Ham on Rye é aclamado por todos como o melhor romance de Charles Bukowski (1920-1994). Todo o romance decorre durante os anos da grande depressão (infância/juventude de Chinaski) e início da Segunda Grande Guerra Mundial. Publicado quando Bukowski tinha 62 anos, muitos contestam a sua “veracidade”, pois o romance relata a infância e a juventude de Henry Chinaski (alter-ego de Bukowski), e muito poderia ser omitido devido à idade avançada do autor. Mas, realmente, isso interessa? Todo o romance é passado em Los Angeles e todos os episódios da vida de Chinaski são contados de uma forma linear, sem qualquer aparatos ou artifícios. Um dos temas principais de todo o livro é a relação volátil que Henry Chinaski mantém com o pai, um ser bruto, cobarde e com a mania das grandezas. Essa relação conflituosa pode servir de explicação para a relação, também ela conflituosa, que Chinaski mantém com a sociedade em geral. Chinaski só confia numa pessoa: em Chinaski. Todos os outros são vistos como seres desprezíveis. Qual a razão para este afastamento? Nada mais simples: um pai tirano e um caso de “acne vulgaris” – descrito num dos capítulos com um grafismo impressionante capaz de revolver o estômago a qualquer um. Chinaski desenvolve, assim, um sentido claro de auto-consciência, compreendendo muito bem o seu lugar no mundo. No entanto, não há em Ham on Rye qualquer tipo de reflexão sentimental ou saudade pelos tempos idos. Antes pelo contrário: Ham on Rye é o relato cru da vida de um jovem que pretende ser um escritor e que, pouco a pouco, se vai afastando da família e dos amigos. Começa aqui a incessante procura de liberdade por parte de Chinaski. E é essa procura por liberdade que dá o tom ao romance, que o determina. Chinaski surge-nos como um anti-herói ou um herói absurdo, que se passeia pelas margens de uma sociedade que o oprime e o impossibilita de alcançar a tão ansiada liberdade. E é através da voz crua de Henry Chinaski que o leitor fica a conhecer as ideias (e não os ideais, entenda-se), os valores e as lutas do escritor Charles Bukowski.


