Os Corpos Falantes - e a Normatividade do Supersocial

    Tania Coelho dos Santos, Jesus Santiago, Andrea Martello

    Companhia de Freud
    2014
    350 páginas
    11h 40m
    ISBN-13: 9788577241255
    Português Brasileiro

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    César de Oliveira10/07/2025Resenhou um livro
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    Da escuta do sintoma ao corpo falante

    Na psicanálise lacaniana, especialmente nos últimos momentos do ensino de Jacques Lacan, há um deslocamento significativo na concepção do sujeito, do inconsciente e da clínica. Este percurso pode ser entendido como uma travessia: da abordagem clássica do inconsciente freudiano e seu vínculo com o sintoma como significante, para uma escuta mais radical do inconsciente real, onde o falasser (ou "parlêtre") e o sinthome ganham protagonismo. É neste ponto que emerge a noção de "corpo falante" — o corpo afetado pela linguagem, não como suporte anatômico, mas como corpo gozado, pulsional, marcado pelo traço simbólico. ### O inconsciente freudiano ### Para Freud, e no primeiro ensino de Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Isso significa que ele opera por meio de significantes — deslocamentos, condensações e formações de compromisso (atos falhos, sonhos, chistes, sintomas). É o campo do simbólico, regido pela metáfora e pela metonímia. O analista, nesse contexto, busca interpretar, decifrar os enigmas do sujeito, acreditando que o sintoma pode ser lido como uma mensagem cifrada. ### O inconsciente real (ou falasser) ### No último ensino de Lacan, entretanto, essa concepção muda. O inconsciente real não é estruturado como linguagem, mas é aquilo que foge da simbolização, que retorna sempre no mesmo lugar, como trauma, como resto que não se traduz. Aqui, Lacan introduz o termo falasser (parlêtre), fundindo fala e ser: o sujeito é corpo que fala, e o fato de falar o marca de modo irredutível. Este inconsciente é presente, atuante, real, não mais um saber a ser decifrado, mas um saber que não se sabe — opaco, que insiste. ### O sintoma ### Na psicanálise clássica, o sintoma é uma formação do inconsciente, um compromisso entre o desejo recalcado e a exigência da realidade. É significante, ou seja, pode ser interpretado. O sintoma fala, tem sentido, e o trabalho analítico visa sua decifração — com o objetivo de dissolver ou atenuar seu impacto. ### O sinthome ### No ensino tardio de Lacan, porém, o sinthome (com “th”) é proposto como um nó singular entre o real, o simbólico e o imaginário. Inspirado por Joyce, Lacan passa a ver o sinthome como modulação do gozo que permite ao sujeito habitar o mundo, mesmo que de modo precário. O sinthome não se interpreta, não se dissolve — ele se sustenta como modo de gozo que mantém o sujeito funcionando. A clínica passa, então, do "curar pelo sentido" para o saber fazer com o sinthome. ### O corpo falante: gozo e linguagem ### A noção de "corpo falante" (corps parlant) surge nesse contexto do último Lacan. Trata-se do corpo afetado pela linguagem, invadido pelo gozo, onde o simbólico e o real se entrelaçam diretamente. O corpo falante não é biológico, nem imaginário, mas um corpo onde a palavra deixou marcas, onde o gozo pulsa de maneira singular. É o corpo do falasser, atravessado por traumas, nomes, sintomas e lalíngua — a linguagem materna que gruda no corpo antes de fazer sentido. Neste cenário, a escuta analítica já não visa apenas a decifração, mas o encontro com o gozo opaco do sinthome, reconhecendo no corpo falante a singularidade irrepetível do sujeito. ### A travessia clínica: da interpretação ao saber-fazer ### A travessia entre o inconsciente freudiano e o inconsciente real implica também uma mudança clínica. Se no início a aposta era interpretar o sintoma para alcançar o desejo, agora trata-se de permitir ao sujeito assumir seu sinthome, fazendo dele um modo de habitar o mundo, um estilo de gozar. O corpo falante, com seu gozo inassimilável, exige uma clínica menos voltada para o sentido e mais para a manutenção de uma certa consistência subjetiva.

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