Esse foi meu terceiro livro desse ciclo lírico-erótico do autor (já havia lido Riacho Doce e Pureza) e certamente Eurídice não deixou a desejar. Pelo contrário, José Lins soube conduzir a história do início ao fim com o rigor e a técnica dos grandes escritores.
.
Trata-se de um romance narrado em primeira pessoa no qual o protagonista, o menino Júlio, conta a sua história de vida, nos mínimos detalhes.
.
Desde o início é possível identificar o conflito intimista do personagem com o ambiente que o cerca: Júlio perde o pai ainda jovem, é rejeitado pela mãe, vê sua irmã Isidora prestes a se casar e abandonar a casa, e sofre com as pressões da sua tia Catarina que pretende lhe mandar para uma espécie de internato, contra a sua vontade. Uma coisa que eu pude notar e que me causou uma impressão muito forte é que, a todo momento, o protagonista sente a falta de alguém a quem pudesse confiar e desabafar. Ele só tinha 10 anos e a dor que Júlio transmite no decorrer do livro foi algo que me causou uma angústia muito grande.
.
Após algum tempo, Júlio nos conta que está com 17 anos, cursa o 1º ano da Faculdade de Direito, mora numa pensão do Rio e divide quarto com um estudante da mesma faculdade que mantém fortes laços com a corrente integralista, chamado Faria. Nessa segunda parte, Júlio também nos apresenta alguns personagens que moram na pensão. São eles: Dona Glória, Noêmia e Eurídice (irmãs), Alberico de Campos, Dona Olegária, Jaime, dentre outros.
.
A densidade da narração é tão rigorosa que é possível construir um perfil muito bem definido de cada um deles. Nessa parte me identifiquei bastante com Noêmia e o senhor Campos, curiosamente, talvez os personagens com quem o protagonista tivesse mais confiança. E aqui eu faço uma comparação do senhor Campos com um personagem de Pureza que também me marcou muito: o capitão Vitorino Carneiro da Cunha.
.
O que mais me surpreendeu desde o começo do livro foi a passividade de Júlio frente a tudo o que acontecia ao seu redor: ele não se envolvia, ele não sabia se defender, não tinha voz própria e nem conseguia pensar por si mesmo. Ao contrário: ele consegue suportar calado a tortura de ver a mulher que ele amava nos braços do colega de quarto, e a única reação é torcer para que o colega morra. Ou seja, há uma demonstração clara de imaturidade na formação do jovem Júlio, à medida que ele descarta o enfrentamento e torce para que algo de extraordinário aconteça a seu favor. Outro exemplo dessa imaturidade é quando, já na parte final do livro, ele diz que vai se casar com Eurídice sem saber se o que ele realmente sente por ela é ódio ou amor.
.
Mas, no geral, eu gostei da história. Muito bem construída, uma trama envolvente, personagens bem caracterizados e uma leitura muito fácil e gostosa, dividida em capítulos curtos. Acho cansativo quando há aqueles capítulos intermináveis e, no entanto, José Lins do Rego soube tratar disso muito bem neste livro.
.
Recomendo para todos aqueles que apreciam uma boa trama psicológica.