Vargas Llosa desperta em mim um misto de indignação, discordância, mas também de admiração e simpatia. Sim, nessa obra, ele vai fazer a separação clara entre o que é "boa cultura" e "má cultura", deixando o que entendemos hoje como politicamente correto à beira de um surto psicótico. Ele vai sugerir que a cultura boa é claramente aquela herdada de Faulkner, Thomas Mann, Miguel de Cervantes; todos, curiosamente, europeus, e fará um tímido aceno ao único latino, o argentino Borges. Sim, ele poderia ter mencionado os grandes escritores latino-americanos como um bom latino que é, mas sua visão eurocêntrica do que é bom ou ruim já alastrada em seu modo de pensar de quem já vive há anos na Europa o cega e, em alguns momentos, até decepciona. Há diversos trechos que convidam à reflexão, até mesmo para aqueles que são críticos ferrenhos do pensamento elitista do que é a "boa cultura". Afinal de contas, o que se entende por cultura? Ela está mesmo entrando cada dia mais em decadência? Estamos rolando precipício abaixo? A realidade assusta um pouco e é apresentada como um tapa na cara, especialmente quando ele trata da nossa relação quase que obscena com a tecnologia. Hoje o conhecimento está na palma da nossa mão, mas até que ponto isso é bom? Será que ganhamos tanto assim intelectualmente hoje comparado aos nossos pais e avós? Estamos tão assim "por cima"? A polêmica vem arrebatadora quando ele sugere que, em nome do discurso de inclusão tão forte que há hoje, a dita cultura está sendo nivelada por baixo. Ou seja, ao invés do indivíduo se esforçar para alcançar o patamar do que ele julga ser cultura de verdade, a cultura está sendo banalizada, prostituída e rebaixada para alcançar a massa e diferentes classes sociais. Por isso, segundo o autor, a cultura saiu do patamar de formadora do intelecto, para espetaculosa, vulgar e submissa à futilidade. O mais incrível de tudo é que quando estamos prestes a chegar à conclusão de "mas que rabugento, conservador e elitista", Vargas Llosa nos brinda com uma crítica fortíssima ao capitalismo e sua contribuição à decadência do que ele entende por boa cultura com uma boa pitada de Marx. Amando ou detestando, "A civilização do espetáculo" vale cada página.