A liberdade possível
O autor explica que a liberdade é, antes de mais nada, um estado de espírito. Não pode, pois, ser confundida com nenhum tipo particular de comportamento objetivo. Se liberdade for entendida como um modo de vida definido entraremos uma contradição sem saída, uma vez que tal modelo teria de ser escolhido por todas as pessoas, o que é improvável. Liberdade é se sentir em razoável coerência interior, vivendo de uma forma que acreditamos ser a mais adequada para nós mesmos.
Temos de nos voltar mais claramente para nossa subjetividade e conhecer melhor os fatores internos que nos limitam. A liberdade nasce da coerência e esta só pode se alicerçar no autoconhecimento. Ir atrás da verdade é um indicador de coragem para a introspecção, condição indispensável para se conseguir avançar na direção do autoconhecimento e da liberdade.
Outro passo importante consiste em revermos nossos valores de ordem moral. A não aceitação de nossos sentimentos apenas serve para remetê-los ao inconsciente, de onde influenciam muito mais ativamente nossas condutas, uma vez que burlam mais facilmente o controle da razão. A inveja tenderá a diminuir muito quando cada pessoa gastar a maior parte de sua energia íntima para se conhecer e saber de suas potencialidades ao invés de viver se comparando com outros. Não podemos perder tempo e força em comparações improdutivas e inúteis. Nossa referência tem de ser interna.
Temos de conseguir ser o melhor de nós e sentir que hoje estamos melhor como pessoa do que há alguns anos atrás. Não somos criaturas destinadas à maldade, à violência e às guerras. Podemos, porém, agir de forma muito destrutiva quando nos sentimos ofendidos ou ameaçados por alguma circunstância externa. Se os animais só reagem a ameaças concretas, nós, por termos capacidades de imaginar, poderemos reagir a supostas agressões, ou mesmo nos proteger contra supostas futuras agressões. Uma vez que não observamos simplesmente os fatos, mas também os interpretamos, podemos fazê-lo de forma a nos sentirmos agredidos por circunstâncias duvidosas aos olhos de outras pessoas, que interpretariam aquele mesmo fato de outra forma.
A não reação e o silêncio pode ser interpretado como o equivalente humano da fuga diante de um oponente mais forte. Aqueles que não reagem na hora, os que aparentemente são os mais controlados e têm uma força racional maior para lidar com o impulso agressivo, são exatamente os que podem sofisticar mais suas respostas. Como não reagem de imediato, têm mais tempo para encontrar formas mais elaboradas de vingança. Podemos esperar tudo deles, até mesmo retaliações mais violentas. Devemos aprender a interpor nossa razão e fazê-la atuar exatamente entre o momento da agressão e o da resposta.
Interessante saber que há uma sensação de medo difuso toda vez que estamos nos sentindo próximos da situação de paz que nos lembra a condição inicial da vida intra-uterina, pois associamos a dolorosa e dramática ruptura que nos aconteceu no momento do parto. Outro ponto válido a saber é que os desejos distinguem-se das necessidades pelo fato de que sua não-realização gera uma sensação de tristeza e frustração, mas não têm repercussões perigosas no que diz respeito à sobrevivência. É essencial um determinado grau de desenvolvimento interior para que uma pessoa possa viver o amor como desejo e não como necessidade.
Neste ultimo caso, o caráter opressivo e escravizante do amor impõe-se e se manifesta de forma dramática. O desenvolvimento interior necessário a uma nova visão do amor depende da conquista da capacidade de ficar razoavelmente bem sozinho, suportando a condição de desamparo. O nosso procedimento mais comum ao nos depararmos com alguma situação muito dolorosa consiste em negarmos sua existência ou em buscarmos remédios sintomáticos competentes para determinar um alívio imediato, mas que a longo prazo só causarão um aumento do problema.
Aqueles que conseguirem conviver com a verdade acabarão levando enorme vantagem, uma vez que ficarão bem consigo mesmos, ou seja, deixarão de perceber a solidão como condição catastrófica. Poderão chegar a gostar muito de ficar uma parte do tempo sozinhas e mesmo preferir viver de uma forma individual e não em dupla. Isso faz todo sentido para mim que gosto de estar a sós com minha própria companhia.
Se formos capazes de tolerar e aprender a conviver com a solidão, estaremos indo na direção de uma sensação agradável que deriva de nos sentirmos fortes. Nossa autoestima estará engrandecida; teremos razões de sobra para sentirmos aquele orgulho íntimo tão prazeroso de ser vivenciado! Nos sentiremos livres, pois desaparecerá a sensação de necessitarmos de pessoas mesmo para questões que envolvem os aspectos de ordem sentimental.
O brutal temor que temos de perder o afeto das pessoas se atenuará brutalmente, uma vez que temos condições para ficar a sós. Desaparece também a necessidade de estabelecermos elos amorosos de qualquer tipo e a qualquer preço, condição que costuma nos levar a relacionamentos opressores e escravizantes.
Os que conseguirem ficar melhor sozinhos não necessitarão da integração grupal, o que não quer dizer que não a desejem, que não sintam prazer em fazer parte de um todo maior. Aqui, da mesma forma que no amor, há uma diferença fundamental entre necessidade da vida em sociedade e o desejo de integração que existe em todos nós em determinadas condições. Se evoluirmos um pouco mais e formos além das fronteiras da integração grupal mais imediata, a do nacionalismo, por exemplo, poderemos vivenciar um sentimento de integração com toda a espécie, com o nosso planeta e até mesmo com o Todo, com o mistério que nos cerca, com todo o Universo.
Precisamos evoluir até aquele ponto que nos levará à efetiva superação dos limites que até então nos restringiram. É válido saber que temos dificuldade de pensar nos prazeres como um fim em si mesmo. Mesmo as atividades que são prazerosas por si mesmas são muito mais facilmente exercidas quando associadas a alguma finalidade concreta.
Nossa razão tende a recusar atividades praticadas só por prazer. Assim sendo, o sexo pelo sexo determina, do ponto de vista masculino, além do prazer nas trocas de carícias, a revolução do desejo e o apaziguamento do corpo e da mente. Para a mulher, não existe a saciedade; o único motivo para as trocas eróticas seria o prazer que elas determinam, o que é difícil de ser aceito pelo nosso psiquismo muito comprometido com a noção de utilidade e de finalidade. As experiencias podem ser agradáveis, mas isso não costuma ser o suficiente para serem buscadas.
É conveniente que sejam interessantes a algum propósito prático. Caso contrário, nosso cérebro, não muito calibrado para vivenciar o prazer por si, tende a rejeitar. Este aspecto soma-se ao vazio da sensação de solidão que se agrava pela inexistência da saciedade, afastando as mulheres dos caminhos igualitários propostos pela modernidade. O desejo masculino é desencadeado por estímulos visuais e de natureza ativa, ou seja, vontade de agarrar o objeto de desejo. As mulheres se excitam ao se perceberem desejadas por homens de condição privilegiada que despertam o seu interesse. Seu papel é mais passivo, o que não implica em nenhum tipo de inferioridade. Ao contrário, é ela que detém o poder de permitir ou não a aproximação dos homens.
Nossa civilização é obra essencialmente masculina. Isto se deve a duas causas: a primeira está relacionada com o seu desejo de chamar a atenção das mulheres e melhorar a sua posição no jogo de sedução e de conquista erótica.
A segunda razão é que os homens, invejosos do sucesso fácil das mulheres atraentes e por serem como são, bloquearam o acesso delas aos setores públicos, nos quais eles reinavam e se destacavam. Passaram a tratar suas atividades como as mais importantes e foram bem-sucedidos em convencer as mulheres disso.
Estas, impressionadas com os feitos masculinos, passaram a desenvolver admiração e inveja em relação a eles, o que reforçava ainda mais a tendência masculina no sentido de excluí-las do espaço público. As mulheres também contaminadas pela inveja em relação aos homens, sofisticaram suas armas, mostrando-se cada vez mais atraentes e sedutoras, condição que estimula ainda mais os homens para a busca de feitos maiores, os quais determinam o crescimento da inveja feminina, ampliando cada vez mais o aprimoramento de suas armas. Assim, infelizmente, os ideais relacionados com a libertação sexual, e que na década de 60 nos levavam a pensar que a emancipação feminina traria apaziguamento da tensão entre os sexos e melhora significativa da qualidade dos relacionamentos, não têm se confirmado.
O exibicionismo físico masculino pode gerar muito prazer aos homens, mas não provoca o desejo visual feminino porque este não existe. Homens muito bem cultivados do ponto de vista físico provocam a admiração de algumas mulheres e o desejo dos homens homossexuais. Assim, só lhes resta aceitar a derrota e decretar o fim da guerra entre os sexos. Os homens conciliados com sua condição não se sentirão inferiorizados pelo fato de sentirem o desejo visual e nem humilhados se não forem aceitos. Serão menos insistentes e muito menos invasivos, sendo que tal postura despertará a curiosidade feminina, uma vez que a vaidade delas ficará um tanto prejudicada por tão firme independência masculina; isto é válido particularmente para as mais belas, sempre acostumadas a ser muito assediadas. Concordo plenamente com essa tese. A vaidade corresponde a um importante ingrediente de nosso instinto sexual, uma vez que o exibicionismo provoca um estado de excitação muito agradável.
Assim como o autor, também me parece perfeitamente compreensível que algumas pessoas tenha uma postura crítica em relação à vaidade. O que não é cabível é a pretensão das pessoas, que a observam criticamente, de tentarem abrir mão de todas as condutas que possam deixar transparecer algum ingrediente desse tipo de prazer. Buscam uma espécie de transcendência, de superação da vaidade e o abandono dos prazeres do corpo, tratados como banais. Em verdade essa é uma das maiores expressões de vaidade, uma vez que implica na proposição de uma vida e de um estilo de vida próprio de seres superiores. Ao abandonar a vaidade, a pessoa procuraria se transformar em um sobre-humano, o que corresponde a uma vaidade ainda maior. Isso faz total sentido para mim, pois creio que fico no entre-meio de ser e não ser vaidosa (o que implica em ser vaidosa de toda forma, talvez mais do que julgava ser).
Adorei a parte que fala sobre a insignificância humana. A consciência da nossa insignificância determina uma sensação terrível e ao mesmo tempo agradável e apaziguadora, uma vez que determina enorme diminuição das pressões que costumamos colocar sobre nós mesmos. Nossa insignificância cósmica é definitiva e muito difícil de ser tolerada. Buscamos significância relativa através de algum tipo de destaque em relação aos outros seres humanos. Aquele que não aceitar bem e não se conciliar com a humilhação derivada da insignificância, tenderá a supervalorizar a sua importância relativa. Para atingir seu fim, usará qualquer meio que lhe seja acessível, de acordo com suas peculiaridades individuais.
O que terá em comum com os que estiverem percorrendo o mesmo caminho é que estabelecerá para si uma exagerada noção de dever e responsabilidade, que se manifestará tanto naqueles que administram seus privilégios como nos que se esforçam de modo heroico, e aparentemente mais digno do ponto de vista moral, para salvar os oprimidos. A insignificância cósmica e a finitude da vida terrena são um fato que tem de ser aceito e digerido. Ao fazermos mais esse avanço, passaremos a conhecer uma sensação muito agradável de relativa irresponsabilidade, de termos de zelar apenas por nós mesmos e contribuir de forma singela para o bem-estar coletivo, de não termos de realizar grandes proezas porque já sabemos que nem tudo está em nossas mãos. Isso é um gigantesco aprendizado que tomo consciência e creio que me será muito válido. Na linguagem do inconsciente, há um sistema de pensamento que teremos de tentar aprender a decodificar rapidamente: condições muito boas podem provocar medo em virtude do reflexo condicionado relacionado com o trauma do nascimento.
A consciência da existência de um determinado processo psíquico não faz com que ele desapareça, mas nos proporciona os meios para podermos nos posicionar melhor. É isso o que devemos fazer com relação ao medo da felicidade. De forma espontânea, prestamos mais atenção ao que está indo mal e somos mais displicentes com aquilo que vai bem. Geralmente só nos lembramos do que está sendo fonte de alegrias quando fazemos um esforço ativo para isso. Nos sentimos mais relevantes do que os simples animais e os outros humanos quando somos capazes de agir em direção contrária à natureza e vamos ao encontro do sacrifício e da renúncia. Esta conduta antinatural atiça nossa vaidade, nos faz sentir especiais e, até mesmo, mais significantes do ponto de vista cósmico.
Também nos condenamos ao sofrimento e carregamos uma boa dose de infelicidade. Não devemos subestimar o modo como esses conceitos estão impressos em nós e no nosso cérebro. Estamos profundamente marcados por ponderações morais assim construídas, de modo que qualquer tentativa de revisão será vivenciada, ao menos inicialmente, como um rebaixamento, um empobrecimento moral.
Nos sentiremos como se estivéssemos piorando e nos enfraquecendo. Nossas dúvidas e contradições acerca de nossos próprios pensamentos e ideias nos subtraem a força necessária para que possamos agir de uma forma livre. Não é fácil construir ideias sólidas e capazes de gerar um comportamento rico em determinação. Temos de aceitar nossas dualidades e nos entendermos com elas.
Gostei da definição de que intimidade é falar de si e não do outro. Sou íntimo de uma pessoa quando me sinto confortável e segura para falar com ela sobre mim. E isto acontece quando não me sinto julgada por ela e nem sujeita a alguma interpretação. É assim que devemos propor intimidade.
Outro aspecto relevante: o meio social sugere que a recompensa para quem se comportar de acordo com as convenções será a conquista de uma porção de sucesso, o que gera a sensação de destaque relativo às outras pessoas e traz consigo a atenuação da dolorosa sensação de insignificância absoluta que tanto nos faz sofrer. Esta posição deriva da maneira usada pelas próprias minorias para atenuar suas dores.
Se esquecem de pensar que a solução que encontraram para si não é tão boa assim, uma vez que costumam ser criaturas infelizes e ansiosas por crescentes doses de sucesso e notoriedade. Parece que não pensaram que essa solução, ainda que duvidosa, jamais poderia servir para todas as pessoas, uma vez que, no seio de uma dada coletividade, apenas um pequeno número de pessoas pode se destacar. Sim, porque se todos tiverem acesso a certas posses materiais e a determinados ambientes e situações, isso já não seria motivo de destaque.
O autor é bem direto ao dizer que o homem livre não pode ser escravo de nenhuma emoção, situação ou condição objetiva. Posso pretender chamar a atenção e ser admirado por algumas pessoas, ser significante e relevante para outras e viver de um modo útil e construtivo, uma vez que isto determina uma condição de vida íntima mais prazerosa, mas não posso acreditar que ser importante, ou fazer algo útil, segundo qualquer um dos duvidosos critérios que costumamos usar, possa me trazer algum bem permanente.
A razão para isto é muito simples: não temos importância alguma; somos mesmo é insignificantes. Nos afastamos dos caminhos da liberdade e da felicidade quando buscamos importância e significância onde deveríamos achar simplicidade e espontaneidade. O ser livre, independentemente de sua aparência, é aquele que se familiarizou com todas as peculiaridades de nossa condição de simples humanos mortais e as aceitou de modo doce e sereno.