Por Krishnamurti Góes dos Anjos
E Editora Rocco acaba de lançar pelo seu Selo Anfiteatro, a Coleção Duplex que se propõe a abrir espaço para livros que promovam o diálogo entre diferentes linguagens. “Dupla exposição” de Paloma Vidal e Elisa Pessoa foi o título escolhido para iniciar a Série. Uma edição de fino acabamento que conta com capa dura plastificada e cuidadoso projeto gráfico. Seu formato quadrado permite melhor apreciação estética das imagens internas e traz ainda sobrecapa em papel vegetal onde se estampa a mesma fotografia impressa na capa, de tal forma que as imagens, uma vez sobrepostas, transmitem uma sensação de movimento que enfatiza e amplia o efeito sensório da técnica de dupla exposição fotográfica. Trata-se, portanto, de caprichosa edição que aposta fundo na proposta da obra. A de constituir um experimento artístico integrando texto e imagem.
As autoras Paloma Vidal (escritora argentina radicada no Brasil), e a artista Elisa Pessoa, ambas com expressivo currículo de realizações, já de algum tempo vêm trabalhando conjuntamente na combinação de textos e imagens. Não se trata, portanto, de livro ilustrado, mas um diálogo artístico narrativo-visual no qual as nove ficções curtas de Paloma interagem com fotografias tipo “dupla exposição” de Elisa. Esta técnica consiste em duas ou mais cenas diferentes mostradas numa mesma fotografia, isto é, de forma superposta. Tal efeito, utilizado artisticamente tem o condão de inclinar-nos a interpretações que estão contidas em vivências sugeridas ao imaginário aberto por Paloma Vidal em seus textos. Na prática acabam por tornarem-se personagens que propõem ao leitor idealizar, conceber e projetar imagens.
Já os textos de Paloma são de uma criatividade vigorosa. O texto “Please come flying” funciona como uma colagem a partir da leitura de um depoimento da poeta Elizabeth Bishop sobre a também poeta Marianne Moore. Ali uma voz narrativa lê, comenta e cria sentidos outros no texto base (que é uma tradução). Como que se dirigindo ao leitor, afirma a determinada altura: “Quero tentar te explicar o que exatamente me fascina neste relato feito por Elizabeth Bishop”. A leitura prossegue com intervenções da narradora: “O que aconteceu é importante. O que se condensa nesses acontecimentos, e que a escrita procura transmitir, também.” Será que a tradução interfere na apreensão de sentidos? O que se diz é mais do que o que não se diz? Ela pergunta-se ao tempo em que se dá conta que o trabalho de construção de uma amizade pode ser tão laborioso quanto a construção de um poema. Ambigüidades do dito, do insinuado, do implícito no texto que lê. Genial a sugestão que nos fica.
Em dois outros textos uma representação recorrente. Em “Sun in an empty room”, uma criança de apenas sete anos afirma: “... a gente pode imaginar o que quiser”, em “Sempre a partida” um casal de adolescentes conversa. Um deles diz: “– Eu nunca entendi muito bem pra que serve a imaginação”. E, em outro texto, “Venice”, há um ancião filho de japoneses, professor de poesia que escreveu sobre Fernando Pessoa, toma vinho durante as aulas e recita poemas de cor. O texto não diz, mas imaginamos que o velho professor Akira é fundamentalmente um imaginativo. Portanto, a imaginação é força-motriz em Paloma Vidal.
Os dois últimos contos do volume são absolutamente magistrais quanto à criação literária propriamente dita, e quanto à adequação na proposta de diálogo com a linguagem fotográfica, (ou será que o contrário aconteceu?). Em “Un petit noir comme celui-là” é narrada a história do garoto Fabiano, um brasileiro que mora com a mãe em Paris. Fabiano sente saudades do pai (que está preso), e sonha em receber uma cartinha dele pelo correio. Com essa esperança vive a cercar diariamente o carteiro que poderia lhe trazer as tão desejadas notícias. Fabiano tem um amiguinho de colégio, Engelbert, um camaronês que fala bem o francês, e que, para inveja de Fabiano, enviava cartões postais para sua avó no Camarões, como o fez precisamente no dia 4 de março de 1969. Dois garotos imigrantes pobres, deslocados, a viver em um país que lhes era estranho. Um certamente premido pela pobreza, o outro (talvez), por questões políticas. Lembramos que em 1969 o Brasil vivia tempos sombrios de feroz ditadura. E, finalmente, a dura e monstruosa face do racismo acaba por se abater sobre eles. Ver o desfecho formidável dessa narrativa.
Muito bem. Uma proposta artística como a dessa obra merece considerações adicionais que ajudem nas percepções (sem spoiler). Bem antes da leitura seqüencial que levará ao texto de Fabiano (que está na p.76). Entre as páginas 60/61 há uma fotografia encartada no conto “Tavistock square”. Nela aparece um casal de adolescentes, e entre eles, como que os separando, está a imagem de uma plaquinha com o nome de uma rua. Rue de Tolbiac que é justamente o endereço onde mora o Fabiano. Já a imagem dos adolescentes remete à outro texto: “Sempre a partida”. Resultado. A plaquinha com o nome da rua termina por se afigurar, no conjunto da obra, numa metáfora dos temas tratados por Paloma Vidal: as fronteiras, o sentimento de ser estrangeiro, as diferenças culturais, os deslocamentos, as ditaduras e o diabo a quatro que se interpõe entre os homens a dividi-los. Há vários outros simbolismos no livro.
Fica-nos também a dúvida: o que a literatura ainda pode realizar? Que caminhos iremos afinal trilhar nessa ambiência de encruzilhada em que estamos? São questões. “Dupla exposição” se constitui em um experimento artístico onde texto e fotografia, imaginação e signo imagético se aliaram na busca de um dos temas mais caros à arte da decifração do ser no seu ideal utópico, aqui entendido não no significado mais comum (aquela ideia de civilização ideal, imaginária, fantástica), mas como um sonho ainda não realizado, uma esperança muito forte. Utopia no sentido de um projeto humanista e humanizador. Como o disse Eduardo Galeano:
“La utopía está en el horizonte. Camino dos pasos, ella se aleja dos pasos y el horizonte se corre diez pasos más allá. ¿Entonces para que sirve la utopía? Para eso, sirve para avanzar.”, ou, por outro lado, acrescentamos nós em bom e claro português: continuemos a caminhada.