Hans Urs von Balthasar nos brinda com obras que nos faz penetrar na mais alta esfera teológica, e muitas vezes numa linguagem bem acessível, assim como seu grande amigo em vida, Joseph Ratzinger. Entretanto, esta obra que aqui resenho, que é o segundo livro de sua autoria que leio (o primeiro foi o seu escrito Nos conoce Jesus? Lo conocemos?), ainda que seja de uma linguagem acessível a todos, é uma obra que vale a pena ser lida mais de uma vez pela profundidade de seu conteúdo. Não quero dizer que o livro seja difícil e não desaconselho para quem quiser começar com ele, mas creio que é o tipo de livro, assim como os clássicos da espiritualidade, que vale a pena ler com calma e desfrutar da leitura mais de uma vez. Colhi muitos aprendizados com esta obra e gostaria de fazer um breve e singelo comentário dela aqui.
A morte é uma contradição e um mistério na natureza humana que intriga o homem desde os primórdios. Assim como a própria reflexão sobre a morte conduz ao homem uma reflexão sobre como se deve buscar viver a vida. Pois a forma como se pensa a morte vai alterar a forma como se vive.
O autor trabalha inicialmente a respeito do paradoxo entre permanência e transitoriedade, paradoxo presente na existência humana, desde quando vem ao mundo até o seu fim. O teólogo suíço perscruta o tema de uma forma inteligente, introduzindo o leitor à reflexão filosófica para quem aos poucos conduza ao Cristianismo e a sua solução frente a esta contradição que perturba o homem desde sempre.
A morte nos ensina que a permanência tem a sua importância, mas não ao ponto de rejeitar a todo o custo a transitoriedade da vida, pois esta nos é importante também. Mas deixo ao teólogo a responsabilidade de reflexão a importância destes dois fatores parodoxais, a permanência e a transitoriedade, e a solucionática cristã.
Hans Urs von Balthasar, além de esclarecer sobre este paradoxo, à luz da filosofia e da teologia, o autor nos brinda com a consciência de que na Santa Missa, por meio da Santa Eucaristia, do Corpo e do Sangue de Cristo consagrados, a distância entre o Céu e a Terra deixa de existir.
A Eucaristia é o próprio Corpo e Sangue de Cristo transubstanciados. Quem tem os olhos da fé consegue enxergar isso, mas que não os tem, não vê, mas aquele pão e vinho não é mais como tais, mas sim Corpo e Sangue, mesmo que a pessoa não creia.
Os santos e bem-aventurados, onde quer que o Cordeiro vá, eles vão juntos com Ele (cf. Ap 14, 2.4). Então, se o Senhor se faz presente verdadeiramente na Santíssima Eucaristia, com seu Corpo e Sangue consagrados, logo o céu se faz presente na Terra, porque onde quer que Cristo vá, os santos O seguem. Com a Eucaristia, a distância entre o Céu e a Terra é superada (e a distância entre a Terra e o Céu também já foi secretamente vencida). (cf. BALTHASAR, 2022, p. 51s).
É tão bonito de saber que nossos parentes que estão com o Senhor, seja no Céu ou no Purgatório, se fazem presentes na Santa Missa com a presença do Senhor, uma vez que eles seguem o Cordeiro para onde quer que Ele vá (cf. Ap 14, 2.4).
Isto vai de acordo com o que Santa Teresinha fala de sua primeira comunhão, a respeito do encontro do Céu na Terra, diante da presença real do Senhor Jesus Cristo na Eucaristia:
A ausência de Mamãe não me contristava no dia de minha Primeira Comunhão. Não estava o Céu dentro de mim, e nele não tinha Mamãe desde muito tomado lugar? Desta forma, quando recebi a visita de Jesus, recebi também a de minha querida Mãe, que me abençoava e se regozijava com minha felicidade... (Santa Teresinha do Menino Jesus: A História de uma alma. Manuscrito A)
Deus quis ser tão acessível ao homem, que além de se tornar Palavra ouvida e lida, além de se encarnar, assumindo, pois, a nossa humanidade sem perder sua divindade, quis se tornar verdadeiro alimento e verdadeira bebida, a fim de nos dar a graça de seu amor e de sua vida, para que nós nEle, tenhamos a vida eterna. E a sua presença traz consigo a todos que o seguem, inclusive a quem amamos que já faleceu, porque como estão unidos a Cristo, onde quer que Ele vá, eles estão juntos com Ele (cf. Ap 14, 2.4).
Então, toda a vez que sentirem saudades de alguém que vocês amem e que já partir, visitem uma Igreja, conversem com Jesus, e saiba, que seus parentes estão presentes com Ele. Se sentirem ainda mais saudades, vão à missa, pois com a Encarnação do Senhor na consagração na Eucaristia, todos os parentes que morreram em Cristo, estarão junto com o Senhor Eucaristizado. Assim sentirão que a barreira entre o Céu e a Terra foi quebrada, pelo mesmo Deus que deu a sua vida por nós, porque Aquele que é eterno se fez presente no tempo e assim fez a perfeita aliança entre o Céu e a Terra, por amor a nós.
Recomendo a todos a leitura deste livro! Leiam em meditação, pois Hans Urs von Balthasar é um teólogo que vale a pena ser lido. Este livro serve como consolo a todo aquele que deseja, a luz da fé e da razão, querer perscrutar a respeito desta contradição que se chama morte, mas que é solucionada por Aquele que é a própria Vida (em Jo 14,6).