INSOLITUDES
Por Krishnamurti Góes dos Anjos(*)
Os textos que costumamos classificar como literatura maravilhosa, fantástica, sobrenatural ou realista maravilhosa, têm como característica fundamental a apresentação de acontecimentos ou realidades desusadas, extraordinárias ou sobrenaturais que rompem com o senso comum. Diz-se em uma palavra: insólitos. O seja, aquilo que desafia a realidade referencial. Desafio posto em primeiro lugar pelo próprio ato de ler literatura já que ela, por natureza, rompe com expectativas, extrapola limites. Em segundo, porque, em tais ficções, o insólito emerge em correlação com a realidade exterior ao texto, aquela experimentada pelo leitor, pois depara-se com eventos incomuns, além do ordinário e do natural. Um limite tênue, uma linha fina, uma fronteira muito porosa.
“Insolitudes” é o titulo do livro de contos com o qual Tiago Feijó, um cearense de 33 anos, radicado no interior de São Paulo, estréia na literatura. Publicado pela Editora 7 LETRAS, o volume além de trazer na capa a indicação de livro vencedor do Prêmio Ideal Clube de Literatura de 2014, está dividido em duas partes: a primeira – Insolitudes Literárias inclui três contos. “A insólita morte de Ernesto Nestor” que envereda pela linha do Realismo Maravilhoso (onde predominam verdades aceitas e incorporadas pelo imaginário corrente). Segue-se “Josés” de tendência ao Fantástico – no qual a verdade está prisioneira do embate entre razão lógica e sobrenatural -, ao propor um diálogo com o espírito do escritor José Saramago, e finalmente, o “Conto tirado de um poema” exemplo do chamado Realismo Maravilhoso” onde a realidade proposta no “Poema tirado de uma notícia de jornal” de Manuel Bandeira, é reelaborada e transformada em uma prosa de realidade plural e multifacetada. A segunda parte do livro intitulada “Outras insolitudes” reúne mais 6 ficções, totalizando 9 contos, todos com graduações do insólito.
Enfim, um leque de estratégias narrativas composto de marcas próprias, dando-lhes singularidade, e revelando um ficcionista que sabe exatamente o que faz. O insólito está presente em quase todas as narrativas apresentadas por Feijó, como estruturador do enredo, das personagens ou do espaço diegético (realidade própria da narrativa) levando inclusive, em conta muito evidente, a fragmentação e a pluralidade que permeiam a sociedade atual, abrindo assim, um espaço fecundo de possibilidades crítico-interpretativas, dentro de suas peculiaridades estruturais.
Vale a pena atermo-nos por um instante no primeiro conto do livro, curiosamente o mais longo. “A insólita morte de Ernesto Nestor”. Neste, o personagem Ernesto é um escritor que embora tenha galgado os píncaros da glória literária (de público e de crítica), se vê tomado de uma melancolia, um mal-estar, um desejo mórbido de criar uma nova obra. Em sua carreira meteórica Ernesto dera ouvidos a um crítico que classificou sua obra como “capenga de idéias”, mais tarde em autocrítica, achou-se um escritor mediano. Não obstante, publicou livros e mais livros de “boa venda e crítica regular”, que “foram expostos nas vitrines das maiores livrarias do país”. Em pouco tempo teve reedições de suas obras, foi traduzido, deu palestras, entrevistas, virou imortal na Academia. Um assombro esse Ernesto Nestor. Muito bem. Mas estava faltando algo...
Durantes anos perseguiu a idéia de escrever um grande, e definitivo romance. O desejo dá lugar a uma impaciência que “...não quer esperar o tempo de sua idéia, não quer concebê-la, aguardando o tempo da sua gestação, não! O que Ernesto Nestor quer é caçá-la, encontrá-la, agarrá-la, arroteá-la e fixá-la nas brancas laudas que a esperam”. E o que o conto nos deixa entrever até aqui, é que tratasse de um personagem/autor que permanece na crosta superficial da criação literária lidando com produções regidas por clichês, simulacros, imagens vazias e efêmeras, rearrumando estereótipos e, sobretudo, servo de razões mercadológicas. O senhor Mercado que a tudo quer unificar e produzir. Que quer se impor até como linguagem.
Neste desejo insano de produzi a tal obra é que o “estranhíssimo modo pelo qual ela, a morte, nascerá dentro dele”, se estabelece. E por quê? Porque apesar de tudo, ele tem uma consciência, e esta lhe sopra que para escrever tal obra, ele precisa descer aos extratos profundos da sua alma, onde borbulham as contradições da condição humana, onde vive o antigo jamais esgotado, o repetido jamais decifrado, o espírito humano em toda sua beleza e sordidez, perplexidade e angústia e de onde brota o que de melhor a literatura pode realizar.
Afinal, dá-se o encanto, e nasce a obra, e com ela Hermeto, um sujeito miserável, imerso num abismo indecifrável de mágoas e rancores que foi sua história pregressa, que vive em si, dentro de si, o dilema da luta inconclusa entre o bem e o mau, a dor e o prazer, a loucura e a insanidade. Hermeto tem fome, e clama. “... e não há chamado mais forte que a convocação da fome! A voz da fome perturba e oprime, não faz espera a necessidade alguma, nem cessa diante da súplica da miséria. A fome vocifera e homem algum pode deixar de escutá-la. Hermeto tem fome”. E mais; aproxima-se na narrativa, um encontro final entre criador e criatura, quando acontece o inesperado, “porque todo homem é em si um grande juiz e todo homem tem em si a fome do julgamento”. Esta narrativa repleta de signos caminha para o insólito encontro entre a criatura demasiadamente humana chamada a viver no nosso mundo estúpido e cruel, e seu criador. Que sucederá nesse cara a cara? Vale a pena conferir.
A proposta que Tiago Feijó nos faz neste excepcional “A insólita morte de Ernesto Nestor – e os demais contos são igualmente apreciáveis no quesito qualidade literária -, se nos afigura como uma proposta de reflexão sobre o que está implícito como motivação da criação literária. Feijó lança esta proposta como quem sopra um vento fresco através das copas das árvores – artifício também usado pelo personagem Ernesto Nestor -, a nos acenar com a evidência de que a verdadeira arte é inabitual, excêntrica e se revela também por meio de insolitudes.