Há enredos inovadores, ousados e envolventes. Mas nunca conheci nenhum que sequer se aproximasse desse. O Mythos – O fim do mundo é logo ali está além de qualquer imaginação, com exceção da criatividade singular de seu autor.
Nosso protagonista não é jovem. Sua experiência já se revela em um corpo físico cansado, mas duro na queda. Pastore é seu sobrenome, vulgarmente chamado de Pastor. Logo no início percebemos que o povo o odeia, a polícia também. Ele acaba de ser detido e prestará depoimento. Está sendo acusado de ser o sanguinário Homem de Palha, assassino que gosta de estripar suas vítimas.
Pastore não é santo, logo notamos.
Mas ele também não costuma levar crédito pelo que não fez.
Ele não é o Homem de Palha. O problema é que sua ficha está longe de ser limpa. E, claro, ele é um poço de informação para a polícia. Pastore é um ex-militar que atua, agora, como detetive. Mas nem tudo o que diz faz sentido.
Calma, eu explico: Pastore carrega um dom (ou talvez uma maldição). Ele vê fantasmas. Os espíritos descarnados não são belos, tampouco permanecem eloquentes quando presos no mundo dos vivos. Logo, Pastore leva uma vida de grande dificuldade.
Com esse dom, resolve casos complexos. Igualmente, no entanto, acaba por se envolver em situações bizarras. E isso nos leva ao enredo de O Mythos.
O crime...
Em Taubaté, mais de quarenta crianças desapareceram numa excursão ao museu Monteiro Lobato.
O sequestro...
A jovem filha de um importante embaixador foi sequestrada.
O mistério...
Aparições estranhas e mortes violentas estão ocorrendo.
O mal...
Eles, eles estão vindo.
Eles vêm para assumir o lugar que lhes pertence.
Eles estão irritados e muito famintos por almas e devotos.
Eles sentem ódio porque nós (você, eu, todos) ousamos esquecê-los.
Eles são os Deuses Brasileiros.
Essa terra que agora pisamos era Deles muito antes de o cristianismo ou qualquer outra religião influenciar nossa cultura. Nosso povo ancestral os idolatrava e respeitava antes de ser subjugado e catequizado. E, assim, os Deuses Brasileiros silenciaram, adormeceram, mantiveram-se à espera.
Agora, O Mythos voltou. Não, ele nunca foi embora. Através da literatura, manteve-se vivo no imaginário do povo. Tornou-se uma "lenda", um "conto infantil". Nós reduzimos sua importância às imagens míticas do Saci, Boitatá, Cuca, Iara... Nós rimos Deles, brincamos com suas aparências e criamos cantigas com seus nomes.
"Nana, neném, que a Cuca vem pegar..."
Nunca mais cantarei isso na vida!
M. R. Terci ousou trazer elementos de Monteiro Lobato numa releitura provocativa, capaz de nos fazer questionar aspectos antropológicos da nossa cultura. Seu personagem, Pastore, é um dos melhores protagonistas que já conheci. Seu dom de ver fantasmas o destaca, claro, mas até mesmo os conceitos de morte e pós-morte retratados pelo autor foram completamente diferentes do senso comum. Isso o faz narrar os acontecimentos com humor negro, uma dose de realismo irônico e um toque de solidão.
O contexto e seu desenvolvimento são alucinantes. A narrativa é em primeira pessoa, intercalando-se entre presente e passado. Vamos entendendo aos poucos o que levou Pastore àquela delegacia, àquele depoimento, àquela situação na qual é odiado pelos policiais e pela comunidade. Por que Pastore se tornou o principal suspeito de crimes tão hediondos?
A descoberta impacta, porque (CARAMBA) não é possível prever nada.
Não posso deixar de comentar que existe, além de toda a criatividade singular, uma característica que me cativou em O Mythos: o empoderamento feminino. Há duas mulheres fortes que enfrentam as circunstâncias junto com Pastore, e há duas mulheres fortes que atuam como vilãs. Gostei demais disso! Outro ponto alto é o zelo em apresentar nossas tradições religiosas de raiz: a umbanda e o candomblé.
⇒ O enredo intrincado e complexo não é por acaso. O Mythos surgiu, originalmente, como um roteiro escrito especialmente para ser desenvolvido em uma minissérie! Sob os cuidados do diretor Janderson Geison, os episódios serão produzidos pela Estrada films. No próximo ano, teremos novidades!
De tudo o que já li, O Mythos ingressou para os meus favoritos com louvor e mérito que, com certeza, não serão dedicados a outra obra tão cedo. Traz um enredo primoroso, que valoriza a nossa cultura literária e religiosa. Monteiro Lobado nos é apresentado sob um ponto de vista completamente inesperado. Vale a pena conferir!
Leitura mais que recomendada! Mesmo para quem não gosta do gênero horror, essa é uma dica literária que deveria ser considerada.
Resenha publicada no blog My Queen Side: