Em muito boa hora o leitor brasileiro pôde contar com a reunião, num único volume, das obras aristotélicas que compõem o "Órganon". As quase 650 páginas dessa edição constituem um valiosíssimo objeto de estudo para os cultores da filosofia e todo aquele que se interessa pelo pensamento aristotélico e por lógica.
Não é uma leitura fácil, longe disso. Porém, não quer dizer que seja intransponível. Talvez as "Categorias", "Da Interpretação" e parte das "Refutações Sofísticas" sejam menos áridas. Os "Analíticos" e os "Tópicos" exigem mais do leitor.
É interessante ressaltar que, a despeito de tratar prioritariamente da linguagem e da lógica, aqui e ali encontramos aspectos ligados à metafísica e até à ética aristotélica. Da primeira, por exemplo, encontramos alguma coisa nas "Categorias" e no "Da interpretação". Nos "Tópicos", em meio a lições sobre o emprego dos termos, considerações sobre gênero e espécie, encontramos passagens tais como "ser filósofo é melhor do que ganhar dinheiro, mas não é preferível àquele que carece do necessário à vida".
O próprio Aristóteles, nas "Refutações Sofísticas", reconhece a originalidade do seu trabalho, afirmando que nunca antes se tratou, de uma forma sistemática, desse tipo de investigação. E a pesquisa "laboriosa" a que ele se refere no final dessa obra relembra o leitor que o próprio estudo desse saber é igualmente laborioso.
Quanto à edição em si, vale destacar o esmero do tradutor (o prolífico Edson Bini) em esclarecer o emprego de diversos termos na tradução; o significado de diversos termos gregos; a presença (e a ausência) de determinadas passagens nas edições de Bekker e Ross (dois dos mais conhecidos estudiosos dos textos de Aristóteles)... e por aí vai. São quase 800 notas de rodapé. Um excelente trabalho.