Brasil foi capaz de impedir que a garota caminhasse para o desastre. Mas no presídio, ao contrário do que se poderia pensar, não havia uma transtornada sofrendo de crise de abstinência e ameaçando suicídio. Havia uma pessoa tranquila, com plena consciência e arrependida de seus atos, que assumia responsabilidade por eles e se tornara uma pessoa gentil e obediente. O que lhe faltara por toda a vida, que falta a tantas crianças hoje, transformadas em ditadores intocáveis por todos os educadores, era limite. Se alguém tivesse lhe transmitido valores e limites, sido firme a ponto de lhe negar certas liberdades e prestado atenção ao ambiente que vivenciava, provavelmente não teria chegado ao ponto de cometer um assassinato e tivesse escolhido outro caminho. Mas se cada adulto bate palmas a atrocidades infantis como se fossem maravilhas da humanidade, depois se cala diante do egocentrismo adolescente, tudo por medo de contrariar os “especialistas”, o adulto que sai desse processo só pode ser alguém sem o menor senso moral e de responsabilidade.

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    Anthony M. Daniels

    Anthony Daniels é um médico psiquiatra e escritor britânico, também conhecido pelos pseudônimos Theodore Dalrymple e Edward Theberton, entre outros. Aproveitando a experiência de anos de trabalho em países como o Zimbábue e a Tanzânia, bem como na cidade de Birmingham, na Inglaterra, onde trabalhou como médico em uma prisão, Daniels tem escrito profusamente sobre cultura, arte, política, educação e medicina. Além de seu trabalho em medicina nos países já citados, Anthony Daniels já viajou extensivamente pela África, Leste Europeu, América Latina e outras regiões.

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    Anthony M. Daniels