Terra de energias; Os três corpos; Mantra e vajra; Ritos funerários; Iconografia do sistema; Vida e arte religiosas; Budismo.
O Tibet (Mitos * Deuses * Mistérios) -
Philip Rawson
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Ver maisOm mani padme hum - mantra do nível sexual até o espiritual.
Budismo Vajrayana: onde Vajra é ao mesmo tempo raio, diamante e pênis, e yana é veículo. Pode-se dizer então que Vajrayana é o veículo do raio (por sua velocidade e esplendor), veículo do diamante (sendo indestrutível e valioso) ou veículo do pênis (pela potência criadora e ritos sexuais). Este budismo tibetano é a corrente totalmente inserida na tradição tântrica, e como Tantra se entende o método mais rápido (e perigoso) para a libertação, Nirvana; é um caminho "alquímico" no sentido de não apenas transmutar os aspectos maléficos em bondosos, mas de até mesmo utilizar aquilo que é "venenoso" como "remédio". E o que há de mais venenoso é o desejo, e o desejo mais poderoso no ser humano é o de sexo, por essa razão os atos sexuais são utilizados, seja de modo literal ou simbólico, como trampolim para a iluminação. Mas para isso é necessária a total disciplina (por isso nós ocidentais não conseguimos seguir este caminho) e uma sabedoria que saiba enganar a vontade para extinguir a própria vontade. O Tibet criou um budismo eficiente e sofisticado para um ambiente rígido, como as montanhas do Himalaia em que vivem. Viver lá não é fácil. A arte, o som, a palavra, o sexo e a meditação se tornaram os meios para a libertação e são utilizados a todo momento em todos os lugares. As práticas são constantes e intermináveis. A sofisticação é condensada dentro das mandalas, que são mapas mentais, existenciais e até metafísicos, pois representam na mesma figura diversos estados de ser. Nestes diagramas, que há vários neste maravilhoso livro de ótima qualidade, temos um centro (o centro do ser) com diversas manifestações de Budas e Bodhisattvas, que estão na existência e também dentro do ser (vários níveis de manifestação). Na mandala se vê um símbolo importante, mas pouco percebido pelos ocidentais: as nuvens. Elas representam as formas ilusórias da existência, impermanentes; um céu sem nuvem, vazio, é a realidade perene, mas diversas nuvens surgem para tampar nosso céu. Diversas formas surgem no vazio, quando tentamos meditar os pensamentos surgem em nosso centro de concentração vazio e o preenchem das mais diversas figuras. Não podemos nos livrar destas nuvens mentais no atual estado que vivemos, então o budismo tibetano busca contemplar estas "nuvens" e utilizá-las como ferramenta de iluminação, usando o veneno como remédio. Ao colocar nosso centro em uma dessas "nuvens" a percebemos como realmente é, e como a nuvem é efêmera ela desaparece e logo surge o céu da iluminação, o vazio da realidade. Mesmo que seja uma nuvem negra, carregada e tempestuosa, ao contempla-la em um momento passará e já não haverá mais nuvem. As nuvens que o monges tibetanos contemplam são as formas dos diversos Budas na mandala, diversos como as nuvens, mas não a forma e figura não é a essência verdadeira de Buda, mas o que está atrás, o vazio céu. Centrando-se nestas nuvens/mandala/Budas surgirá o céu/vazio/Nirvana, ou melhor, o Dharmakaya, o corpo da verdade, ou verdade absoluta. A imagem do Buda, produto da mente, pode ser compassivo como as imagens de Budas benevolentes, bondosos e misericordiosos. São belas nuvens suaves. Mas também pode ser uma imagem tenebrosa de um Buda irado, que mais parece um diabo. Estes são nuvens tempestuosas. Os Budas irados, chamados de Herukas são a própria justiça, e apesar de esfolarem nosso corpo, destruírem nossa mente e castigar nosso espírito, eles são nossos melhores amigos, pois transformam o veneno que há em nós em remédio. E qual é a natureza destas nuvens e ilusões que surgem em nossa mente e existência? É possivel ENUMERAR este entes que JORRAM da existência e se ACUMULAM em nossa mente? Sim, é possível e isso se chama Skandha, que significa justamente enumerar, jorrar e acumular. Os Skandhas são em 5 e eu os assciei a conhecimentos ocidentais para facilitar o estudo e também para demonstrar que não são conhecimentos exclusivos do ocidente: -Nama-Rupa (nome-forma), que temos no ocidente como o estudo da semiótica, onde a linguagem e símbolos formam a realidade. -Vedana (sentimento/percepção) que nós estudamos dentro da fenomenologia, onde se busca entender a primeira impressão dos fenômenos que temos diante de nós e como nos afetam. -Samjna (reconhecer) que por aqui estudamos através da psicologia que busca compreender sentimentos e ciência positivista que busca explicar fenômenos logicamente. -Vijñana (distinção de conhecimento) que são as estruturas mentais de como as classificamos, obviamente estudado pelo estruturalismo que lida com as estruturas abstratas que constituem a existência, e também as teorias sistêmicas que estudam os sistemas que formam a sociedade e natureza. -Samskara (que vem junto a ação, aquilo que forma) que são os fatores que constituem onser humano e são nossa "herança", que pode ser o inconsciente da psicologia, o DNA da biologia ou até mesmo toda a história. Com isso a ilusão ou o fenômeno que nos impede de ter o conhecimento das coisas-em-si é formado dos significados e simbolos que lhe damos, das perceções imperfeitas e sentimentos que temos em contato com as coisas, a interpretação mental que fazemos delas, de como foi estruturado no pensamento e na sociedade, e com a herança genética, histórica e psíquica que carregamos. O conhecimento metafísico demonstra o vazio dos conceitos, o yoga controla os canais de percepção, a meditação controla pensamentos, a contemplação do fenômeno desmembra as estruturas e o ritual elimina as heranças passadas. Eliminando toda a dualidade, mas também se utilizando dela, se chega a unidade. Essa unidade é definida através do famoso mantra da verdade absoluta, o Dharmakaya: OM MANI PADME HUM Onde: Om=o som que representa o Absoluto que permeia tudo Mani=jóia (locativo) Padme=Flor-de-lótus (locativo) Hum=interjeição de impulso Poderia se traduzir imperfeitamente assim: Om A jóia na flor-de-lótus, hum (Oh)! Aparentemente não tem sentido, mas tem. A jóia é o Vajra, que é o diamante (e também raio), que tem o duplo sentido de pênis. A flor-de-lótus, representa a vagina. Nas mandalas geralmente se vê os Budas em posição sexual com sua consorte. O Buda segura o Vajra que tem forma de arma real (espécie de cetro) e a consorte segura a flor-de-lótus rosa desabrochada, o Vajra está na flor-de-lótus, ou seja, a união de feminino com o masculino que elimina a dualidade e forma um só ser, um só corpo (Dharmakaya, corpo da verdade) e permeado de absoluto do Om então se chega ao Hum, exclamação de êxtase que alcança a iluminação, o Nirvana e se apaga o fogo do desejo (Nirvana significa exatamente extinção do fogo). Apesar de todo o simbolismo e também de práticas eróticas, há a contraparte metafísica: a flor-de-lótus é nossa natureza se elevando do barro da matéria, que é nossa mãe (em sânscrito e tibetano a matéria também é o aspecto feminino como no latim que vem de Mater) e se deposita fulguroso nesta flor que desabrochou a jóia, diamante luminoso da consciência absoluta, representado no oriente pelo homem cósmico Purusha, personificado no Buda iluminado. Homem e mulher formam novamente o andrógino, não há nem 1 (masculino) e nem 2 (feminino), mas 0 (zero), sunya, o Vazio que é Todo Absoluto.
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